Artigos
&
 
Colunas

Gisela Gold

O grito da avó de Eduarda

Eduarda, de doze, tinha mania de ver as coisas sem perguntar para o pai o que era para achar. E num desses desatinos, a menina em excursão pelo colégio, viu um dos quadros em que um moço aparecia com as duas mãos segurando a face, com a boca aberta. A moça do museu falou que é um quadro famoso: “O Grito”, de Munch. Ao chegar em casa, a menina contou ao pai sobre a excursão e comentou o tal quadro.

– Paiê, a moça disse que o quadro do tal do Munch, da Noruega, era importante. Ouvi ela falando assim pra moça mais velha, até anotei, ó: “A obra representa uma figura andrógina em momento de profunda angústia e desespero existencial”. Parece outra língua. Isso é Português, pai? A única coisa que me lembrei é da mamãe que fala muito essa palavra “angústia” quando tem problema. Mas deve ter alguma coisa de problema, claro, né, pai, se tem grito, óbvio que vai ter problema. Ããããã! Engraçado, não vi nada disso. Pra mim aquela figura com a cabeça entre as duas mãos me lembrou a vovó quando a gente deu um susto com a barata debaixo da poltrona dela. A cara dela ficou assim. Mas depois que ela soube que fui eu quem colocou a barata, ela gritou e me deixou sem bolo de chocolate de sobremesa. No dia seguinte, eu escrevi que amava ela no caderno de receita e ficou tudo bem.

Eduarda, de doze, tinha mania de ver as coisas sem perguntar pro pai o que era pra achar. No dicionário dos afetos, isso se lê “liberdade”.

artigos anteriores de Gisela Gold

Publicado em – Edição 117
Para sempre
Publicado em – Edição 116
Tamanho
Publicado em – Edição 115
Boa de ouvido
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)

Deixe um comentário