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Oswaldo Miranda

Ainda Nelson

Miranda, você é torpe! Daqui a pouco: – Não, me enganei, Miranda, você é doce. – As imprevisibilidades do Nelson… A redação do Última Hora tinha uma mesa grande lá no fundo, dando para os trilhos da Central. Máquinas de escrever, uma ao lado da outra. Ele, Sérgio Porto, às vezes, Otto Lara Rezende, eu… o menor de todos.

Fumava. Balbuciava, não. Mexia os lábios, sem voz, quem sabe, ensaiando com gestos, no seu imaginário, olhos no nada, o que viria a escrever na máquina. Com dois dedos. Articulava o pensamento assim quando redigia. Será que estou certo ao dizer que ele foi também Suzana Flag?

Dois telefones, um à sua mão. Eram mulheres, mulheres e mais mulheres querendo falar com ele, viva-voz… Ia dialogando como podia, em meio à produção de uma de suas “A vida como ela é”. Gostava, claro que gostava! Estar sendo desejado… Era como elas o entendiam, pelo que sentiam nos seus escritos tão, digamos, libertários para aquele tempo, década de 50. Sua expressão ao telefone no papo com mil admiradoras desconhecidas era de prazer, alegria, sabendo-se então um cara capaz de, a distância, alterar a libido de tantas de suas leitoras tesudas… Não sei se digo… Uma vez ali mesmo na mesa, diante da máquina de escrever, me pareceu estar chegado a um orgasmo, provocado por alguma das que lhe teriam excitado demais em sua fala – voz apaixonada. Sei lá. Sexo por telefone. Está aí uma que nosso Freud não deve ter explicado. Sigo. O Pessanha, negrinho contínuo viu: – IIII, seu Nelson tá engraçado…

No auditório da TV-Tupi, Nelson comenta meu “Desafios humanos” que o inspiraram para um “A vida como ela é”. Ao nosso lado, a pernambucana Aglae de Oliveira, que respondia sobre Lampião, e os representantes da censura, de olho em tudo o que eu fazia – anos de chumbo…

* * *

No concurso de palpites de futebol, uma das minhas promoções, certa vez quem ganhou era torcedora do Flamengo e votou vitória do Vasco e um escore maluco num Bonsucesso x Olaria. Depois dos escores viáveis, os leitores faziam os improváveis – 7 a 3, 8 a 5. E a vencedora era minha conhecida! Nelson botou a boca no trombone: – Não pode, Miranda! isso é pior do que as dez pragas do Egito! A matéria não saiu. Mas o Nelson insistia e lá pela onze da noite, ele e equipe, seu irmão Augusto, Carlos Renato, Aparício Pires, Albert Laureneo bateram no apartamento, reforçando a pressão: – Todo mundo vai dizer que foi marmelada, Miranda. O povo não vai engolir essa, um vexame para o Última Hora. Dia seguinte, reunião à espera que Samuel Wainer chegasse. Ele e toda a direção: Bocaiúva Cunha, Etcheverry, Octávio Malta… Argumento daqui, argumento dali, Samuel falou: – Está tudo certo, Miranda? – Como sempre, Samuel. – Então pode entregar o prêmio à moça, e todo mundo para a redação. Acarinhei Nelson: – A vida como Lea é… querido… Dei detalhes sobre o comportamento dos leitores apostadores, exibindo-lhe cupões, uma verdadeira mixórdia de palpites e até ali mesmo tinha flamenguista apostando no Vasco. O Imprevisível de Almeida? Ele aceitou minha exposição e ficamos de bem.

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Numa noite, foi ver meus “Desafios humanos”, no programa que eu produzia para J.Silvestre, na TV-Tupi. 20 de julho de 1970. Era a parte final do “Show sem limite”, reportagens pesadas. Dali ele saiu para produzir no dia seguinte mais um “A vida como ela é.” Vixe! Eu parceiro de um gênio da moderna dramaturgia brasileira, cujo centenário o Brasil celebrou até com o mestre Daniel Filho no Fantástico, dando formas televisivas à sua série de sucesso em Última Hora.

