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Welcome back!

Em evento parelelo às Olimpíadas de Londres, 30 artistas brasileiros bateram recorde de criatividade no projeto Rio Occupation London

TEXTO_FRED PACÍFICO ALVES
FOTOS_RATÃO DINIZ

Retornar de uma boa viagem é trazer na bagagem o gostinho de quero mais. Ainda mais quando a liberdade e a criatividade foram o passaporte. Por isso mesmo, resolvemos ouvir alguns dos artistas que retornaram ao Rio após um mês de imersão criativa na capital inglesa, para saber o que acharam e trouxeram dessa aventura.

Os artistas: Alessandra Maestrini, Andrea Capella, Anna Azevedo, Bernardo Stumpf, Breno Pineschi, Bruno Vianna, Christiane Jatahy, Dina Salem Levy, Domenico Lancellotti, Eddu Grau, Eduardo Nunes, Emanuel Aragão, Eric Fully, Felipe Rocha, Gringo Gardia, Gustavo Círiaco, João Brasil, João Penoni, João Sanchez, Laura Lima, Luciana Bezerra, Marcela Levi, Paulo Camacho, Pedro Miranda, Pedro Rivera, Ramon Mello, Ratão Diniz, Robson Rosa, Siri e Stella Rabello

Divulgação / Ellie Kurtt

Foram selecionados 30 artistas cariocas para criarem coletivamente, imersos na capital inglesa durante o perído das Olímpiadas 2012, no projeto chamado Rio Occupation London, que possibilitou todo o suporte aos participantes, através de instituições culturais locais. O início foi no BAC – Battersea Arts Centre, onde todos ficaram hospedados, com o Calling Card Festival, uma apresentação de trabalhos que os selecionados levaram na bagagem do Brasil. Depois, os artistas tiveram 30 dias para criar, partilhar experiências e apresentar o resultado de suas pesquisas no Festival Finale. O evento aconteceu nos galpões do The Biscuit Factory, uma antiga fábrica de biscoito de Londres, atualmente conhecida como V22 Summer Club e usada como centro de exposições e estúdios. (Alô, alguém mais pensa na Bhering?)

A residência artística no BAC foi muito rica para os participantes. Caçula do grupo, o ator performático e artista visual Robson Rosa, 23, achou a experiência transformadora e diz que lhe fez repensar seu próprio posicionamento como artista. “Foi importante vivenciar toda a pluralidade de Londres. Trabalhei com Eric Fully (também brasileiro e integrante do projeto) e juntos criamos personagens e figurinos de uma fábula de amor entre Londres e o Rio, que batizamos de London Cannis Valles: A Samba and Drama Fairytale. O trabalho foi pautado pela proximidade, pela interação. Isso foi muito enriquecedor”, diz.

A dupla mexeu com o imaginário lúdico inglês, realizando performances, nas quais se apropriaram de personagens ingleses os abrasileirando e vice-versa. No final, fizeram um desfile apresentando 30 figurinos criados de jornal reciclado, que continuaram expostos por mais um mês após o retorno dos artistas. “Terem nos solicitado que a exposição ficasse por mais um mês, foi muito gratificante”, pontua Rozza.

Bananas para elesBananas Londres Ratão Diniz

O artista gráfico Breno Pineschi, 33, levou milhares de bananas para os ingleses e trouxe na bagagem uma outra visão sobre seu trabalho e processo criativo. “Trago na mala uma experiência fantástica, boas impressões e novos amigos. Poder estar imerso na criação de um único trabalho, durante um período tão longo, foi fenomenal”, conta. “Por mais que me dedique inteiramente a cada criação, esse mergulho criativo nunca passa de dois dias. É muito bom querer expressar algo, ter tempo para se dedicar àquilo e concretizá-lo. A vivência me despertou um outro lado do meu trabalho.”

Segundo o artista, as bananas são simbolicamente relacionadas com o país. “A banana expressa alegria, tropicalismo e tem uma conotação erótica. Por isso a elegi. Representa bem o carioca e o Brasil, que têm essa mesma energia, essa magnitude que tanto seduz ao planeta”. Breno espalhou cachos de bananas coloridas por Londres, como uma crítica bem humorada do momento pelo qual passa o país. Dentro das bananas havia um ímã que as fixava nos ferros de Londres. “Meu projeto tinha dois momentos. A construção e a instalação das peças. O BAC e o Victoria Albert tornaram possível a realização de oficinas, onde convidávamos o público londrino a ajudar. Além disso, montaram uma fábrica de bananas no BAC com produção ininterrupta. Foi a inversão de um papel histórico, consegui colonizar vários ingleses para fazerem minha bananas”, relata.

O Grafiteiro Luke W. Dane em açaoInteratividade e colaboração foram palavras de ordem na maioria dos processos criativos. Uma síntese disso foi a Brazilian Kitchen, uma banda formada entre os músicos da equipe, que realizou jam sessions misturando clássicos ingleses com samba, bossa nova, pop e rock. Os músicos Pedro Miranda, Eddu Grau, Siri, Felipe Rocha, Domenico Lancelotti, João Brasil e a cantora Alessandra Maestrini, botaram todos para dançar, enquanto preparavam pratos tipicamente brasileiros, para deleite dos presentes.

Junto e misturado

Outro que levou a interatividade à enésima potência foi o fotógrafo Ratão Diniz, 28, (que assina o ensaio fotográfico desta matéria). Acostumado a fotografar o movimento do grafite no Brasil, o fotógrafo teve a oportunidade de documentar a vida de um grafiteiro londrino. “Acompanho o movimento no país há tanto tempo, mas, o engraçado, é que nunca consegui entrar no dia a dia de ninguém. Já lá, tive a oportunidade de acompanhar o Luke (Warburton Dane) não só trabalhando, como dentro de sua rotina, em sua intimidade com a família”, conta.Alguns integrantes do projeto no quarto que ficaram hospedados, no BAC

A documentação de Ratão apresenta cenas do cotidiano do artista, resultando em uma exposição intitulada ‘A Arte de Viver’, montada em painéis em conjunto com o próprio Luke. “O destino me apresentou pessoas fantásticas. Luke foi tão generoso e me depositou tanta confiança, que nem a língua foi uma barreira”, diz.  Uma tradutora, que também se tornou amiga do fotógrafo, o acompanhou boa parte do tempo. Mas em vários momentos esteve só e, mesmo assim, a arte se sobressaiu derrubando as fronteiras. “Não falamos a mesma língua, mas conseguimos nos entender muito bem. Me senti ‘em casa’ durante toda vivência. Olhei a cidade pelo olhar do grafite. Em Londres há muita irreverência. Os ingleses extrapolam as paredes em grafites estruturais. Vi pinturas feitas em gomas de mascar presas nas calçadas. Fenomenal”, relembra.

O músico Eddu Grau durante apresentação no Festival FinaleO projeto foi parte do Festival Londres 2012 – braço cultural oficial dos Jogos Olímpicos – e teve a organização artística do People’s Palace Projects, sob a direção artística de Christiane Jatahy e Gringo Cárdia. Foi concebido pela Secretaria de Estado de Cultura do Rio de Janeiro (SEC), em parceria com o BAC e o V22. Rio Occupation London deixou saudade aos participantes e mostrou que estabelecer conexões, trocar, reformular pontos de vistas e a colaboração são importantíssimos para concretização de ideias. Propôs criar pontes e conseguiu. No próximo ano, a cidade deve receber um grupo de artistas ingleses como desdobramento do projeto. Que sejam bem vindos!

Veja a galeria completa com as fotos de Ratão Diniz:

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