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Um olhar privilegiado

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FRED PACÍFICO ALVES

Ouvir o som das ondas do mar batendo na areia, sentir o cheiro da maresia trazido pela brisa, enquanto a espuma é feita e refeita nas pedras que guardam o Forte. Uma tranquilidade tamanha, que nem parece que Copacabana ruge a poucos metros. Quem pensa que o observador desta cena se encontra na praia, se engana. Não há melhor visão do bairro do que olhá-lo de cima.

Observar Copacabana é uma visão de tirar o fôlego. É exatamente do alto que a beleza da cidade se apresenta por completo, na sua melhor forma, seduzindo o observador à contemplação. “Começo o dia abrindo a varanda. Levantar de manhã e olhar essa vista, me dá energia para qualquer coisa”, diz o barman Willian Santiago Loiola, 23, nascido e criado no alto do Pavãozinho. De seu terraço, a princesinha do mar sorri e a Baía de Guanabara encontra a orla de Niterói. Não se ouve o barulho das incansáveis avenidas do bairro. As pessoas lá embaixo tornam-se meros detalhes do cenário. “É muita paz ver Copacabana daqui. Não há nada melhor do que dormir ouvindo o barulho das ondas e assistir a queima de fogos sem ir a praia”, conta.

Tal beleza e tranquilidade, de olhar o bairro de cima, seduz a todos. Moradores e visitantes. Motivos que levaram o gerente da loja Complexo B., Yvanir de Seixas Junior, 45, a subir o morro e alugar um apartamento no Cantagalo. “O caos está lá embaixo. Daqui, a vibe é outra, a vida tem outro ritmo, até esqueço da correria que vivemos. É tão bonito que parece uma aquarela”, afirma. Junior cresceu e viveu a maior parte de sua vida em Copacabana, mas sua vontade de morar na comunidade já era antiga. Pensou até em montar um estúdio de yoga e meditação com algumas amigas, mas o plano não se concretizou. “Morei boa parte de minha juventude na Hilário de Gouveia, depois, já independente, morei na Alberto de Campos. Sempre subi e frequentei a região. A energia é bem diferente. Nos condomínios as pessoas mal se cumprimentam, são estranhas umas as outras. No alto o clima é mais tranquilo, as pessoas são mais simpáticas, fora o visual que é de tirar o fôlego. Ficava fantasiando morar aqui, até que surgiu uma chance”.

A oportunidade veio quando uma colega comentou que tinha vagado um apartamento no prédio do marido. “Fiquei sabendo no fim do meu expediente e nem quis esperar o dia seguinte. Fui à noite mesmo. Ela me convidou para ver o apartamento durante o dia, já que nem dava para ver a vista, mas não, fui assim mesmo. Quando cheguei lá estava tudo escuro, mas assim que vi as luzes da cidade acesas lá embaixo, aluguei na hora. Nem precisei de ver o mar, pois sabia que ali seria minha casa. Foi a decisão mais acertada que tomei”, diz.

Junior já está lá há um ano e se depender dele, não mudará tão cedo. “Não tem tempo ruim vendo o Rio daqui de cima. Acordar, passar o café e tomar na varanda, é um convite ao bom humor”, afirma. Assim como ele, o número de pessoas de fora, mudando para as comunidades só vem aumentando. O movimento já vinha crescendo há algum tempo, impulsionado principalmente por estrangeiros, mas, depois da instalação das UPPs, os brasileiros passaram a descobrir mais as vistas da região.

Enxergando as oportunidades

O aumento do número de visitantes tem agradado os moradores. “O movimento aumentou muito. Sinto que a comunidade quer que o pessoal suba mesmo. Isso é muito positivo. Abriram novos comércios. Acho legal, valoriza o espaço. Os turistas vêm conhecer e aproveitar o visual. Isso movimenta a economia local e o morador tem contato com culturas diferentes. Além de podermos fazer novos amigos”, explica o Willian.

Muitos moradores souberam aproveitar esse novo movimento nas escadarias. Vários comércios têm sido abertos e, os já existentes, procuram melhorar sua estrutura. Há o aumento no número de novos serviços surgindo nas comunidades e no entorno. A Ladeira dos Tabajaras e o morro dos Cabritos já possuem até um grupo de turismo comunitário, o Tabatur (tabatur.blogspot.com.br), que promove o comércio e atividades locais, além de organizar passeios guiados pelas trilhas da região. Situado no meio de Copacabana, parte do Parque Natural Municipal da Catacumba, a montanha dos Cabritos, com 378 metros de altitude, tem uma vista de tirar o fôlego de qualquer visitante aventureiro.

A estudante de arquitetura belga Philippine Van Hamme, 25, diz não acreditar no que viu do topo do morro. “Sabia que seria bonito, mas nunca imaginei ver a cidade desta forma. Cristo, Pão de Açúcar, a ponte, as praias, está tudo lá. Copacabana fica ainda mais linda de cima e de um ponto de vista diferente dos pontos conhecidos. É uma sensação única”, conta a turista. Outra atividade que tem tirado proveito das vistas deslumbrantes de Copacabana são as hospedarias e hostels que vêm surgindo nesses pontos privilegiados da cidade.

