Artigos
&
 
Colunas

Arlanza Crespo - Quem é Quem

No tempo da delicadeza

Esta edição da Folha Carioca é especial: número 100. Tenho todas guardadas comigo, e ainda me lembro da primeira reunião quando ela nasceu e se chamava “Folha da Gávea”. Quanta coisa aconteceu nesses onze anos de vida! E quantos “Quem é quem” eu escrevi! Alguns muito bons, outros nem tanto. Às vezes o entrevistado fica com vergonha, às vezes perde a vergonha. Às vezes sou eu que não estou num dia muito inspirado… Mas é tão bom escrever esta coluna que hoje me sinto ganhando um presente. É o meu presente de aniversário! E quando o editor me pediu que entrevistasse alguém com mais de cem anos de idade, eu vibrei. Escolhi a Castorina, moradora da Casa de Betânea, um lar de idosos no Jardim Botânico, onde eu sou voluntária.

Arte sobre foto de Arlanza CrespoAna Castorina da Silva começou me dizendo que o nome Ana vem da avó materna e o Castorina da avó paterna. “Deve ter alguma relação com a estrada”, me disse lúcida, no alto dos seus 100 anos de idade. Castorina é solteira, mas teve mais de vinte namorados. Não casou porque eles só queriam “furunfunfá” ou “tico-tico no fubá” e ela era uma moça séria. Foi noiva uma vez, mas o noivo (um mineiro sabido) era muito pobre e não tinha nem roupa. Trabalhava na padaria e dormia em cima do forno. Queria era casa, comida e roupa lavada de graça, “mas fazia serenata pra mim e me amava”.

Castorina também trabalhou como costureira e fez muito “manteau” de casimira. Trabalhou primeiro com um alfaiate e depois no ateliê de madame Olga na rua Paissandu. Nessa época devia ter uns 20 anos. Também cantava no coral da igreja Santa Inês com a irmã Celina e tem muito orgulho em dizer que é soprano. Aliás sua voz continua afinadíssima.

Contou histórias de quando foi morar na Casa de Betânea, não lembra há quanto tempo. Disse que lá, no princípio, ficava junto da Lagoa. Nessa época não existia a rua Lopes Quintas, que foi aterrada. A passagem era pela rua Visconde de Itaúna, onde tinha uma granja e ela pegava frango para fazer galinha ao molho pardo.

Depois foi ser doméstica na casa de um comandante da Aeronáutica, ali mesmo no Jardim Botânico. “Tudo dele tinha que ser engomado e ele queria dormir ouvindo o barulhinho da roupa”.

Castorina fez todo o primário, era muito inteligente. Mas parou quando já sabia fazer todas as contas e não tinha mais professora para ensinar nada para ela. Seu pai, Aarão Feliciano Lopes da Silva, era acadêmico e trabalhava no governo. Sua mãe, Virginia Maria da Conceição, era índia e tem uma história muito triste porque foi roubada da tribo, mas ela não gosta de falar sobre isso.

A delicadeza com que ela vai discorrendo sobre as histórias, indo e voltando no tempo como se ela fosse dona dele… a meiguice com que ela fala dos sobrinhos… a calma com que ela trata a vida… como foi bom estar ali! Não sei se tudo que ela me contou aconteceu daquela maneira, não sei nem se ela viveu no tempo em que colocou algumas histórias. Mas descobri que isso para mim não tem a menor importância. Conversar com ela foi uma bênção. Esse “Quem é quem” foi só um pouquinho da sua vida, mas foi um pouquinho tão grande e de tamanha delicadeza que eu posso dizer com certeza que foi a entrevista que mais me tocou nesses onze anos de jornal!

Castorina não anda mais, está fraquinha. Conversou só meia hora comigo, até cantou, mas depois ficou cansada. Não insisti, amanhã eu volto e a gente conversa mais.

artigos anteriores de Arlanza Crespo

Publicado em – Edição 117
Quando você vende músicas, você vende sonhos
Publicado em – Edição 116
Vencendo barreiras sempre
Publicado em – Edição 115
Vivendo e aprendendo
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 5.0/5 (1 vote cast)
No tempo da delicadeza, 5.0 out of 5 based on 1 rating

Deixe um comentário