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Arlanza Crespo - Quem é Quem

Ser e não transparecer

Quem quiser conhecer uma das melhores velocistas do mundo, que já representou o Brasil em três continentes; quem quiser saber sobre as 680 medalhas dessa grande atleta da Seleção Brasileira, também professora de Educação Física, e tudo mais sobre sua vida profissional é só ir ao Google e digitar Laura Eunice das Chagas. Vai encontrar muita coisa. Mas quem quiser conhecer a Laura, sua simpatia e alegria, leia esta entrevista.

Marcamos por telefone, eu não a conhecia pessoalmente. Ela me disse: “Espero você às 16h no ponto final do ônibus 511, na Urca”. “Mas como vou saber quem é você?” perguntei. “É fácil, sou pretinha e magrinha”. E lá fui eu, de táxi. Cheguei cinco minutos antes, mas ela já estava lá, cheia de energia, com um sorriso maior que o rosto. Simpatizei de cara!

Laura nasceu em 1936, em Santa Cruz. É formada em Educação Física pela UFRJ em 1968, com pós-graduação em 1969. Fez também Faculdade de Pedagogia e trabalhou como professora em escolas particulares. É árbitra da Federação do RJ. Para ela, tudo foi conseguido através de muito estudo, e teve a sorte de sempre estudar em bons colégios. Sua mãe trabalhava como cozinheira na casa do ministro Edgard Romero e morreu quando Laura tinha quinze anos. Mas Laura continuou morando lá até se estabilizar na vida.

Estudava no Colégio Leitão da Cunha em 1953 quando começou a competir influenciada pela professora de Educação Física, que fazia uns jogos internos no Colégio. “Ela me observava e dizia que eu tinha nascido para ser atleta. E eu perguntei: ‘O que é ser atleta?’ Ela me explicou e disse que no ano seguinte ia ter uns jogos pelo Jornal dos Sports, e eu ia competir. Comecei em corrida, 50 metros, e venci o Anglo Americano no salto em distância. Quando foi em 1955, o Anglo Americano me chamou e me deu uma bolsa de estudos. Fiquei lá até 1959 e ainda tenho uma grande amiga dessa época chamada Helena Fernando Martins”.

Com 19 anos, Laura já era dona do seu nariz e foi morar sozinha. Trabalhou no Hospital Souza Aguiar, no Salgado Filho, fez concurso público, passou em primeiro lugar, sempre vencendo pelos próprios méritos. Nunca quis se casar. Uma vez namorou um rapaz por quatro anos, mas ele não estudava, não deu certo. Laura sempre pensou no futuro.

Laura mora sozinha, no Méier. Sua vida é baseada na disciplina, como deve ser a de todo atleta. São cinco refeições por dia, sem nunca sair do sério. “Estou no que chamo de terceira fase da vida. Nessa fase, temos mais do que nunca ter disciplina. A terceira fase é o fecho do ser humano”.

Quando não está competindo, ela está pescando. São quarenta anos ali na Urca. O que ela pesca? Olho-de-cão, cocoroca, bagre. Mas os recém-nascidos voltam para o mar, só os maiores é que vão para a panela.

Setenta e seis anos, 1,54m de altura, 680 medalhas no currículo, sempre competindo. Laura foi atleta do Vasco da Gama, de 1954 até 1965, quando o clube acabou com o atletismo. Depois ela foi para o Botafogo, onde está até hoje e é sócia emérita. “Qual o reconhecimento que o país lhe dá?”, perguntei. De novo o sorriso bonito: “Nenhum, sempre fiz tudo às minhas custas, pagando do meu bolso, sem patrocínio”. Mas não tem ódios nem rancores. Seu júbilo é ser agraciada lá em cima: “Minha mãe deve ter dito: Senhor, não dê nada para mim, dê pra ela”.

Só este mês, Laura já ganhou oito medalhas. No Rio de Janeiro, agora em outubro, tem o campeonato estadual, e tem só ela representando o estado. “A crioula aqui é danadinha!”.

Quando perguntei qual o título que gostaria de ter na história de sua vida, a resposta veio rápida: “Ser e não transparecer”. Realmente, quem vê aquela baixinha, magrinha ali sentada no muro pescando, nem pode imaginar que está diante de uma grande atleta, várias vezes campeã brasileira!

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Um Comentário para “Ser e não transparecer”

  1. Ulácia disse:

    Parabéns pela reportagem e também para a Laura Eunice,sabemos que o povo brasileiro e os cariocas tem realmente essa garra de vencer…

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