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Literatura erótica:Carlos Drummond de Andrade, Brigitte Causse Caferro, Mano Melo e Enoli Lara

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O que pretende um escritor ao eleger o Erotismo como tema prevalente em suas obras? Causar impacto? Compartilhar fantasias? Superar limites? Ou uma mera opção comercial? Dado que as respostas a essas perguntas são próprias a cada escritor, escolhemos quatro perfis para nossa reflexão: Carlos Drummond de Andrade, ícone da nossa Literatura; o poeta e ator Mano Melo; a jovem poetisa Brigitte Caferro; e como atração final, a multimídia Enoli Lara. O nosso objetivo não é esgotar a biografia e tampouco a dimensão do trabalho desses autores, mas dar aos leitores a chance de entender um pouco das suas almas e das suas obras.

Drummond

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE nasceu em Itabira – MG, em 31.10.1902. Educado em internatos em Belo Horizonte e Friburgo, saúde frágil, sem aptidão para as práticas comuns da juventude, tornou-se um adulto polivalente: boticário, professor, repórter, editor, burocrata, romancista e, principalmente, poeta! Irônico, pessimista bem humorado, traçava retratos existenciais facilmente entendidos pelos leitores. Aposentou-se do Serviço Público e teve, no período 60/70, os seus anos mais produtivos. Em 1987, escreveu o último poema. Faleceu em 17 de agosto do mesmo ano, 12 dias após a morte de sua filha. Escreveu além da vida! O Amor Natural, seu festejado livro de poemas eróticos, só foi publicado após sua morte, a seu pedido. O livro não é um “desbunde” pontual do autor. Lançado em 1992, revelou a exuberância desenvolvida a partir do Modernismo, e um jeito moleque de escrever (Era manhã de Setembro/ e/ ela me beijava o membro).

O repórter e escritor Geneton Moraes Neto, em Dossiê Drummond, diz que apesar do sucesso e reconhecimento público, Drummond era um homem sem orgulho e vaidade; desiludido; agnóstico; solitário; cético; injusto com a própria obra; um burocrata sem brilho e cargos que exigissem decisões importantes para mudar o destino da sociedade. Sem ambições literárias, foi poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que perturbavam seu espírito e causavam angústia. Fez da poesia o sofá do analista!

Mas o que tornava esse Clark Kent de Itabira, jornalista tímido e burocrata metódico, um SUPERMAN apaixonado, descontraído e brincalhão?

Segundo Geneton, o motivo tinha nome e sobrenome: Lygia Fernandes protagonizou com Drummond uma bela história de amor. Um poeta e uma bibliotecária, colegas do IPHAN, ele com 49 anos e ela com 24, se conheceram e se apaixonaram. O amor secreto durou 36 anos e mostrou ao mundo um “outro” Drummond. O casamento com Dolores Dutra de Morais sucumbiu aos encantos da bela e culta Lygia, e os dois se amaram intensa e secretamente até a morte do poeta.

Geneton pede perdão a Dona Dolores, por ter sido um fã fervoroso desse amor, mas certamente foi Lygia quem o fez escrever versos fantásticos. A hipotética paixão incestuosa pela filha Maria Julieta, e também a suposta eutanásia, foram literalmente desmentidas por Lygia. Ele encerra seu dossiê dizendo que, após a morte de Lygia Fernandes, em 2003, seus familiares venderam seu apartamento, recolheram o material contido no imóvel, e recusaram-se a divulgá-lo, ou mesmo falar sobre. “Isso me faz crer, que versos maravilhosos Drummond deve ter colocado, ternamente, nas mãos de Lygia, inspirados nos momentos de amor adúltero, porém divinos, e que um dia, quem sabe, chegarão até nós”, afirma o autor.

Brigitte

BRIGITTE CAUSSE CAFERRO nasceu em 09.03.1985, em Saurimo, Angola. Cursava administração pública na Universidade Agostinho Neto, quando ganhou uma bolsa de estudos do INABE, instituição conveniada com universidades públicas brasileiras, e veio cá estudar. Chegou ao Rio em fevereiro de 2008, mas logo foi para Curitiba, onde vive. Cursa administração na Universidade Federal do Paraná e presta estágio na Caixa Econômica Federal, além, é claro, de escrever.

Brigitte nos conta: “Comecei a escrever aos 13 anos, e profissionalmente aos 25, e o faço pela necessidade de compartilhar meus sentimentos mais íntimos, mostrando ao mundo a minha forma de pensar.”

Brigitte prossegue: “A vontade de publicar um livro partiu do incentivo de um amigo que apreciava meus escritos. Vivências de Brigitte seria o título do meu primeiro trabalho, baseado em experiências pessoais, e que por razões comerciais foi mudado para Do Meu Íntimo Mais Íntimo. Para citar alguns poemas, escolho Silêncio porque é nele que a minha alma cria asas e transforma palavras em arte; Nosso Tempo Acabou fala da minha ânsia em estar ao lado do meu amado, o que, por uma força maior, não aconteceu; Monstruosa Escuridão também fala do meu conflito sentimental por estar longe desse mesmo amado. Os que fazem maior sucesso com o público, medidos através de visualizações,comentários, e links na internet, são: Catarse, Cupido e Vulcão.”

