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Suzan hanson

Comida e confiança

De alguma forma sempre tive certeza de que essas duas palavras estão visceralmente ligadas. Como comer algo vindo de alguém ou lugar em que você não confia?

A etimologia da palavra confiança: “vem do Latim CONFIDENTIA, “confiança”, de CONFIDERE, “acreditar plenamente, com firmeza”, formada por COM, intensificativo, mais FIDERE, “acreditar, crer”, que deriva de FIDES, “fé””.

Ter fé, acreditar na comida de alguém é reconfortante. Tem a amplitude que passa por navegar em mares tranquilos e já conhecidos, até se permitir deixar levar por rotas mais tempestuosas e nunca antes navegadas. De olhos fechados.

Falo de segurança e tranquilidade. Do que há em comum e familiar, da crença no talento, do crédito dado para experimentar algo novo com o carimbo de quem você confia.

Minha amiga poetisa, resumindo, brincou com as palavras: COM + FIANÇA = com aval. Com carimbo.

Minha relação com a comida se faz em primeiro lugar através dessa contínua afirmação. Sinto que quem me conhece sabe que, ao compartilhar meus pratos, terá o melhor de mim, toda a minha dedicação e atenção. Da mesma forma, com quem estabeleci essa relação, mergulho de peito aberto, saboreio. O melhor é que a confiança muitas vezes se consolida através de pequenos detalhes interessantes.

Como a música alimenta minhas vivências na cozinha, divido uma das minhas maiores confianças nessa arte: Abe Laboriel Junior:

– com Paul McCartney : http://www.youtube.com/watch?v=9rofczyq12s, “Sargent’s Pepper Lonely Heart Club Band” – onde aparece a competência;

 http://www.youtube.com/watch?v=bzLEy1d8UVI , “Dance Tonight” –  onde se estabelece a confiança: quem tem coragem de dançar de forma tão ingênua?;

– com Mylène Farmer http://www.youtube.com/watch?v=FspTcSh00NM, “Les Mots” –  com a confiança adquirida, só prazer.

artigos anteriores de Suzan hanson

Publicado em – Edição 107
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Comidas de (quase) uma panela só
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2 Comentários para “Comida e confiança”

  1. Jorge Eduardo disse:

    Por falar em confiança e comida, queria compreender porque o uso da pimenta está tão intensa nos restaurantes de Nova Iorque e Londres, a ponto de os pratos perderem os outros sabores importantes, sendo tudo dominado pela pimenta. Só se sente o sabor da pimenta.
    Pimenta é bom, ma non troppo.
    Será que a pimenta (em excesso) é o disfarce para a incompetência do chef?
    E, para quem tem hemorróidas, a perda de confiança é total.

    • Suzan disse:

      Concordo, Jorge, muita pimenta pode ser motivo de quebra de confiança… Acho que ainda persiste na culinária atual uma tendência a buscar inspiração na comida asiática, o que pode estar reforçando esse viés apimentado. Mas, não precisa ser assim. Existem tantos sabores interessantes nessa corrente, como capim limão, gengibre, tamarindo, coco, coentro, entre outros…
      Nos EUA, essa influência soma-se ainda à da comida mexicana, então uma refeição pode chegar a demandar o uso de extintor…
      Ao contrário, quando estive na Cidade do México, na década de 90, em vários restaurantes os pratos chegavam à mesa em seus sabores originais, acompanhados de três opções de molhos de pimenta, do mais leve ao molho maçarico!
      Lá me contaram uma historinha engraçada: desde crianças os homens eram treinados a comer pimentas bem fortes, como prova de hombridade. As mães sentavam à mesa ao lado dos pimpolhos com um prato de pimentas frescas e um copo de leite. Quando a criança chorava de tanto ardor, era-lhe permitido tomar um gole de leite. Que treinamento! Mas, de fato, o leite alivia o ardor. Não é à toa que a culinária indiana combina, numa mesma refeição, pratos apimentados e bebidas lácteas, como o lassi.
      Um abraço,
      Suzan

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