Artigos
&
 
Colunas

Lilibeth Cardozo

Não sou normal

Ando me sentindo uma anormal nos dias de hoje. Não assisti à novela das 9, não sei quem foi Carminha, nem Nina e não quis saber quem matou Max. Tem mais: achei uma grande bobagem as primeiras 17 páginas que consegui ler dos Cinquenta Tons de Cinza, o sucesso editorial do momento.

E fui mais além: estou muito curiosa para saber o que as mulheres viram de tão fantástico na trilogia escrita pela inglesa Erika Leonard James. Mas não tenho vontade nenhuma de me esforçar para ler mais nem uma linha da história do cara “tudo” (leia-se lindo, bem sucedido, rico, bem vestido) e da mocinha de 28 anos (nem tão mocinha assim). Curioso é ler várias interpretações sobre o sucesso da trilogia, dentre as quais a de que, a exemplo de Anastásia, (moça que descobre o sexo com o tal “tudo”), as mulheres de hoje querem ser dominadas e levar muita palmada ou serem chicoteadas. Sei não, acho que não sou normal mesmo. Sou descasada há muitos anos, adoro namorar, não gosto de sadomasoquismo, não quero fazer plástica e não me acho velha! Isso tudo é meio anormal hoje! O sucesso editorial da tal trilogia me irrita, a leitura pretensamente sociológica do porquê de tanto sucesso com as mulheres me intriga muito. A tal trilogia me pareceu pornô para iniciantes. Será anormal achar aquela voracidade dominadora uma grande bobagem e nada excitante? Voltando à novela, eu até acho que deveria ter visto, por formação e por razões profissionais. Se quero saber do meu povo, com o que as pessoas estão preocupadas, que modelos estão seguindo, que questões debatem em casa, na escola, no trabalho, nas mesas de bar, eu deveria ver a novela. Mas será que andando pela minha cidade, lendo jornal e revistas, pegando ônibus, metrô e até um trem para passear no subúrbio, conversando com as pessoas, sendo perguntadeira, muito curiosa, eu não fico sabendo do meu povo? Não, não sou normal! Se não vejo essas coisas, não sou normal! É o que me dizem. Mais anormal ainda porque não gosto de assistir à TV, não vejo o Fantástico aos domingos, não acho que homens são todos iguais, digo que eles prestam e não acho que todo mundo tem que fazer terapia! Bota anormalidade nisso! Querem saber mais ainda? Não sei quase nada de tecnologia e creio firmemente que alguém pendurado num celular o dia todo, lendo ou passando mensagens, dizendo que está prestando atenção no que digo, é muita mentira! Meu filho diz que ele é geração Y e por isso consegue. Então tá, sou geração ABC e adoro ser. Não consigo achar normal e “moderno” uma mulher levar sua netinha de três anos ao salão pra fazer escova e chapinha no cabelo todos os sábados (minha sobrinha viu isso). Não acho normal criança gritar com os pais e até bater na cara da mãe.  Será que devo achar normal mocinhas de 15 anos com vida sexual ativa, dormindo na casa dos pais com o namoradinho da vez? Devo achar  normal filhos pré-adolescentes fumando um baseadinho em casa, sentados na sala ao lado dos pais? Parece ser também o normal, o maior sonho de consumo do momento, fazer enxoval em Miami, levar filhos na Disney ou ser imprescindível visitar algum país estrangeiro. Pra mim isso tudo é moda e bobagem de classe média. Sou tida como anormal quando defendo o parto natural e acho um escândalo o Brasil ser campeão de cesarianas no mundo. Outra anormalidade minha é detestar ouvir pessoas dizendo que gostam mais de bicho que de gente. Alguns muitos, normais, humanizam tanto os cães que os pobres bichos têm nomes de gente, são vestidos, calçados e andam em carrinhos de bebês. Coitados. Acho que se pudessem protestar pediriam proteção a São Francisco de Assis para voltarem a serem só cachorros bem cuidados! Eu até me achava moderna, normalzinha… Virei anormal! Então tá, enquanto Carminhas e Ninas se agridem e lançam os maiores desafios à inteligência do povo no esclarecimento da trama, fico quietinha na minha anormalidade lendo meus livros que são deliciosas histórias em que os gritos, mentiras, trapaças, traições, carinhos, verdades e mentiras acontecem também, mas lá, na genialidade dos autores, os personagens ficam caladinhos dentro das páginas ou na minha cabeça de leitora. Sabem do que mais: estou achando muito bom não ser normal!

artigos anteriores de Lilibeth Cardozo

Publicado em – Edição 117
Aniversariando sexagenária
Publicado em – Edição 116
Santa Maria, rogai por nós
Publicado em – Edição 115
Um passeio pela Urca
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)

Deixe um comentário