Brigitte também divulga seus trabalhos nas mídias sociais e conta: “Além do perfil no Facebook, mantenho um blog onde mostro alguns dos meus poemas e falo de outros assuntos. Chama-se Muxima Camanga, palavras de duas línguas regionais angolanas, que significam Coração de Diamante, porque meus poemas vêm do coração e têm para mim o valor de um diamante.”

Quanto aos planos, Brigitte diz: “Quero formar-me num futuro não muito distante, ter um bom emprego em Angola, ter meus negócios próprios e, é claro, escrever e publicar os meus poemas. Quanto à família, o bem mais precioso que se pode ter, pretendo constituir a minha, com a graça do Todo Poderoso.”

Sobre Angola e Cidadania, Brigitte comenta: “O meu país passou por um longo período de guerra civil. Felizmente, em 2002, as armas se calaram e, desde então, vivemos a paz tão almejada. Ainda temos muito a fazer, mas segundo o FMI, Angola tem hoje uma das economias mais promissoras do Continente Africano. Se tivesse condições, gostaria de ajudar os menos favorecidos, principalmente crianças e portadores de doenças.”

Curiosamente, Brigitte tem um ”Q” de timidez! Canta na paróquia N.S. de Lourdes, igreja católica, no bairro do Jardim Botânico, onde reside. Acompanhada pelo violão de Dario Júnior, a dupla se apresenta em missas, inclusive no Natal, por amor à fé. A criatividade de Brigitte está também no artesanato. Modela apliques coloridos sobre as popularissimas Havaianas. Imagens podem ser vistas na sua página pessoal, no Facebook.

Brigitte finaliza a nossa entrevista dizendo:

“A poesia tornou-se a minha vida e o mundo a minha inspiração”

Mano

Para entender MANO MELO, pegue as chanchadas de Zé Trindade, Oscarito, e Grande Otelo; a literatura de Zé Lins, Amado, Graciliano, Veríssimo, Guimarães Rosa, Pessoa, Shakespeare, Homero, Goethe, Patativa e Baudelaire. Adicione as correntes do cinema, teatro e literatura, do clássico ao moderno. Ponha tudo numa centrífuga, bata por 55 anos, et voilà! Carioca há 16 anos, já publicou 8 livros de poesia e o romance Viagens e Amores de Scaramouche Araújo. Como ator, foram 15 filmes, entre longas, curtas, e documentários, além de peças de teatro, e inúmeras aparições em novelas e comerciais. No momento, comanda o stand up poetry Mano a Mano, sempre às primeiras terças de cada mês no Zero-Zero da Gávea, onde interpreta e recebe convidados, compartindo o palco com a atriz Cristina Bethencourt.

O escritor comenta com a Folha Carioca: “Meu interesse literário foi precoce. Antes mesmo da escola, já lia out-doors e itinerários dos ônibus de Fortaleza. Nunca fui bom de bola, nem de briga. Tímido com as meninas, percebi que a literatura, a poesia e o teatro me davam poder de encantamento, impulso para o autoconhecimento, e compreensão do mundo e da nossa época.

A primeira manifestação ocorreu aos 11 anos em um concurso promovido por uma rádio local. O vencedor seria escolhido por aclamação da plateia. Fomos trancados numa cabine para escrever. Meus concorrentes eram todos adultos, e vieram com textos piegas e chorosos como boleros. Eu apresentei uma história jocosa, em que dispensava a namorada após flagrá-la num amasso com um soldado na Praça da Lagoinha, abrigo preferido dos casais do centro de Fortaleza, cidade ainda sem motéis. A plateia riu muito e ganhei um prêmio em dinheiro e uma cesta de produtos.

Percebi que poderia ganhar a vida dessa forma, e não quis mais outra coisa. Uma palavra ouvida no ônibus, uma notícia no jornal, uma frase em lugar público, sentimentos por uma namorada, amigo, ou cidade, tudo pode virar poesia. É o caso de Avenida Paulista, no meu livro O Lavrador de Palavras. Certa vez, em São Paulo, entrei no banheiro de um boteco e vi escrito na parede: “Uma mulher sem bunda é como uma cidade sem igrejas”. Saí rindo, sentei-me numa mesa, papel e caneta na mão, e o poema surgiu desse grafite.

São muitas as referências literárias, mas puxando a brasa para o erótico, destaco Giácomo Casanova, Henry Miller e Anais Nin. Gosto do tema porque é energia vital, mas algumas pessoas generalizam e me veem como arauto da sacanagem, carapuça que me recuso a vestir.

 

Madonna é um dos meus eróticos mais conhecidos. Quando me perguntam se eu comi a Madonna, respondo como o personagem de James Stewart no filme O Homem que Matou o Facínora: “Meu jovem, quando a lenda é maior que o fato, publique-se a lenda”. O poema é uma crítica ao star-system e à indústria do entretenimento. A personagem é uma referência para satirizar o sistema.

