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Carmen Pimentel - Língua portuguesa

Percalços da língua

Mês de outubro: mês das crianças. Aproveito, então, para falar dos verbos irregulares, aqueles que foram sendo modificados ao longo do tempo, por conta da evolução da nossa língua. Você deve estar se perguntando: o que uma coisa tem a ver com a outra? Pois vamos lá!

Quem já prestou atenção a uma criança de mais ou menos 2 anos falando, deve ter percebido que ela diz “eu fazi”, “eu sabo”, “eu consego”, no lugar de “eu fiz”, “eu sei”, “eu consigo”. Por que isso acontece?

Quando uma criança diz “fazi”, ela entende que a estrutura de construção do pretérito perfeito do indicativo do verbo fazer é radical faz + desinência de pretérito i, já que é assim que acontece com outros verbos que ela escuta a sua volta:

vender – vendi / comer – comi / perder – perdi, logo, fazer – “fazi”, ou ainda, cantar – cantei / falar – falei / comer – “comei”

Em outras palavras: ela faz uma analogia com a construção dos verbos regulares, que são maioria na língua portuguesa, portanto, mais usados pelos falantes. Com o tempo, ela vai percebendo essas diferenças, e a correção acontece automaticamente. Lá pelos 4 anos, já fala direitinho. É claro que alguns pais, na ansiedade que lhes é peculiar, dão uma ajudinha, repetindo da forma correta para garantir que a criança não vai falar assim para sempre! Tudo bem, não faz mal, nada de errado com isso… Aliás, é assim mesmo que a criança aprende: por repetição!

Os verbos podem ser classificados da seguinte maneira:

  • Regulares – seguem o paradigma de sua conjugação. São conjugados no presente, no passado ou no futuro sem sofrerem alterações em seu radical (por exemplo, os verbos comer, cantar, partir);
  • Irregulares – apresentam modificação em algumas formas, afastando-se do paradigma de sua conjugação. Modificam-se no radical e na flexão (exemplo: fazer, dizer, pedir);
  • Anômalos – apresentam radicais primários diferentes (caso dos verbos ser e ir que se alteram demais);
  • Abundantes – apresentam duas ou três formas de igual valor e função, principalmente no particípio );
  • Defectivos – não apresentam todas as formas na sua conjugação, por motivos de eufonia e significação (os verbos chover e abolir são exemplos desse caso: não se diz “eu chovo” nem “eu abolo”).

Calma, não vou me deter nisso com a profundidade que o tema necessita, mas apenas o suficiente para tentar explicar o motivo de alguns falantes cometerem certas gafes linguísticas… Se for criança, pode! Está em fase de aquisição da linguagem e experimenta diversas formas até compreender os mecanismos da língua materna.

Com criança, achamos bonitinho, fofo. Mas, se for com adulto…

Volta e meia a internet ou a tv trazem à nossa lembrança as famosas pérolas futebolísticas. Você, com certeza, já ouviu ou leu isto:

  • “Haja o que hajar, o Corinthians vai ser campeão.” (Vicente Matheus)
  • “Eu peguei a bola no meio de campo e fui fondo, fui fondo, fui fondo e chutei pro gol.” (Jardel, ex-jogador do Vasco e Grêmio, ao relatar ao repórter o gol que tinha feito)
  • “A bola foi fondo, fondo, fondo e, quando eu vi, ela iu.” (Dudu, tentando justificar um frango inexplicável que sofreu)
  • “Fiz que fui, não fui, e acabei fondo!” (Nunes, ex-atacante do Flamengo)

Como explicar esses desastres linguísticos???

Da mesma forma que a criança faz a analogia com os verbos regulares para dizer “eu fazi”, as pessoas que dizem essas pérolas também generalizam as estruturas verbais. Vejamos:

O verbo ir está no grupo dos verbos anômalos, aqueles que sofrem muita variação durante sua conjugação: eu vou, eu fui, eu irei… Dessa forma, na cabeça dos desavisados, acontece o seguinte raciocínio:

foi/fui: deve ser do verbo “for” (sic) / para fazer o gerúndio, acrescenta-se –ndo, logo “fondo” (sic)

sair – saiu / partir – partiu / ir – “iu” (sic)

É de arrepiar os cabelos dos mais afeitos à nossa língua portuguesa, mas não deixa de ter certa lógica… Incorreta! Assustadora! Mas, com um pouco de benevolência da parte do ouvinte, compreensível…

Outro caso, este bastante divertido:

Mais uma vez, o que vemos aqui é o uso da língua por analogia:

Partir – partida

Dormir – dormida

Curtir – curtida

Fazer – “fazida”, no lugar do particípio feita.

E, ainda:

Quem não partiu, parta.

Quem não dormiu, durma.

Quem não curtiu, curta.

Quem não pediu, “pida”. O verbo irregular pedir, na verdade, tem como imperativo peça.

Se a intenção do vendedor foi chamar a atenção dos consumidores para sua mercadoria ou se foi desconhecimento dos pormenores da língua, nunca saberemos… Pelo menos, demos boas risadas!

(Não vou nem comentar agora o “quebra queicho”, escondido pela sacolinha… Fica para  outra ocasião!)

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2 Comentários para “Percalços da língua”

  1. Ulácia disse:

    KKKKKKKKKKKKKK,parabéns adorei a reportagem!!

  2. Hello Carmen.

    I want to learn Portuguese and I had some experience with Spanish. Will it help me (even a little)? Or maybe it’ll be rather problematic?

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