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VINIL: reserva especial

RICARDO LINDGREN

A música desempenha diferentes papéis nas nossas vidas: ora é coadjuvante nas atividades diárias, no carro, no avião, no bate-papo com os amigos, ora é protagonista em momentos de lazer solitário, ou de celebração coletiva. Se para uns ouvir música é como tomar um chope, uma caipirinha, para outros é saborear um vinho de excelência.

Toca discosÉ desses “outros” que estou falando!

O vinil surgiu em 1948, substituindo os goma-laca de 78 rpm. Trouxe melhoria na qualidade sonora, estimulou o desenvolvimento de equipamentos sofisticados, e introduziu conceitos artísticos de alta qualidade na sua apresentação. No Rio surgiram lojas como a Modern Sound, especializadas em LPs importados. O mestre Josias criou seus primeiros estúdios residenciais, hoje denominados home theaters, e o que era apenas “ouvir um som”, tornou-se um ritual!

Soberano, o vinil compartilhou sua glória com as outras mídias (fitas de rolo, cassetes, etc). Mas a felicidade não é eterna, e no final dos anos 80 surgiu o CD, um arqui-inimigo criado pela tecnologia Digital. Som limpo, sem chiados, compacto, resistente, boa maneabilidade e portabilidade, com grande capacidade de armazenamento. Proporcionava ainda, expressivo ganho de eficiência na produção e na logística de distribuição. Não deu para encarar!

Rei deposto, as gravadoras entronizaram o CD, e ao fim do Século XX,  o vinil se tornou obsoleto, quase extinto. No Brasil de 1992 as vendas despencaram. Os benefícios da Tecnologia Digital e as medidas de redistribuição de renda transformaram o perfil do consumidor. O sucesso do Real em 1995, consagrou uma nova classe consumidora e seus gêneros favoritos: o sertanejo, o pagode, o axé.

Em 1997, artistas renomados não mais gravaram em vinil e muitos cederam o lugar de honra a novos nomes. Solidário, o velho LP também desapareceu das lojas. As rádios e TVs acompanharam essa mudança e as gravadoras influenciavam as grades musicais, instituindo-se o famigerado “jabá”. Na época, somente duas rádios (a 98 e a Rádio Cidade) detinham mais de 70% da audiência FM no Rio de Janeiro.

As vendas de CD cresceram e proporcionaram, durante anos, ganhos substanciais às gravadoras, mas as mudanças de paradigma provocadas pela socialização do uso dos computadores; a dramática queda de preços dos equipamentos; os downloads; a pirataria e outros meios de distribuição via internet, viraram o jogo e o CD, de “pedra” passou a “vidraça”. Atualmente, cada vez menos artistas obtêm marcas vencedoras em vendas de CD.

Vinil cortadoIronicamente a mídia digital tornou-se o pior pesadelo da indústria fonográfica, e foi responsável pela derrocada de importantes selos. Com tantas facilidades, artistas consagrados, e também aqueles que não teriam chance no ambiente cartorial das majors, dispensaram essas super estruturas, e passaram a gravar os seus próprios discos. Mesmo assim, devemos reconhecer o mérito das gravadoras nos quesitos distribuição, comercialização, e assistência jurídica, o que talvez explique o maior número de talentos comerciais e de marketing, do que artísticos, nos seus postos de comando.

O ressurgimento do vinil

A mídia digital deverá manter, ainda por muito tempo, a hegemonia no campo de batalha das inovações disruptivas, mas, ao final da primeira década de 2000, observamos um movimento crescente de aficionados a  procura do vinil. Atentas à demanda, as gravadoras retomaram sua produção, e as lojas especializadas passaram a promover esforços contínuos para captação de LPs usados.

Confirmando os excelentes resultados obtidos em todo o mundo, nos cinco anos anteriores, a Inglaterra emplacou 2011 com um crescimento de 40% no nicho do vinil, e uma queda de 13% em CDs. No Brasil, ainda sem números confiáveis, fala-se em aumento de 400% nas vendas no triênio 2009-2011, e 170% no primeiro trimestre de 2012.

A PolySom, desativada em novembro de 2007, reabriu suas portas em 2009. Dimensionada para uma prensagem inicial de 40 mil unidades/ mês, mostrou grande otimismo projetando quantidades três vezes maior para os anos seguintes. A despeito dos elevados custos de produção e da tributação, os preços nacionais estão cada vez mais acessíveis, e a luta vai continuar.

No ostracismo dos anos 90, o vinil sobreviveu graças às mãos habilidosas dos DJs, e aos fiéis escudeiros que garimpavam nos sebos, em meio a poeira e arranhões. Atualmente espaços privilegiados e confortáveis oferecem LPs e compactos novos em folha, como também exemplares usados em bom estado. O fenômeno é universal! Cada vez mais artistas nacionais e internacionais fazem tiragem de seus novos trabalhos em vinil, e clássicos e raridades fora de catálogo são re-editados.

Curiosamente, apesar de toda a intimidade com a tecnologia, o público mais interessado no vinil é formado por jovens de 14 a 25 anos. Fanáticos por rock, MPB, jazz e blues, parecem ter percebido o quanto a mídia digital subtraiu em qualidade. Na contra-mão desse cenário meio retrô, vejo os “coroas” desfilando com seus IPODs, numa cena insólita de pares trocados.

Mas quais as verdadeiras razões desse retorno?

Muito se fala da qualidade de reprodução do vinil, superior às mídias digitais nos contrastes sonoros, e baixas freqüências. Não creio que seja apenas isso. Assim como entre: leitores e livros, e enófilos e vinhos, existe uma sintonia diferente entre o audiófilo e os seus vinis, algo especial e que por alguma razão não percebo na lida com outras mídias. Uma iteração que se manifesta no manuseio, na preservação, no exame freqüente do conteúdo, na apreciação do texto e ilustrações … quase um namoro.

Nunca soube de alguém que namorasse um pen drive!

… e então, vem a lembrança do disco girando, a agulha sulcando as entranhas da trilha e de lá extraindo sons surpreendentes, uma visão hipnótica e improvável no mundo dos CDs e HDs.

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Muito a contragosto…
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Um Comentário para “VINIL: reserva especial”

  1. Para quem curte musica brasileira em vinil, nao deixe de conectar em nosso canal facebook

    Supernut MaraRecords

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