Escrevi Sexo em Moscou numa noite insone, brincando com o som das palavras e ícones do comunismo. Não fui exilado, mas diante das incertezas e restrições da ditadura, achei que sair do país seria oportuno e engrandecedor. Tinha dúvidas se o título seria Amor, ou Sexo em Moscou, mas o grande Cazuza fechou questão e batizou a criança, num bar de Ipanema que já não lembro o nome.”

“Poesia é arte para pequenas multidões. Enquanto o destino me conceder, estarei aí, a escrever e interpretar. Um dia jurei que me transformaria numa máquina de escrever. Continuo tentando!”

Enoli

Trilogia do Prazer, a biografia de ENOLI Maria de LARA, lançada em 2010 pela Nova Razão Cultural, é a história da Sacerdotisa do Sexo no Reino de Muirapuana, que professa o místico, o erótico, e orgasma com o sedutor e o seduzido. Mostra suas origens; a adolescência religiosa; as mulheres libertárias, revolucionárias, e transgressoras que nela habitam. Fala da paixão pelo Rio, Carnaval, Maracanã, Flamengo e, claro, das suas experiências de alcova.

Lara é curitibana, como sua mãe. O pai era gaúcho, a figura masculina mais marcante na sua vida. Aluna aplicada, mesmo reprimida pela forte educação religiosa, já deixava fluir o erotismo precoce. Aos 17, ganhou a Maratona Literária da Prefeitura de Curitiba. Linda e articulada, trabalhou como recepcionista, manequim e modelo fotográfico. Emprestou a bela voz para locução e publicidade. Foi eleita por duas vezes a Melhor Garota Propaganda da TV. Casou, teve um filho, e separou-se um ano depois. Chegou ao Rio em 73 e tornou-se carioca. Posou para Di Cavalcanti e Edgard Duvivier, com quem casou e viveu por 10 anos. Da relação veio a paixão por esculpir, tendo como temas preferidos o calipígio e o fálico. Expôs suas obras no Brasil, Estados Unidos e Europa.

Trilogia do Prazer mostra a trajetória de Lara, tão polêmica quanto a de Elvira Pagã, Luz Del Fuego ou Leila Diniz. No Carnaval de 88, desfilou nua, com o corpo pintado, e em 89, exibiu o inédito nu frontal, fazendo com que, a partir de 90, a LIESA proibisse a “genitália desnuda”. Ganhou fama com o processo contra a Globotec, por uso indevido da imagem do seu bumbum. O país inteiro quis vê-lo. Um sucesso tão arrebatador quanto os orgasmos de Lara! Foi a primeira a estrelar um vídeo Playboy em segmento nacional, Playboy Paixão Nacional, Enoli Lara, um bumbum de 40 mil dólares. Eleita uma das 200 playmates mais desejadas no mundo, e um dos 10 mais belos e perfeitos bumbuns da revista.

Candidata a vereadora em 92, distribuiu preservativos em vez de santinhos, na luta pela educação sexual nas escolas. Encenou Nelson Rodrigues, Shakespeare, e passou pelo O Tablado. Como escritora, além de Trilogia do Prazer, assinou crônicas para A Notícia, Ultima Hora, Ele & Ela, e Internacional Big Man. Na Rádio Manchete, em 2000, dava dicas de alcova em Na Cama com Enoli. Na TV, atuou em praticamente todas as emissoras. Fez novelas, minisséries, programas de humor, entrevistou e foi entrevistada em inúmeros programas jornalísticos e de variedades. Apresentou A Mística do Nu, na extinta TV RIO, dando origem ao video book de mesmo nome, e que teve as imagens adquiridas pela Abril Cultural, para produção do famoso vídeo da Playboy. Participou de Documento Especial, com a coluna Sexualidade Feminina, na TV Manchete, que precede o documentário em vídeo, homônimo, e oito vezes premiado. Lara ainda se dedicou à música, como cantora e compositora.

Lara sempre bebeu na fonte de Drummond, e O Amor Natural é a sua leitura de cama. Seus próximos livros serão: Amantes de Alma, sobre os pares perfeitos formados pela semelhança de almas; A Papisa Virtual, sobre suas experiências na Internet. Lara quer reviver os mitos de Cleópatra, Salomé, Messalina e Joana D’Arc. Quer falar de Santo Agostinho e sua vida pregressa, devassa; de Santa Tereza D´Avila, e a lança abrasadora que veio do céu, penetrou-a e levou-a ao êxtase. Lara abomina a Seita das Princesas contra os Homens Cachorros e concorda que as mulheres, incluindo a própria mãe, influem na formação desse perfil cafajeste. Aliás, o filho de Lara, Jefferson, é um gentleman. Teólogo, Biólogo, Professor de Criacionismo, deu a sua mãe, recentemente, o primeiro neto, Adrian, que continuará a dinastia de Lara.

“Você que já foi ousada não permita que a amansem (Isadora Duncan)”

 

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