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Lilibeth Cardozo

Voltar à casa materna

Escrevo um texto de saudade. Difícil não manchar o papel que fica enrugado, quase solidário às minhas lágrimas. Fui visitar minha cidade natal, a casa dos meus pais. Lá, onde nasci, cresci e fui velar os corpos dos meus irmãos recentemente. De coração apertado de tantas saudades, fui buscar um pouco da minha história para me deleitar com lembranças.

Chegando ao município, já fui sendo abraçada pelas serras que enfeitam os limites do território: ainda verdes, serpentinas da Serra do Mar envolvem a pequena cidade. No centro, uma agressão aos ouvidos: o barulho intenso de muitos e muitos carros! A cidade do automóvel! Mas não me aborreci, embora sentisse saudades dos tempos mais silenciosos, quando as pessoas caminhavam a pé. Meu intento era ir à casa onde nasci e vivi até vir para a Universidade, aos 17 anos. A casa da minha mãe era nossa referência de origem, nosso ninho para aconchegos, a casa para voltar, nossa casa de festas. Morreram meus avós, meus tios-avós, meus pais e todos os filhos foram saindo. Ficaram meus irmãos. Um deles, nunca saiu, e lá era sua casa sempre. O outro, depois de um casamento desfeito, voltou. Depois de muitos anos, a referência da casa da vovó, onde moravam os dois, num repente, de um mês, velou os corpos deles, meus únicos irmãos. No jardim daquela casa, flores eram cuidadas por um deles, os cães eram o xodó do outro. O canto do corrupião do meu irmão foi ouvido a noite toda de sua partida. Ao voltar à casa, encontrei saudades.  Tudo vazio. Entrei buscando os sons de minha infância: a algazarra da grande família, crianças, adultos e idosos, todo mundo família!  No jardim, a grama já não é tapete aparado. O mato cresceu por entre as plantas que eram bem cuidadas. Algumas já tombam por falta das mãos que as regavam. Nunca encontrei cores falsas nas flores do jardim da minha mãe.  Apesar de vazia fica pouco espaço para ausências. Entro e vejo logo que casa de mãe tem viga forte e sustenta do chão à cumeeira. Em casa materna, a vida inteira, as imagens da família dançam nas sombras de cada janela. É casa bem assombrada!   E saudade tem som e cheiro. As lembranças tomam meu coração e saem desenhando as histórias das emoções. Cheiro do barulho das crianças e o barulhinho de vida na fervura do feijão na cozinha. Som entrecortado pelas batidas do alho socado para o tempero.  O corrupião cantando solene enquanto salta nos poleiros da gaiola. Os latidos dos cães, a vassoura de piaçaba varrendo as folhas do quintal, e as cores viçosas das flores que emolduram o muro envelhecido. Tudo tem vida nas lembranças! Saudades podem também fazer muito bem. Não tenho vontade de chorar; só de recordar. Onde estão todos? Casa vazia é quase nada. O que dói, arranha, machuca, é a falta daquele calor do corpo do irmão que partiu. Mistério não é esse tanto de vida que tivemos juntos . Mistério é a morte!

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