Histórico: Brasil num pódio triplo!

Desde que me entendo por gente, acompanho as Olimpíadas, a dos deficientes, mais recente. E não me lembro de ter visto um momento inusitado, inédito nas competições, qual seja, a de um único país no pódio. Sim, isso aconteceu na competição que terminou em 9 de setembro, agora, em Londres. Nos 100m, um pódio triplo com as ceguinhas Tereza Guilhermina, recorde mundial com 12s01, Jerusa Santos e Júlia Santos e seus respectivos guias, Guilherme Soares de Santana, Luiz Henrique Barboza da Silva e Fábio Dias de Oliveira Silva. A imagem desse feito maravilhoso só pode ser vista no canal 35, SPTV-3, que com sua excelente equipe cobriu todo o belo evento, no caso, sem qualquer registro em toda a mídia – lamentável! A Folha Carioca aqui está com a foto das heroínas e seus guias no pódio triplo, exclusivo, só do Brasil, sil, sil!

Deu na mídia

REDE GLOBO – Coro cantando melodia conhecida, com letra escrachada, destaque para Salsichona, ator vestido de noiva, adentrando o vagão do metrô, gritando je t’aime, je t’aime! Foi assim a abertura do Zorra Total de 8 de setembro. Um achincalhe, sim! A melodia era nada mais, nada menos do que A Marselhesa, o belíssimo hino nacional da França, de Rouget de Lisle: Allons enfant de Ia Patrie / Le jour de gloire est arrivé…
Sherman, meu diretor, transformar A Marselhesa em Salsichona, qual é a graça?

DATAFOLHA: Levantamento sobre o mensalão dá que 73% devem ir mesmo para cadeia, 11% não acreditam nisso, e 37% acham que o grupo será punido apenas com prestação de serviços.”

Já imaginaram o Zé Dirceu como cuidador aqui do velhinho?

CLASSIFICADOS: “Vende-se uma Orquestra Filarmônica da mais qualidade artística”. Maestro•Florentino Dias, criador e regente, pondo dinheiro do bolso para mantê-la, desesperado, promete um concerto de despedida dia 29 de outubro, depois de esgotadas todas as tentativas possíveis. Manutenção: 40 milhões por ano. Aceita lances entre Mozart e Beethoven. Está aí uma boa para Marta começar sua gestão na Cultura.

O GLOBO: “Dilma lança Plano Brasil Medalha”. Um bilhão para o grande vestibular das nossas Olimpíadas. Dinheiro para atletas, técnicos, centros de treinamento e preparação em tempo intensivo. “Que haja cada vez mais peitos para medalhas e mais medalhas”. Incrível, Dilma leu meu pensamento.

ESTADÃO: “Filme ofensivo ao Islam, com Maomé em cenas pornô, provocou a fúria dos muçulmanos em onze países, com atentados a embaixadas americanas e morte de um embaixador e diplomatas”. Hillary Clinton correu à televisão para dizer que os EUA não tinham nada com o filme, produção particular… mas feito por um americano. Vai explicar à turba…

GNT – Semana do Jô: “Lawrence Whaba, documentarista da natureza, denunciando que tubarões são sacrificados para a retirada das barbatanas e depois são devolvidos ao mar”. Dizem que com elas, as barbatanas, são feitas sopas deliciosas. Sim, mas que a denúncia precisa ser apurada, lá isso, precisa.

O DIA: “Vende-se a Rua da Carioca. A Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, dona de todo o lado esquerdo, faz negócio por 40 milhões de reais”. E a gente fica sem o Bar Luiz, sua salada de batatas, seu doce de maçã?

artigos anteriores de Oswaldo Miranda

Publicado em – Edição 117
Osmar de Guedes Vaz, gozador contumaz…
Publicado em – Edição 116
Balzac no carnaval
Publicado em – Edição 115
What a wonderful world!
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