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Arlanza Crespo - Quem é Quem

Sou dono das 7 maravilhas do mundo

Fui atraída pela música. Uma música clássica saindo não sei de onde, numa esquina em Copacabana. Procurei e vi que ela vinha de uma banca de jornal. Curiosa, entrei e descobri que o dono da banca só gostava desse tipo de música. Resolvi então conversar com ele. Conversa vai, conversa vem, falamos de Pavarotti, de Frank Sinatra, e vi que ali tinha um bom material para uma entrevista. Pronto…

Gostei dele logo quando perguntei seu nome: “Antonio Joaquim”, ele respondeu. “De que?” perguntei em seguida, obviamente querendo saber o sobrenome .”Mais nada” me disse ele, “só Antonio Joaquim”. Comecei a perceber que nada ali era óbvio, fui com calma.

Antonio Joaquim nasceu em Campina Grande, na Paraíba, em 17 de novembro de 1961. O pai, policial militar, deu a ele todas as condições de estudo, inclusive em escola particular, mas Antonio não gostava de estudar, não tinha paciência. Era entrar e ser expulso. “Seu filho não tem jeito”, a professora falou para o pai. Um dia ele saiu de vez. Aprendeu muito pouco, não gostava de leitura, tinha preguiça. Mas em compensação era ótimo em Matemática. Gostava de vender coisas, lidar com números. Começou a trabalhar com oito anos de idade e vendia pipoca, amendoim, legumes. Quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1985, foi trabalhar como vendedor de praia, depois faxineiro e depois porteiro. Mas foi quando saiu do último emprego que passou pela banca que fica numa esquina da rua Bolívar, em Copacabana, e viu que ela estava fechada. Se informou, alugou e está aqui há 12 anos. Ele, que tem preguiça de ler, virou dono de banca de jornal. Antonio não sabe dizer porque só gosta de música clássica. Ele é mesmo bem diferente da maioria! Também não gosta de pagode, não gosta de funk, não gosta de futebol, não bebe e não fuma.

Antonio mora no Jardim America. Sai todo dia às 4 horas da manhã e pega duas conduções até Copacabana. Leva mais ou menos uma hora. Abre a banca às 5 da manhã, sai às 10 (a filha fica no seu lugar) e volta às 2 da tarde. Aí fica até as 19 horas. “Você sai para descansar um pouco?” perguntei. “Claro que não!” foi a resposta. É que nesse horário ele faz serviço de bombeiro, gazista e eletricista. E é tão requisitado que os clientes deixam a chave de casa com ele para ele ir quando puder. Só hoje, durante a entrevista, teve cinco chamados. Também, não é fácil encontrar um profissional competente e honesto nessa área.

Antonio não para, é irrequieto. E no fim de semana ainda sobra tempo para ir à praia de Mauá ou São Pedro da Aldeia.

Gostei muito de conversar com ele, mas faltava ainda alguma coisa pra ele me dizer. Estava ali, na minha frente um homem muito feliz, de bem com a vida, Qual o motivo de toda essa alegria, ele não estava cansado depois de tanto trabalho, de acordar tão cedo, de enfrentar duas conduções pra ir e duas prá voltar? Foi quando perguntei se ele era casado. Aí meus amigos, eu, romântica incorrigível, entendi o porquê de tanta felicidade, e meu queixo quase caiu. Antonio está casado há 35 anos com a mesma mulher, com quem tem 6 filhos e 6 netos. Ele conheceu a esposa (Maria do Socorro) em 6 de novembro de 1978 ,ela tinha 13 anos e ele 17.Casaram no mês seguinte. E até hoje Antonio lembra as datas, e dá sempre presente e comemora o aniversário de casamento com uma nova lua de mel. “Ela não é de luxo, é muito simples,mas se ela quisesse eu daria presente prá ela toda a semana. Ela é tudo pra mim” ele confessa. Realmente, Antonio é muito especial, e o amor que ele tem pela esposa e pelos filhos e netos é raro de se ver hoje em dia. Fiquei muito feliz com a entrevista,e já ia embora quando ele me disse,assim,do nada: “sou um homem realizado, sou dono das 7 maravilhas do mundo, minha esposa e os seis filhos!”

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