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Carmen Pimentel - Língua portuguesa

TU invade o horário nobre e toma conta da cena brasileira

A cena abaixo aconteceu na novela Avenida Brasil, da Rede Globo, que terminou no mês passado. Ela se passou no píer entre Tufão (Murilo Benício) e Max (Marcello Novaes) que travaram o seguinte diálogo:

“Quer dizer então que agora tu já pode andar com as próprias pernas, né? Não precisa mais de mim nem da minha irmã para te bancar…”, alfineta Tufão.

Irado com os insultos de Tufão, Max xinga o cunhado:

“Tu se acha muita coisa, né, Tufão?! (…) Olha para você! Sapo gordo, gelzinho no cabelo…”.

“Bom saber que tu não gosta de mim, porque eu também não gosto de você! Eu vim aqui para dizer o seguinte: você foi um animal com a minha irmã depois que ela desistiu de te dar dinheiro, então agora tu vai sumir da nossa vida, entendeu?”, engrossa Tufão.

É curioso verificar que o uso do pronome TU é bastante comum em todos os cantos do país. Entretanto, nem sempre a concordância entre o pronome e o verbo se dá de maneira correta.

Da mesma forma que acontece no diálogo dos personagens da novela, os brasileiros têm optado pelo uso do TU no lugar de VOCÊ. Até aí, nada de mais. Acontece que o TU acaba vindo acompanhado de verbo na terceira pessoa, como no exemplo. Essas construções estão tão comuns que muitas vezes nem percebemos mais…

No sul e no norte do Brasil, o uso do TU é bem acentuado. Se o falante tem grau de instrução mais alto, ele faz a concordância adequada, e é uma delícia ouvir um “tu queres?” ou um “tu vens à festa hoje à noite?”. Caso contrário, ouviremos um “tu qué”, “tu vem” saindo das bocas com a maior naturalidade. Aqui no Rio, o fenômeno se repete: o uso de TU aparece com o verbo na 3ª pessoa com a maior naturalidade…

O português moderno permite que se escolha livremente entre usar o TU ou o VOCÊ. Nas gramáticas tradicionais, são duas formas igualmente corretas para tratar a segunda pessoa do discurso: aquela com quem se fala. Embora TU e VOCÊ se refiram à segunda pessoa do discurso, TU pertence à 2.ª, e VOCÊ pertence à 3.ª pessoa gramatical, exigindo as formas verbais de 2ª e de 3ª pessoas respectivamente (tu vens / você vem).

No Brasil, o uso do VOCÊ tornou-se muito mais comum do que o TU, como lá em Portugal. Atribui-se a isso a ideia de formalidade que as segundas pessoas (tu e vós) apresentam. Por aqui, VÓS só aparece em textos escritos – antigos ou extremamente formais. Mas, ultimamente, o Tu vem caindo nas graças do povo!

Alguns falantes tentam explicar o fenômeno do uso do TU em tão larga escala, apontando para a coloquialidade ou para a informalidade. Numa conversa entre amigos, o TU irá, certamente, sobressair-se. Já num contexto mais formal, como uma reunião de trabalho ou uma entrevista de emprego, o VOCÊ é a melhor escolha.

Alguns pesquisadores da língua atribuem esse fenômeno ao fato de VOCÊ ser um pronome de tratamento, que tem sua origem em Vossa Mercê, e, portanto, usa o verbo na 3ª pessoa. Isso dá o tom de formalidade necessário a alguns atos de comunicação. Daí a opção pelo VOCÊ em contextos mais formais. Já o TU, historicamente, era o pronome da intimidade, da informalidade, acompanhado de verbo na 2ª pessoa.

Entretanto isso não explica a concordância (ou a falta dela) no uso do TU com o verbo ma 3ª pessoa, como nos exemplos a seguir:

“Tu não sabe que o Tufão está apaixonado por outra mulher?”

“Tu percebeu como ela tá bonita?”

“Se tu não for, eu também não vou.”

“Eu já sabia que tu não ia gostar nada disso!”

É claro que tudo se resolveria se o falante substituísse o TU pelo VOCÊ. Mas não parece ser essa a opção desejada. Para os sociolinguistas, entretanto, não existe forma melhor ou pior: ambas são válidas porque atendem a diferentes necessidades de comunicação. Usar TU ou VOCÊ e as devidas concordâncias (ou não) fica, então, a cargo do falante e do propósito comunicativo em que se insere no momento. Vai encarar?

Fica para outra vez falar sobre o TU nesta situação: “Eu trouxe isso pra tu”…

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