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Haron Gamal

Jogafora, o azarão de Leopold Bloom

Ulysses, de James Joyce, traz uma passagem em que um dos personagens, lá pelo entardecer, numa conversa de bar, comenta com alguns amigos a aposta certeira de Bloom no azarão Jogafora, na Copa de Ouro, uma espécie de grande prêmio do turfe local. Eis o diálogo:

  • O Bloom, ele falou, o negócio do tribunal é fachada. Ele botou umas moedas no Jogafora, e foi recolher os shekels.
  • Aquele cafre de olho branco? O cidadão falou, que nunca apostou num cavalo só de raiva.
  • É pra lá que ele foi, o Lenehan falou. Eu encontrei o Garnizé Lyons indo apostar naquele cavalo só que fiz ele desistir e ele me disse que o Bloom que deu a dica. Eu aposto o que vocês quiserem que ele levou cem xelins pra cinco com essa. Ele é o único sujeito de Dublin que se deu bem. Um azarão.

O episódio também é pertinente quando pretendemos falar sobre o livro, essa epopeia moderna, que, em algumas edições, ultrapassa as mil páginas. Ulysses é um livro sobre o qual muitos falam, mas poucos o têm lido. Às vezes, é possível observar que faz parte da biblioteca de muitos intelectuais, mas quando perguntamos sobre sua leitura, recebemos como resposta alguma hesitação. O que se depreende é que foram lidas algumas partes, e que o livro, como um todo, ainda aguarda debruçar mais dedicado e atento.

No Brasil, já se chegou à terceira tradução. A primeira é de Antônio Houaiss, editada pela Civilização Brasileira; a segunda, da editora Alfaguara, é de Bernardina Pinheiro; a terceira, de Caetano Galindo, foi publicada pela Penguin Companhia das Letras. Por que todas essas traduções quando se trata de um livro de difícil leitura, obra que aparentemente dá mais notoriedade às editoras do que compensação financeira? Um fato curioso: a edição da Penguin Companhia é uma espécie de edição de bolso, com o preço abaixo dos cinquenta reais.

Na verdade, quem consegue ler Ulysses até o final sente um certo gostinho de vitória, porque são muitos os desafios. Só assim se percebe a beleza que há nos desvãos daquele 16 junho de 1904 (dia retratado no livro), e nos percursos de Leopold Bloom e de Stephen Dedalus. Fica a impressão de que os conhecemos minuciosamente (de corpo e alma); também não deixam a desejar os que os cercam, principalmente Molly Bloom.

Durante a leitura, porém, a sensação é outra. Muitas vezes, ao mergulhar no universo psicológico de cada personagem, perdemo-nos. Sentimos então a necessidade de voltar para retomar o fio da meada, mas, quando não encontramos esse fio, temos vontade de abandonar o livro. Caso nos aventuremos a ir em frente custe o que custar, o novelo parece mais embaraçado. Há todo tipo de percalço: diálogos que parecem intermináveis, referências difíceis de serem decifradas sem a ajuda de especialistas e fatos que só compreendemos como possíveis quando os atribuímos às fantasias criadas pela mente dos personagens. Na tradução da professora Bernardina, há grande número de notas finais e inúmeras explicações sobre cada momento da narrativa. Mas elas acabam provocando efeito contrário, porque se nos apegamos a todos os esclarecimentos, já não faz sentido ler a obra como ficção. Inclusive poderá haver aquele que, munido das tais notas, discuta o livro como se o tivesse lido.

Para que se possa perceber a grandeza do romance, é preciso entender o momento em que Joyce o escreveu e quais as questões que geraram a necessidade da obra no universo da literatura.

O autor irlandês aproveitou todo tipo de narrativa existente até então para criar o seu Ulysses. Ele parte da narrativa realista, navega nas águas da oralidade, passa pela estrutura do texto teatral, por poemas, abusa na formação de neologismos, até desemborcar naquilo em que ele mais inova: o livre mergulho na interioridade de alguns personagens, sobretudo na de Leopold Bloom. Em determinado parágrafo, um narrador em terceira pessoa descreve a cena, mas logo a seguir o próprio personagem retratado assume a direção da narração tornando-a de primeira pessoa. Deixa de existir o que a teoria da literatura convencionou chamar de foco narrativo. Em contrapartida, há uma grande vantagem nisso, o leitor pode acompanhar o romance a partir de múltiplos pontos de vista.

Será, no entanto, agradável esse modo de contar histórias? Para respondermos, precisamos saber primeiro como o leitor entende o ato da leitura. Caso deseje uma narrativa linear, arrumada, com todo o percurso facilitado, é lógico que não vai gostar. Mas caso seja um leitor calejado, velho de guerra e de bibliotecas, perceberá que Ulysses instaura algo novo no horizonte da literatura. É certo que o livro não é para neófitos. Também não se trata de leitura direcionada a intelectuais, como alguns críticos gostam de ressaltar.

Ao escrevê-lo, Joyce traz a seguinte questão: a impossibilidade de o real ser representado pela literatura ou por qualquer outro tipo de arte. Somente frações do real são passíveis de representação, por isso as “apenas” vinte e quatro horas na vida dos personagens, por isso personagens como pessoas comuns, com todas as fragilidades e vícios inerentes à natureza humana, por isso a fragmentação. Uma história jamais poderá ser contada em toda a sua plenitude.

E onde ocorre a ação? Na cidade de Dublin e em quase todos os lugares possíveis, interiores e exteriores, físicos ou imaginários. Parte-se de casa, passa-se pela igreja, cemitério, jornal, rua, biblioteca, bares, praia, hospital, e até mesmo por um bordel.
Lendo Ulysses, podemos nos perguntar: o que a literatura é capaz de retratar, até onde pode ir, como pode apresentar seus personagens, qual o limite deles, como suas histórias podem ser contadas?

Retomando o início dessa matéria, percebemos que a aposta e o acerto de Bloom no seu azarão acabam por se tornar uma metáfora da aposta e do acerto do autor no seu Ulysses, na aposta de que a literatura, ainda que fraturada, é possível.
Não se deve ler Joyce com a intenção de se encontrar uma boa história, mas para saber, talvez, a razão de todas as histórias.

Ulysses, James Joyce
Tradução: Caetano W. Galindo
Penguin – Companhia das Letras, 1106 páginas

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