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Uma atriz e cantora feita de emoções

TEXTO_Sérgio Lima Nascimento
FOTO_JORGE SOUTO

Maria José Motta de Oliveira mudou-se com a família de Campos para o Rio de Janeiro quando tinha três anos de idade. Frequentou a escola do teatro O Tablado, sendo aluna de Maria Clara Machado. Começou a carreira de atriz em 1967, estrelando a peça Roda Viva, de Chico Buarque. Ao longo de sua carreira, foram 27 novelas e 39 filmes. A carreira de cantora teve início em 1971 em casas noturnas paulistas, tendo gravado 10 discos e um DVD.

Na entrevista, ela fala do início de sua carreira, quando já na primeira peça, Roda Viva, foi agredida por delinquentes, no período da ditadura militar; de Xica da Silva, um marco para a mulher brasileira e para todos os afrodescendentes; do Movimento Negro; e do seu coração de mãe maior que o mundo, pois ao longo de sua vida adotou cinco meninas, hoje, adultas: Luciana, Nadine, Sirlene, Carla e Cíntia, além de um menino, Robson. Ela criou sozinha as meninas desde que elas eram bebês.

A personagem Xica da Silva virou um alter ego de Zezé Motta?

ZM: …meu Deus, eu batalhando para imprimir meu nome na mídia: Zezé Motta! E aí, faço sucesso e só me chamam de Xica. Depois descobri que ela era minha fada-madrinha, que eu não tinha que reclamar de nada, que ela só me fez bem.

Como foi rever a personagem feita por uma nova atriz, Thaís Araújo, quando você fazia a mãe da Xica, em 1996?

Na casa de Zezé, seu cantinho das lembranças, onde sempre cabe mais uma emoção

ZM: Estava em Cabo Verde fazendo um filme com Francisco Manso, chego ao hotel e recebo uma ligação do Walter Avancini perguntando se topava ser a mãe da Xica da Silva. Eu tomei um susto. Perguntei se podia pensar, ele disse: “Claro, amanhã você me responde”. Fui fazer as contas, e o filme já tinha 23 anos. Então, claro, tinha idade para ser a mãe dela! (risos) Percebi também que era uma homenagem muito bonita porque não se sabia nada sobre a mãe da Xica. No dia seguinte disse ao Avancini que topava. Foi um trabalho muito importante na minha carreira. Ser dirigida pelo Avancini era um privilégio! Ele foi um dos maiores diretores desse país! Era tão especial que combinava com o ator qual deveria ser o olhar do personagem, como impostar sua voz, qual seu signo… qual o orixá da personagem! E Xica era de Iansã, certamente! (risos)

Você chegou a rodar dois filmes em Cabo Verde. O que você acha dessa nova interação entre Brasil e países como Angola e Cabo Verde, que tiveram o mesmo tipo de colonização portuguesa?

ZM: Eu acho emocionante, muito bom. Já me apresentei em Portugal numa dessas propostas, que era uma noite só de cantores da língua portuguesa. Foi um dos maiores públicos que já tive, cantando numa praça para mais de 30.000 pessoas, e quando chegou Gilberto Gil foi a 110 mil! Eu estava fazendo um sucesso enorme numa novela chamada Kananga do Japão, que estava passando em Portugal. Eu acho isso fantástico, faria mais! Tenho orgulho de ter um cinema com o meu nome em Cabo Verde.

Zezé atuou na telenovela Xica da Silva (1996), vinte anos depois de protagonizar o filme que a consagrou internacionalmente. Na televisão atuou em diversas novelas e seriados

Países como Cabo Verde e Angola têm capoeira, que hoje é o maior divulgador da cultura brasileira e da língua portuguesa no mundo. Como foi sua participação nos Jogos Mundiais Femininos Abadá Capoeira, que aconteceu em julho, no Rio de Janeiro?

ZM: Foi uma emoção! Foi um privilégio ter sido convidada para participar. Eu tive várias surpresas, por exemplo, não sabia que a capoeira estava tão disseminada no mundo. De repente, estava vendo lá uma americana, sei lá, uma alemã, uma inglesa (risos) jogando capoeira. Fiquei muito emocionada, pois não sabia que estava ali presenciando uma cultura genuinamente brasileira e que é conhecida no mundo inteiro! Foi muito interessante essa experiência de poder falar para essa gente e também cantar.

Em recente entrevista o jornalista Domingos Meirelles colocou que a história tem dois lados: o da vítima e o do algoz. Após séculos de escravidão e outros tantos de racismo, será que a história oficial já começa a reconhecer e divulgar como afrodescendentes grandes nomes como Machado de Assis, Mário de Andrade, Aleijadinho, Chiquinha Gonzaga, ou mesmo o berço da civilização, por exemplo, o Antigo Egito?

ZM: Não é oficial, mas estamos chegando lá. Ainda vai demorar algum tempo para essas coisas todas irem para seus lugares certos. Mas esse reconhecimento do Machado de Assis foi algo emocionante. Achei que foi um bom começo. Acho que a Academia Brasileira de Letras está num momento muito especial. Eu já assisti Escola de Samba no jardim da Academia Brasileira de Letras. Já fui homenageada lá e neste mês será Martinho da Vila… quer dizer, eu acho que são passos lentos, mas a gente vai chegar lá.

