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Suzan hanson

Assim é, se lhe parece!

Outro dia, um programa na TV a cabo falando sobre a culinária da Jamaica me despertou o interesse em conhecer mais a respeito do país, seu povo e sua comida. Como achei que seria um tema gostoso para compartilhar, comecei a pesquisar na internet sobre o assunto.

A cultura prêt-à-porter na internet é extremamente democrática, tanto com relação ao acesso quanto à oferta de conteúdos, e bem própria à velocidade e diversidade dos dias de hoje. Mas, a rede também pode nos trazer grandes surpresas – boas e ruins.

Às vezes temas são tratados com superficialidade, outras vezes contém erros e impropriedades. Os erros, em parte, devem-se ao desconhecimento dos autores, mas, em outra, podem resultar de brincadeiras. Hoje a internet é pródiga em histórias fictícias que são verdadeiras pegadinhas para os incautos, tal qual a história de que Mark Zuckerberg estaria muito chateado com os brasileiros devido à “orkutização” do Facebook. Segundo o artigo, Zuckerberg teria dito: “se o Facebook abrir espaço para os gifs, o compartilhamento entre os usuários brasileiros ficará igual ao Orkut, cheio de letrinhas coloridas, se mexendo, com mensagens de carinho e amor”. Até a rede CNN temporariamente tomou a notícia como verdadeira e a repassou.

Outras vezes, num apertar de teclas, temos às mãos informações preciosas de grandes especialistas e/ou instituições. Abençoados os iluminados que disponibilizam seus conhecimentos na rede.

A minha experiência pesquisando sobre a Jamaica foi tão divertida, que acabei perdendo o tema original dessa coluna. Dentre os itens que foram se apresentando durante a pesquisa, a culinária rastafári pareceu-me um dos assuntos que mereciam ser investigados. Nessa busca, deparei-me com um blog falando de um lugar chamado Pontão dos Rastas, com direito a breve histórico do lugar, mapa da ilha onde se localizava, informações sobre ventos e ondas – era nitidamente um blog de surfistas, que possuem conhecida conexão com a cultura rastafári -, e até uma recomendação de restaurante, cujo dono gentilmente disponibilizava uma instigante receita de Carneiro ao curry.

Fiquei empolgada e continuei a leitura. O resumo histórico do Pontão contava que no início do século 18, um navio pirata, carregado de escravos jamaicanos, por sua vez roubados de um navio inglês, tinha batido num recife perto deste pontal. Para evitar o naufrágio, a carga havia sido liberada. Os jamaicanos, aproveitando a liberdade inesperada, nadaram até a ilha e nela buscaram refúgio, por ser cheia de grutas e coberta de mata densa. Aí se estabeleceram, e, tendo sido colonizados pelos ingleses, trouxeram como herança uma combinação da culinária original caribenha com a culinária inglesa, esta última fortemente influenciada pela culinária indiana. Nas palavras do blog: “…seus descendentes estão lá até hoje e criaram um excêntrico reduto da culinária jamaicana…”.

A história era tão boa, que fui dar uma olhada no mapa do blog. Foi quando me saltou aos olhos o nome da ilha: Wavetoon. Wavetoon? Ondas…cartoons…hahaha…tratava-se de um lindo lugar fictício, imortalizado numa história em quadrinhos, cheia de aventuras de surfistas e rastas. Adorei!

Ainda rindo comigo mesma, e já tendo perdido o assunto Jamaica, lembrei-me de outra história fictícia, que de tão envolvente, soa como real.

Trata-se de um filme de Woody Allen, de 1999, chamado “Poucas e boas” (“Sweet and lowdown”), protagonizado pelo Sean Penn. A história é sobre um violonista, Emmet Ray (Sean Penn), nos anos 30, que se considera o segundo melhor do mundo, depois de Django Reinhardt. O filme desfila críticas sobre Emmet, no formato documentário, enquanto uma história de amor e malandragem serve de pano de fundo. A trilha sonora é primorosa.

Como a resenha do DVD assumia a veia documental do filme, no dia seguinte saí à procura do trabalho do músico na internet. Não o encontrava, exceto nas resenhas do filme. Confesso, eu caí no conto! Mas, o lado bom da brincadeira foi ter conhecido a trilha sonora, em sua maioria executada pelo Django Reinhardt, o primeiro violonista do mundo no filme – Emmet era o segundo, lembram-se?

Virei fã incondicional de Django, esse real e incrível violonista belga, cigano, que muito jovem sofre um incêndio em seu trailer e é obrigado a largar o violino, sua paixão. Como recomendação médica, passa a tocar violão, que lhe exige menos técnica. São emocionantes as gravações originais individuais – ele morreu cedo, aos 43 anos, em 1953 – assim como as compartilhadas com Stéphane Grappelli, violinista francês, e banda. Juntos deixam-se levar pelo jazz afro-americano em pleno período entreguerras europeu, numa linda versão do novo mundo executada pelo velho mundo!

Da mesma forma que ganhei de presente conhecer Django nesse filme, compartilho com vocês minha descoberta da interessante receita dos rastas imaginários do Pontão (segundo o blog, embora vegetarianos, faziam por vezes a concessão de cozinhar carnes para seus clientes). O sabor do Carneiro ao curry me parece totalmente verdadeiro.

Vejam a receita em: http://wavetoon.blogspot.com.br/2009/04/o-pontao-dos-rastas.html

artigos anteriores de Suzan hanson

Publicado em – Edição 107
Mundo inteiro
Publicado em – Edição 105
Gelados no verão carioca
Publicado em – Edição 104
Comidas de (quase) uma panela só
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2 Comentários para “Assim é, se lhe parece!”

  1. Claudia disse:

    ah!!! ótimooooo!!! verdadeiro caldeirão!!! 😀

  2. Vera disse:

    Seu texto é uma verdadeira navegação na WEB.. rsrs
    Gostei.

    E, sabe eu vi no TLC ou GNT um especial sobre culinaria jamaicana e, pasme, vi também um programa que fazia exatamente a receita de Carneiro ao Curry.. rsrs

    BJKS

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