Cidadania
&
 
Sustentabilidade

Um pioneiro de olho no futuro

Em uma época em que a reciclagem ainda era um tabu, empresário criou a Reciclar Design, investindo em produtos gráficos sustentáveis

TEXTO_MARILZA BIGIO
FOTOS_ARTHUR MOURA

Durante a Eco-92, reciclar era uma boa ideia em busca de gente empreendedora que a levasse adiante. Adalberto Paz do Nascimento, hoje com 45 anos, é uma dessas pessoas. Já trabalhava em uma empresa que usava material descartável – papel e papelão – para fazer novos produtos. Quando a empresa fechou, em 1996, Adalberto continuou acreditando e criou, com dois amigos, a pequena empresa que se tornaria, 16 anos depois, a atual Reciclar Comércio de Artigos em Papel Reciclável e Artes Gráficas.

Eles tinham apenas um “facão” (guilhotina manual para corte) e muita vontade. Iam atrás de resíduos de papel onde se encontrassem, faziam as lâminas recicladas, cortavam e tinham de levar para outras firmas para fazer os acabamentos. O resultado eram produtos dos mais simples, como pastas e capas de agendas, que os sócios – e depois o Adalberto sozinho – vendiam e entregavam aos poucos clientes. Um ano depois, a empresa já tinha 16 funcionários. Neste ano de Rio+20, são mais de 40 funcionários, e a boa ideia virou uma das atividades em que o Brasil se destaca internacionalmente.

Um dos primeiros grandes clientes foi a Caixa, que tinha um projeto, “Azul que te Quero Verde” (brincando com as cores da Caixa e do ambientalismo, que cada vez ganhava mais força). A empresa de Adalberto produziu centenas de pastas de papel kraft – considerado o papel ecologicamente correto por não utilizar produtos para branqueamento. A reciclagem se deu a partir de material doado pela Caixa. De repente, a firma de Adalberto recebeu uma tonelada de papel e papelão, um volume que lotou até o teto o pequeno galpão. Em mais um ano, já estava trabalhando com cerca de 120 toneladas por mês. Hoje, até essa conta é difícil, porque as atividades da Reciclar se diversificaram muito.

Parcerias valiosas

A empresa – que hoje tem como sócia a esposa de Adalberto, Ana Alves Pires – foi desenvolvendo outras técnicas. Passaram a fazer tecido de papel, utilizando o trabalho feito em tear pelas mulheres da cooperativa Nós da Trama, de Araruama. A Reciclar mandava para elas os resíduos, pegava de volta diversos tipos de tecido tramado, e produzia brindes para empresas (para festas de fim de ano e eventos promocionais). A lista de clientes foi aumentando: Ampla, Cia. De Limpeza Urbana de Niterói, Sesc, Metrô do Rio, a multinacional do petróleo El Paso, o curso de inglês CNA, as operadoras de saúde Amil e Golden Cross, as empresas de moda Follic e Checklist, a Fundação Getúlio Vargas (FGV), entre outros.

Uma outra parceria importante trouxe resultados ainda melhores. O Sebrae queria estimular a atividade de mulheres de Nova Iguaçu que faziam belos tramados, em tear, a partir das fibras do caule das bananeiras. Para essa cooperativa, a Gente de Fibra, e mais tarde para a Casa de Artesanato patrocinada pela prefeitura da cidade fluminense de Casimiro de Abreu, a Reciclar tornou-se a ponta que estava faltando. Com esta trama exótica e de belo efeito, produz peças que fazem grande sucesso. São pastas, abertas ou com zíper, agendas, blocos de anotações, caixinhas de todo tipo e tamanho, para escritório, aqueles apoiadores de papel para escrita que hoje estão em todas as mesas de escritórios (o nome é risque-rabisque), entre outros produtos.