Em seu CD mais recente – Negra Melodia – Zezé canta composições de Luiz Melodia e Jards Macalé

Você que sempre foi uma ativista do Movimento Negro. Como vê hoje as conquistas alcançadas e as ainda desejadas? Fale um pouco do seu lado ativista em movimentos sociais e anti-racistas.

ZM: Acho que o Movimento Negro avançou bem! Avançou porque me lembro do tempo em que a gente se reunia, e eram encontros muito fechados. Reuníamos muito para nos queixar da vida e fazíamos movimento em datas especiais, 13 de maio, que passou a ser 20 de novembro, porque se concluiu que Zumbi era mais importante que a Princesa Isabel… Léa Gonzáles colocou então que não havia mais tempo para lamúrias! O Movimento Negro, hoje, não se reúne mais. As pessoas da minha geração, que criaram o Movimento nos anos 70, como diz o Milton Gonçalves, são Negros em Movimento, cada um tentando contribuir de alguma forma. Então surgiram os bailes soul, a revista Raça, uma empresa de vídeo “Cor da pele” que documenta tudo ligado ao movimento… O Movimento Negro virou essa coisa dos negros em movimento, denunciando, cobrando, discutindo a questão das cotas…

O que você pensa dessa cota racial em universidades?

ZM: Sou a favor das cotas pelo seguinte motivo: acho que o Brasil tem uma dívida com o negro. Se a cota é uma forma de minimizar essa dívida, sou a favor dela. E tenho certeza de que essa questão das cotas não é para sempre, é uma ação provisória. Acredito que as cotas contribuíram para que se discutisse a questão da desigualdade, da falta de oportunidade do negro chegar à faculdade, porque a maioria dos negros tem poder aquisitivo baixo! Inclusive está comprovado que os cotistas se dedicam mais, porque são muito gratos por ter essa oportunidade. Eu mesma me considero uma cotista, pois se eu não ganhasse uma bolsa de estudo para fazer o Tablado nos anos 60, não sei se estaria aqui. Fico emocionada quando me perguntam se alguma coisa mudou nesses quarenta anos (Zezé fala com os olhos marejados e muito emocionada)… Na época falei: quero entrar para esse movimento porque eu quero preparar um mundo melhor para os meus filhos, para os meus netos. Quando temos 20 anos de idade, não sabemos se vamos viver até os 40. Quando temos 40 não sabemos se vamos até os 60, e eu hoje com 68 fico muito emocionada de ter lutado por isso, contribuído com isso e estar aqui viva presenciando esta virada lenta… mas que é uma virada!

Apesar da perseguição que certas seitas fazem a religiões de matrizes afro, será que o Candomblé e a Umbanda têm hoje mais aceitação, ou mesmo uma certa elitização, do que em épocas passadas?

ZM: Acho que essas religiões estão sendo menos discriminadas do que antes. Quando eu era adolescente, a minha mãe frequentava a Umbanda. Eu não comentava com as minhas colegas que ela era umbandista e meu pai kardecista, porque seríamos discriminados. Acho que a gente avançou um pouco nesse sentido. Não me lembro de na época tantos brancos se assumirem como umbandistas ou candomblecistas… brancos e negros, as pessoas de um modo geral! Infelizmente sofremos muita perseguição por parte dos evangélicos. Eu fui testemunha disso! Vi uma casa de Umbanda ser totalmente destruída por evangélicos, mas tive o privilégio também de acompanhar sua reconstrução e ir à reinauguração. Acho que isso não é tratado como crime, mas deveria! É tratado apenas como intolerância religiosa. É direito de cada cidadão ser fiel a sua convicção religiosa. Qualquer tipo de intolerância é abominável!

Como você se posiciona religiosamente? Seria o teatro um templo onde o artista exerce uma função espiritual?

ZM: Quando minha mãe era da Umbanda, ela dizia que eu era uma médium nata e que eu tinha que desenvolver, e de repente recebi um recado que eu exercia isso no palco. Fiquei aliviada, até porque é uma grande responsabilidade se dedicar a isso. Hoje me coloco como kardecista. Minha mãe, que atualmente é Testemunha de Jeová, não aceita muito minha relação com o Candomblé.

Você não teve filhos naturais, mas adotou vários, além daqueles que te consideram também como mãe. Como é a Zezé Motta mãezona? Será que você vai levantar a bandeira da “adoção” também no seu ativismo social?

ZM: (risos) É uma boa ideia. São três sobrinhas, duas órfãs e um menino, o Robson de Sousa, que o “Clube da Luluzinha” nunca deixou morar na casa e tive que adotá-lo num abrigo. E a Erika, minha sobrinha, que mora comigo e considero minha filha… que a mãe dela não me ouça (risos). Tem ainda a Luciana que eu adotei aos quatro anos de idade. São seis meninas. A Luciana nunca me perdoou por ter adotado outros, pois ela foi filha única durante muitos anos. São seis meninas e um menino como filhos e ainda tenho seis netos.

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