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Gisela Gold

Marzipan

Todo mundo sabia que Miro das ideias bem não batia. Ouvia mais era passarinho. Era passarinho quem lhe contava de suas batidas cardíacas. Lá onde ele mandava. Rumo certo não tinha. Era muito certo das ideias não, alguém repetia. Mas Miro disso não sabia. E não sabendo, não sofria. Sofrer, sofrer mesmo só quando mataram o Reco-reco. Passarinho ali da frente da casa de Gilda, sumido em molecagem de estilingue. Reco-reco sempre contou para Miro a hora na qual a janela de Gilda abria. E graças a Reco-Reco, Gilda um dia viu o olho que dela não saía. Gilda, a florista, ganhou de quem a mirava, flor de Marzipan. Foi Miro então quem roubou um pouco do doce de Dona Ruth, antiga doceira da cidade! De posse do doce, moldou uma rosa e colocou em caixa com laço de fita no canto. Gilda tamanha formosura teve até pena de comer. Foi quando o rapaz falou: vamos brincar de mágica, a flor eu faço nascer na minha mão, esconde ela aí dentro do seu coração. Ninguém vai ver. É só colocar na boca, ela vai desaparecer. Gilda derramou sal dos olhos no enfeite e provou do encanto.

Todo mundo sabia que Miro das ideias bem não batia. Gilda sabia. Mas Gilda também soube que Miro era feito de poesia.

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