Além de utilizar o trabalho dessas mulheres, Adalberto faz o meio de campo entre elas e os clientes que a Reciclar vai colecionando. Em todos os eventos de que participa – como a Semana do Meio Ambiente de Furnas, ou o Dia das Mulheres da Petrobras – Adalberto divulga outros produtos de fabricação das cooperativas, como bolsas, luminárias etc. Não são produtos da Reciclar, e sim uma maneira de apoiar as atividades de suas fornecedoras, em um sistema de valiosas parcerias.

O futuro é logo ali

“Hoje a Reciclar”, diz Adalberto, “já está até nas novelas da Globo, há uns quatro anos”. Aquela boa ideia já é uma realidade, o País já é um dos expoentes mundiais da reciclagem, e os olhos se voltam para o futuro. A ideia era – é – simples: você tem papel, papelão, plástico e/ou tecido para jogar fora, a Reciclar aproveita tudo isso produzindo peças de utilidade que voltam para a sua empresa e ainda são fornecidas para outras empresas. Uma atividade que dá imenso trabalho, emprega muitas pessoas, agrega outros parceiros, promove a auto-estima de muitas mulheres tecedeiras, paga impostos, e ajuda a projetar positivamente o nosso País.

Nesta relação de mão-dupla com as empresas que atende, – coletando material que ia para o lixo e que viram bônus para a produção de brindes e material gráfico –, o interesse neste tipo de parceria cresceu para outros setores. É o caso da indústria da moda, que entrega para a Reciclar retalhos e toda a sobra de tecidos com as padronagens mais diversificadas, que passam a “vestir” capas de agendas, cadernos, blocos e outros produtos. Também há um trabalho importante na coleta de banners de grandes eventos, uma quantidade imensa de lona que não tinha aproveitamento após os eventos, passa também a figurar entre as matérias primas da empresa.

A Reciclar Design quer mais. A empresa já tem o certificado de qualidade da FSC, instituição internacional voltada para o setor de reaproveitamento de resíduos. Adquiriu novos equipamentos, montou uma gráfica própria. Iniciou uma aproximação com o Instituto Nacional de Tecnologia, INT, que enviou dois pesquisadores para preparar a empresa de Adalberto para exportar. “A conclusão do INT é que será necessário capacitar os agricultores de Casimiro de Abreu e outros municípios produtores de banana, para que seja melhorada a qualidade do caule das bananeiras”.

Um material que seria jogado fora, pois quando há a colheita de banana é preciso renová-la, descartando o caule, acabou por se tornar imprescindível para a Reciclar. “Só temos acesso a 1% das bananeiras de todo o nosso estado”, diz Adalberto. “Com a capacitação dos agricultores, que, mais informados, não vão mais descartar os caules nos lixões, teremos recursos para produzir muito mais”.

O futuro, para a Reciclar, está em criar mais parcerias com agricultores e artesãos, estar antenado com as tendências mundiais e expandir a carteira de clientes, possivelmente exportando para outros países. Mas nada disso seria possível se todo o trabalho da Reciclar não tivesse uma característica fundamental: a qualidade. Todos os produtos são produzidos artesanalmente. Ao manusear qualquer um deles, se nota o capricho nos acabamentos. Colagem bem feita e imperceptível, pontos firmes no produto que leva costura, criatividade no aproveitamento, por exemplo, de sementes da Mata Atlântica, para texturas surpreendentes – este é o segredo nada secreto da Reciclar para continuar trabalhando com esta boa – excelente – ideia. Uma ideia que marca o presente, com os olhos no futuro sustentável do planeta.

MATÉRIAS ANTERIORES DE Cidadania & Sustentabilidade

Publicado em – Edição 115
10 de dezembro – Dia Internacional dos Direitos Humanos:
Publicado em – Edição 114
Uma carioca que adota sua cidade
Publicado em – Edição 110
A rua é a rede social
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 5.0/5 (2 votes cast)
Um pioneiro de olho no futuro, 5.0 out of 5 based on 2 ratings

Deixe um comentário