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Carmen Pimentel - Língua portuguesa

Vc tb escreve axim?

Quando digo que sou professora de língua portuguesa, logo me perguntam: você acha que a internet está acabando com o português?

Sou professora há mais de 20 anos e já lecionei nos diversos segmentos do ensino: da Educação Infantil ao 9º ano do Ensino Fundamental, do Ensino Médio ao Superior. Desenvolver o gosto pela leitura e a habilidade da escrita sempre foi o foco da minha prática docente. Quando a informática chegou à escola, lá pelos anos 90, provocou uma revolução na Educação. De lá pra cá, não houve escapatória: o computador entrou em nossas vidas para ficar.

Com a internet, vieram os e-mails, os sites, os chats, os blogs, o orkut, o facebook, o twitter, enfim, as redes sociais – o terror dos pais de crianças e adolescentes. Mas por quê? Por que os adultos andam tão assustados com o Português que se usa na internet e nas redes sociais?

Anúncio utilizando linguagem de internetNunca na história da comunicação se trocou tanta correspondência como hoje. Pela internet, contatam-se pessoas de todas as partes do mundo para trocar ideias, conversar, pesquisar, estudar, informar-se. Encontram-se pessoas que não se via há tempos. Desenvolvem-se teorias científicas. E, por isso mesmo, a internet é um meio de uso intenso da escrita e da leitura. A questão é que escrita e que leitura se faz na internet, quando se é jovem.

A internet é lugar de agilidade, rapidez, dinamicidade. Ali, tudo muda de um minuto para outro. As notícias são postadas praticamente em tempo real. As conversas acontecem também em tempo real. Daí a necessidade de escrever rápido e pouco…

Surgiu, assim, o internetês: linguagem utilizada nos espaços virtuais. Junto com o internetês, a pergunta que inicia este texto. E respondo, com certa cautela, mas com a vontade de ajudar a entender o que se passa: não, a internet não vai acabar com o Português. O internetês é simplesmente uma variante do Português, da mesma forma que o “juridiquês” ou a linguagem dos surfistas, dos policias, dos militares, e por aí vai…

E cada um desses grupos usa a sua variante em local e situação apropriados, da mesma forma como nos vestimos. Ninguém vai à praia de fraque, nem à missa de biquíni. Não se fala juridiquês na mesa do bar, nem se usam gírias no tribunal.

Então, por que motivo as pessoas andam tão alarmadas com a escrita na internet? Justamente por isso: ela é escrita! E mais: por jovens! O nosso exemplo do juridiquês não assusta porque é usado por adultos, formados, com certo discernimento… O internetês é de todo mundo, principalmente dos jovens. Jovens ainda estão em formação, ainda estão na escola, ainda não têm uma profissão.

E é aí que entra a minha defesa! Apesar de tudo, eles sabem direitinho em que momentos usar a tal variante da língua! Corrijo centenas de redações por mês, milhares na época de provas de vestibular, e, pasmem!, não encontro nenhum vestígio de internetês nos textos dos alunos. O que isso mostra? Que eles dominam as variações da língua com muito mais segurança do que imaginamos: o internetês é para a internet, para as redes sociais, para twitter e outros espaços virtuais.

Se algum dia ele vai sair do ciberespaço e chegar aos textos do “mundo real”, não sei. Mas posso dizer que as variantes de uma língua não são melhores ou piores, superiores ou inferiores. Elas existem de fato, determinadas por fatores sociais, temporais, espaciais. Não são exclusivas da língua portuguesa, são universais e inerentes a todas as línguas.

B-FST 2GO = Breakfast to go
stp dsl pr la kestion = S’il te plaît, désolé pour la question
vc tb escreve axim? = Você também escreve assim?

* Carmen Pimentel é doutora em Língua Portuguesa.

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