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Alexandre Brandão - No Osso

Perversão e verdade

Lendo o artigo de Francisco Goldman (publicado originalmente na revista “The New Yorker” e reproduzido na Piauí de maio), Filhos da guerra suja, duas questões brotaram dele.

A primeira tem a ver com a perversão. Tenho tendência a pensar na perversão como uma questão de foro íntimo. Desvio que acontece na relação entre homem e mulher, adulto e criança, mas, claro, há a perversão comandada pelo Estado, sempre houve, talvez haja sempre. Cito Herodes, que, para liquidar um futuro homem, mandou exterminar todas as crianças de até dois anos de idade. Cito também Hitler, disposto a fazer uma limpeza racial. Perversos ambos. Mas também a ditadura argentina mais recente foi perversa, possivelmente a mais perversa de todas, haja vista que não planejou o extermínio das crianças, mas o sequestro delas. Arrancadas das famílias transgressoras da ordem, seriam educadas num ambiente de pureza ideológica.

O artigo, na realidade, usa essa questão como pano de fundo, pois o que está em jogo é a suposta origem dos filhos adotados da mandatária do Clarín, jornal importante, verdadeiro império da informação nas terras de Maradona e do tango. Depois de idas e vindas, sobre as quais falarei em seguida, a situação atual é que não há evidência de que o casal de jovens adotados pela senhora tenha origem em famílias que contestavam a ditadura. Todavia, não se esgotaram todas as possibilidades de pesquisa.

Pois bem, as tais idas e vindas lançam luz sobre a questão da verdade. O Clarín é um jornal poderoso, digamos assim. Pertence à tal grande imprensa, essa sobre a qual sempre há suspeita de locupletação com o poder. É uma discussão infindável essa da ligação entre imprensa e poder, foge ao escopo dessa crônica, mas acho que a concorrência (o fato de existirem vários grupos) diminui a chance de uma aliança maliciosa entre essas duas instituições da democracia.Ilustração com Lula, o casal Cristina Kirchner e Nestor Kirchner, Hitler e Herodes

Volto ao caso argentino, baseando-me no artigo do senhor Francisco Goldman. Enquanto o casal Kirchner (no poder desde 2003) manteve boas relações com o grupo Clarín, a questão da adoção irregular dos filhos da proprietária não emergiu, ou não passou de assunto que correu à franja da profusão de fatos ligados ao sequestro de crianças na Argentina. No entanto, quando a presidência e o grupo jornalístico passaram a estar em lados opostos, surgiram as leis que de certa forma obrigaram o uso do DNA para confirmar a origem dos adotados. Os filhos da senhora do Clarín, em nome da lei, sofreram uma série de constrangimentos, que também souberam contornar de forma burlesca. Leiam o artigo, vale a pena.

Enfim, tudo isso para dizer que a verdade é uma construção. A turma lá de cima faz das tripas coração para que o fato em si seja a versão dele. Nesse momento, estamos vivendo, no Brasil, momentos decisivos ligados ao “mensalão”. Claro, há um jogo de interesse tremendo na questão. O episódio, ainda mal contado (pelo menos sem uma versão definitiva), do encontro entre Lula, Gilmar Mendes e Nelson Jobim é apenas uma onda pequena que pode estar anunciando um tsunami.

Espero uma imprensa comprometida com a verdade. Com a verdade dos fatos. Sem perversão.

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2 Comentários para “Perversão e verdade”

  1. Fania Rodrigues disse:

    A reciproca é verdadeira. E me pareceu de mal gosto, para nao usar a palavra perversa, colocar em uma mesma roda personalidades como Hitler e Herodes, junto com Lula, Cristina e Nestor Kirchner, e tentar fazer uma associacao dos estadistas latinas com personagens conhecidos pela crueldade com que governaram.
    E com todo respeito, o sr. disse, disse e afinal nao disse nada. A verdade nao repousa apenas na ausencia da mentira… Confundir, ou pelo menos nao esclarecer, tambiém implica em uma falta de verdade.

    Saudacoes
    Fania Rodrigues
    Jornalista
    Telesur e Caros Amigos

  2. Alexandre Brandão disse:

    Cara senhora Fania,

    Gostaria de dizer duas coisas a respeito de seu comentário.

    A primeira delas é que, Hitler e Herodes foram citados em oomparação à ditadura argentina, sem nenhuma ligação com Lula, Dilma ou Cristina Kirchner. Longe disso, vivemos um período democrático, com problemas, claro, mas longe desses momentos de atrocidade.

    Quanto ao segundo ponto, concordo com a senhora: eu disse, disse e não disse nada. Mas não creio que seja demérito da crônica ou meu. Isso é o reflexo de minha pequenez e ignorância frente a tantas manipulações que somos submetidos (em plena democracia) pelo poder (no qual incluo a imprensa).

    No mais, obrigado pela leitura. Venha outras vezes, no mais das vezes, sou um cronista das coisas pequenas.

    Abraços

    Alexandre Brandão

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