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Haron Gamal

O céu dos escritores

Resenha de No osso, crônicas selecionadas, de Alexandre Brandão

A crônica é um gênero enganoso: fácil de ler, difícil de escrever. Muitos são os que tentam esse gênero mal-agradecido, poucos os que conseguem dominá-lo. E quem tem talento para se firmar como autor de crônicas, sabe que jamais será considerado escritor maior. Temos aí Rubem Braga, um dos grandes mestres da crônica. Quem se arriscaria a dizer que foi mais hábil na escrita do que Guimarães Rosa? E foi muito mais lido. O cronista é feliz não por se saber passageiro, mas por insistir em escrever crônicas, apesar de ter toda a literatura contra si, apesar de também saber que nunca lhe elevarão ao céu dos escritores.

Capa do livro No ossoCrônica vem de Cronus, o deus grego que devorava os próprios filhos. Por isso, é associado ao tempo, que sempre está a nos devorar. O cronista tem acordo com esse deus impossível de ser vencido. Já que não pode derrotá-lo, conta-lhe os dias, sobretudo os mais prazerosos.

Depois de longo período distante dos jornais e revistas, a boa crônica ressurge em publicações que não pertencem à grande imprensa mas que não deixam de ter seu valor. Preocupados com o culto às celebridades, jornais e revistas de grande circulação desprezaram-na para publicar cronistas de ocasião, que mais se ocupam de capítulos de telenovelas e fuxicos políticos do que da herança deixada por Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, o já citado Rubem Braga e até mesmo Carlos Drummond de Andrade. Em publicações de menor tiragem, eis que ressurge o verdadeiro cronista, desenvolto, livre para jogar conversa fora, porque pode desenvolver seu texto ora com a lentidão que o gênero exige, ora com a agilidade necessária para mergulhar no passado em voos rápidos e logo retornar ao presente, sempre trazendo o lirismo nas asas da imaginação.

Assim podemos dizer sobre as crônicas selecionadas por Alexandre Brandão neste seu novo livro, que tem o mesmo título de seu blog, No osso. São abordagens muito sensíveis e interessantes que o autor, nascido em Passos, Minas Gerais, traz para a literatura não do Rio de Janeiro, mas brasileira. Na leitura das 45 crônicas, o leitor acompanhará Brandão no seu percurso ora de exaltação e alegria, ora de reflexão e, às vezes, de algum lamento.

“A casa do beco dos aflitos” é um dos textos que destaco. Nele, o autor faz o histórico da casa onde morou durante a infância e a adolescência, citando também parentes e amigos que passaram por lá. Mas o principal é saber do espaço de privacidade que lhe incutiu o estímulo à imaginação. Foi em cima de uma mangueira do quintal, que surgiu o protótipo do futuro escritor. A casa, como tudo na vida, passou, mas ficaram as marcas. Elas, vez ou outra, ainda lhe doem: “descobri o encanto da solidão”, mais adiante: “apartado agora do sobrado, ando na contramão do tempo até me ver de novo com as marcas de antigos arranhões, que ardem como nunca”.

“Com quem eu vou” aborda a chegada da internet e o que ela pode nos proporcionar. “De certa forma, nossa presença virtual é ensaio de um antigo desejo humano: a onipresença.” Após descobrirmos que sempre quisemos brincar de ser Deus, percebemos também os pontos positivos de estar conectado. Mas Brandão, apesar da presença constante nos blogs e no Facebook, afirma: “as redes sociais não substituem os locais de convívio, onde o velho olho no olho continua comandando a praça, inclusive a Tahir.”

Pungente, da mesma forma, a crônica “Cachorro”.  Aqui, o autor não apenas descreve os cães que teve na infância, mas narra sua volta à casa materna na ocasião da morte da mãe. Restam no local dois cães, e eles se encontram em profunda depressão por causa da ausência definitiva da dona. Uma vez que não pode ficar com eles, o cronista arranja quem os adote. No entanto, depois constata: “quando saíram os cães, fiquei quatro dias sem nenhuma companhia na casa vazia. Vazia daquela espécie única de que ficam as casas depois da morte da pessoa que viveu nelas uma vida inteira.”

Todos tivemos um amigo mentiroso, aquele que sempre sabia contar histórias extraordinárias que jurava serem verdadeiras, contar vantagens e sustentá-las bravamente. Assim aconteceu na roda de amigos de infância do autor e ele nos conta na crônica “A perna curta da mentira”.  Está numa rodoviária e se depara com esse tal amigo dos tempos de menino. O garoto ficara famoso por contar entre outras bravuras “sua luta contra uma horda de morféticos”, relatara também que seu pai tinha tanto dinheiro (e era apenas um professor) que caso quisesse poderia comprar todas as casas da rua. No encontro, diz que viveu pelo Norte, casou-se; o irmão enriqueceu e o trouxe para o Sul, convidou-o para cuidar de uma das empresas, cuidava da logística. Mas o cronista não lhe quer estimular a fabulação, depois de trinta anos ainda desconfia do amigo. Após despedirem-se e cada um seguir o seu caminho, Brandão conscientiza-se da própria infantilidade: “deixei de ter uma conversa quem sabe até instrutiva – um sujeito que morou no Norte e vive em São Paulo cuidando de uma grande empresa sempre tem o que dizer – para ficar nos meus devaneios, comandado por um tirano nostálgico que não me dá de presente o presente.”

Talvez o bom cronista seja sempre um nostálgico. Difícil manejar esse gênero sem uma pitada de lembranças, de saudade de um mundo que poderia ter sido e que não foi. Ou foi? Após refletir, ainda na mesma crônica vêm à tona alguns versos de Neruda: “Onde está o menino que eu fui? / Está dentro de mim ou se foi? / Por que andamos tanto tempo / crescendo para nos separarmos? / Por que não morremos os dois quando minha infância morreu?”

Brandão promete buscar as respostas. Mas também reconhece: o mentiroso pode ter sido ele próprio.

No osso, crônicas selecionadas
Alexandre Brandão
Ed. Cais Pharoux, 152 páginas

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2 Comentários para “O céu dos escritores”

  1. Teresinha Machado disse:

    Gostaria de saber como adiquirir o livro de crônicas do Alexandre Brandão.Gostei do comentário, acho que o livro deve ser bom.

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