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Ana Flores

“Moça bonita não paga”

Que me desculpem os que moram em ruas de feira, mas adoro ir à feira. Sei que é visível o transtorno que ela traz, não só à movimentação dos veículos dos moradores e ao barulho desde cedo, como também à sujeira que só termina de ser retirada à tarde. Mas prefiro ir à feira a comprar esses produtos em supermercados.  São sempre mais frescos e com preços que vão baixando à medida que a manhã passa. A famosa xepa.

O que sempre me chamou a atenção são as falas dos feirantes, cada um à sua moda, vendendo seu produto com humor e às vezes até com rima. Desde que eu morava na Lagoa – lá se vão 20 anos – costumava anotar esses falares e ainda guardo alguns, de diferentes feiras da Zona Sul carioca.

Um vendedor de verduras gritava: “É só pedir licença, entrar no jardim e mexer na horta”. Outro lembrava filosoficamente que não se deve adiar as compras: “Não te benzo nem te curo, amanhã você tá duro!”.  Um vendedor de temperos se queixava: “Será possível que nessa feira só se compra fruta-do-conde?” E outro desafiava os moradores do bairro: “Morador da Lagoa só come peixe??? Olha o abacaxi aqui, pessoal.” E apelava, à moda de um candidato a presidente daquela época: ”Não me deixe só, freguesinha, minha barraca precisa de você!”

Os mais maliciosos provocavam os fregueses: “Tá procurando sua mulher, freguês? Tá aqui, na barraca do Chicão, provando a deliciosa melancia. Pode vir, tá tudo aqui!”. Um vendedor de caju, no Jardim Botânico, se gabava: “Eu trabalho por esporte, madame, posso dar desconto bom!” Como seu colega de feira: “Sou fazendeiro, rico e solteiro. Meu produto é barato, minha gente!”

Outro vendedor de fruta se orgulhava de seu produto: ”Coisa boa hoje! Abacaxi bom, doce e amarelinho por dentro. Abacaxi branco passa longe da minha barraca.” Contra reclamações sobre mangas “fiapentas”, um vendedor da feira da Praça Nossa Senhora da Paz já oferecia a solução: ”Essa tem fiapo, mas aqui já leva o fio dental de brinde…”. Da barraca de legumes, na mesma feira, ouvia-se a ameaça: “Se não levar agora, não come!”

À pergunta da freguesa se o bananeiro tinha banana-da-terra, veio a resposta: ”Ora, minha amiga, todas as bananas vêm da terra. Brincadeirinha, hoje não tem, não.” Ou “Precisa de tempero? O alho eu tenho aqui. É pegar e levar, só não esquece de pagar…hahaha”

-Quer limão, freguesa? Tá verdinho! Quando ela respondeu que já tinha, veio o contra-ataque: -Leva pra vizinha!

Orgulho dos produtos é o que não falta: “Essa atemoia tá uma delícia! Viu só? Tava esperando pela senhora!”  E seu vizinho não ficava atrás: “Olhem só que manga linda, capa da Veja, freguesa!” E me dizia, enquanto cortava um pedaço para prova: ”Prepara seu coração! Grandes emoções estão pra acontecer!…”. O que vendia berinjela informava enquanto eu as examinava: “Estão perfeitas. E sem bicho! Com bicho é mais caro!…”

E diante do meu comentário de que como professora eu não podia frequentar as barracas de preços altos na Lagoa, ouvi a resposta: ”Ah, você é professora? Minha mommy também!…”

Uma pena que a algazarra atordoante de uma Bolsa de Valores não possa ser substituída pela algazarra poética dos feirantes do Rio. Sonhar não custa…

Ilustração Renan Pinto

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