No Chapéu Mangueira, por exemplo, são várias iniciativas e, uma delas, o Favela Inn Hostel (www.favelainn.com) já ficou famosa entre turistas. O visual encanta os visitantes, além do clima hospitaleiro garantido pelos administradores do negócio, o casal Cristiane da Silva Oliveira, 40, e Wagner Luiz Machado da Silva, 38. Aberto há quase dois anos, o albergue é um negócio familiar que tem servido de inspiração para a melhora dos serviços da área. “Tivemos consultoria do Sebrae para entendermos melhor sobre a administração do negócio. Isso foi muito positivo. Aprendemos a importância da profissionalização e boa organização. Aos poucos fomos nos adaptando. Adequamos o imóvel e nossa laje, criando um espaço de convivência que os visitantes adoram”, explica a gerente.

O que aprende, Cristiane faz questão de compartilhar, pensando na melhoria da região como um todo. “Já aproveito o que aprendi para ajudar a quem também resolve criar alguma coisa. Uma vizinha, por exemplo, resolveu fazer refeição para o almoço e já mostramos a ela que certos cuidados fazem a diferença. Aqui aproveitamos ao máximo os alimentos, evitando desperdício. Isso tudo conta no fim do mês. Sugerimos a ela que, atender a alguns pedidos de jantar dos hóspedes, poderia ser um bom negócio. Agora seu empreendimento, chamado por ela de MPB – Marmita Popular Brasileira, tem dado certo. Isso me deixa muito feliz, pois é bom para toda a comunidade”, conta.

Olhando de cima

Além do albergue, a família também administra, em parceria com a Associação dos Moradores do Chapéu Mangueira, o Chapéu Tour. Um projeto de turismo comunitário cuja renda é revertida para as ações sociais na comunidade. São oferecidos passeios com caminhada ecológica na APA da Babilônia, aulas de samba e Capoeira. Todos os passeios são realizados por guias credenciados pela própria associação. O projeto serviu de inspiração para a iniciativa do morro dos Macacos e ajuda a difundir a importância da preservação ambiental.

Segundo Cristiane, a troca com os visitantes é positiva para todos. “Aprendi coisas sobre minha comunidade, sobre minha cidade, que nunca imaginei. As pessoas vêm de fora e, às vezes, sabem mais da história do local do que o próprio morador. Fomos aprendendo a valorizar o que temos com esses outros olhares. A olhar Copacabana lá embaixo de uma outra forma”, conta. Essa relação de quem olha e quem vê é responsável pela quebra de barreiras culturais e vem ampliando os horizontes da cidade, resignificando pessoas e lugares.

Wagner também conta que a vinda dos visitantes e toda essa mudança já vem acontecendo há mais de cinco anos. “É claro que as UPPs são muito positivas e deram mais coragem aos cariocas, mas os estrangeiros já vinham muito antes dos brasileiros. O número só tem crescido. Recebemos muitos estudantes estrangeiros aqui, em busca da vivência comunitária, de uma outra experiência. Os cariocas só passaram a subir para conhecer, depois que os gringos começaram a falar que era legal. Fora raras exceções”, explica.

Edificação do olhar

“Um turista italiano que morou por aqui por um tempo, nos presenteou com um livro de arquitetura, que foi sua tese de mestrado, no qual apresenta um estudo sobre as semelhanças e diferenças entre as comunidades daqui e da Europa, principalmente da Itália, na questão geográfica e arquitetônica. São surpreendentes as semelhanças”, conta Cristiane, enquanto folheia o enorme livro.

A gerente lembra que, alguns anos atrás, enquanto os moradores muitas vezes sentiam vergonha ou evitavam falar onde moravam, os gringos vieram e pediram para morar ali. “Uma vez uma espanhola disse, moro aqui então sou favelada. Isso faz você pensar, sabe? Toda essa influência e as mudanças que vêm ocorrendo, têm alterado bastante a relação das pessoas com os lugares. Hoje a maioria tem orgulho de falar quando perguntam: moro no Chapéu Mangueira”, diz.

A aposentada Maria Iraci Santiago, 61, também vê positivamente o aumento dos visitantes. Moradora do Pavão há 40 anos, Maria afirma que a vista é o que mais atrai os visitantes. “Acho bom as pessoas virem mais. Isso aqui é maravilhoso. A vida pode ser difícil, mas a vista ajuda. Todo dia tem visitante novo. É bom para o comércio. Antes ninguém subia, só o morador. Agora tem gente de tudo quanto é lugar se mudando para cá”, afirma. Maria viu aumentar a venda na mercearia do marido, “principalmente os lanches que ele produz”.

De sua laje, se vê crianças e adolescentes empinando pipas, pessoas seguindo suas atividades, avessos ao visual da cidade ou da praia ao fundo, de tão comum que o cenário também pode se tornar. “O melhor dessa vista, fora poder olhar para ela todo dia, é no dia 31 de dezembro. Nem é preciso ir a praia na virado do ano. Fazemos um churrasco e celebramos daqui mesmo, vendo a queima de fogos”, diz. Opinião essa compartilhada com todos os moradores entrevistados, afinal, se no dia a dia, ver Copacabana de cima é bom, na virada do ano com certeza é uma visão superior.

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Um Comentário para “Um olhar privilegiado”

  1. Hamilton disse:

    gostei, é importante saber que em nossa cidade existem lugares como esses

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