Saúde
&
 
Bem-estar

A melhor idade para pôr o pé na estrada

Turismo na terceira idade traz qualidade de vida, equilíbrio físico e emocional e eleva auto-estima

TEXTO_Lilibeth Cardozo

“Estou viajando na vida há 74 anos. Nesse tempo, trabalhei, tive filhos, criei, tenho 6 netos e desde que me aposentei, aos 62 anos, só quero passear. Já viajei quase o Brasil todo e parte da Europa. Enquanto eu for viva, vou viajar. Olho em mim, porque logo, logo estarei na África…”

Assim nos falou Dona Mariana, uma carioca apaixonada por viagens. Cheia de saúde e disposição, ela representa a idosa mais animada que a Folha Carioca encontrou, buscando conhecer os turistas da terceira idade. Conversamos também com Remildes, uma andarilha pelo Brasil que vive num tranquilo bairro da cidade e nele é muito conhecida, quase como uma garota. Mãe de dois filhos e avó de três netos, já tem mais de 70 anos, mas sua vitalidade e energia não a distanciam de jovens aventureiros. Remildes é uma viajante e costuma sair do Rio mais de três vezes por ano, indo de norte a sul, com pouco dinheiro e muita disposição, usando ônibus e barcos. Ela vai regularmente ao norte e ao centro-oeste rever suas origens. Perguntamos sua idade exata, e ela nos disse taxativa: “Sou índia, nasci numa canoa no rio Araguaia e índio não tem idade”.

Benefícios do turismo para a saúde

Remildes

Remildes é uma viajante e costuma sair do Rio mais de três vezes por ano, com pouco dinheiro e muita disposição

O idoso que viaja, mesmo que seja de uma cidade a outra, ou a pontos de suas próprias cidades, tem muitos ganhos. As viagens podem ter baixos custos e sempre trazem retornos econômicos indiretos para as famílias. O ganho mais comum é diretamente na saúde física e emocional, o que implica redução das despesas como acesso a serviços de saúde e medicamentos, uma vez que o lazer ocupa o lugar do ócio, promovendo a satisfação física e psicológica, diminuindo queixas e sintomas de doenças. O indivíduo que se diverte desperta em si a alegria e retrai as preocupações e dissabores. O velho que viaja leva consigo sua história de vida que se mistura a outras histórias, muitas delas vividas ou sonhadas nos lugares que visitam. As trocas entre integrantes de grupos de viagens celebram amizades ou estreitam laços. O turismo para os cariocas que já se aposentaram, criaram filhos, construíram suas vidas é um forte nicho de mercado, e promover lazer preocupa as instâncias de governo. O estado precisa atuar identificando os grupos e suas características econômico-financeiras, bem como de acessibilidade física, de modo a promover bem-estar às populações idosas, o que diminui os altos custos com atendimento de saúde nas unidades públicas. É possível promover o turismo para grupos com baixa renda, desde que sejam bem desenhados programas que estimulem a convivência, gostos, credos, amizade e alegria. O Governo Federal, através do Ministério do Turismo, lançou, há dois anos, o Programa Viaja Mais Melhor Idade, visando oferecer pacotes turísticos com preços especiais para as pessoas com mais de 60 anos, aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Além da vantagem nos preços, é oferecido crédito consignado, com desconto na folha do INSS, juros de 1% e parcelamento em até 12 vezes.

O Brasil tem hoje cerca de 21 milhões de pessoas com 60 anos ou mais de idade, o equivalente a 11% da população brasileira, e este contingente, com a queda da fecundidade e o aumento da esperança da vida, só tende a aumentar nos próximos anos. Na cidade do Rio de Janeiro de uma população de 6,4 milhões de cariocas, cerca de 15% têm 60 anos ou mais de idade. Tais informações estatísticas, levantadas pelo IBGE, são importantes para orientar o traçado de políticas de governo de amplo alcance, como também campanhas de cunho publicitário, já que os idosos despertam cada vez mais o interesse dos operadores do mundo dos negócios. E não interessam porque enfeitam a cidade, embelezam as festas ou animam os ambientes. Interessam porque são consumidores com larga experiência de vida e buscam reviver belas experiências ou realizar desejos e sonhos acalentados durante suas existências: consomem, geram riquezas! Os idosos são sedentos por viverem o tempo da delicadeza, da contemplação adulta, em que a sabedoria desperta novos sentidos e sabores a serem deliciados num tempo de mais tranquilidade. Rever amigos, revisitar familiares, reencontrar amores, deliciar-se com encontros ou abraçar a vida com pernas e braços que há mais tempo construíram muitas das memórias de uma cidade, de um país, de um lugar!

Assim, o turismo é um dos mais preciosos presentes que eles, que não são mais netos, mas avós, podem oferecer a si mesmos. As empresas de turismo, cientes do potencial de vendas de seus roteiros a este grupo de consumidores, organizam roteiros que dão prazer a homens e mulheres que estão sedentos por passeios turísticos. Os idosos gostam de viajar para lugares que lhes dão satisfação espiritual e estão mais propícios a fazê-los sentir-se mais saudáveis e mais jovens. Portanto, o roteiro, o tipo de transporte e as acomodações são fundamentais para a adequação de cada grupo ou indivíduo a uma proposta de viagem turística. Tudo depende muito da idade das pessoas que viajam. Atentos a esse grande nicho de mercado, as empresas de turismo hoje organizam passeios com destinos muito diferenciados e que se adequam a distintos perfis etários e de renda.

Observando grupos que viajam, é indiscutível que os idosos ganham vigor e alegria quando em grupos de lazer e cultura. Encontramos um grupo de senhoras com idades avançadas visitando o Pão de Açúcar. Uma delas, Dona Gertrudes, com 73 anos, não gosta de viajar e nos disse: “Não sou amiga de viagens, mas, como fazemos parte de uma congregação religiosa, viajo sempre pelo Brasil. Me sinto mal, não me dou bem em aviões”. As três estavam fazendo passeios turísticos no Rio, e uma delas foi bem assertiva ao dizer que gosta muito de viajar e só não faz turismo com frequência por ser muito dispendioso.

Dona Mirian e sua filha: alternando entre viajar ou juntar dinheiro para a próxima viagem

Dona Mirian e sua filha: alternando entre viajar ou juntar dinheiro para a próxima viagem

Dona Mirian tem 69 anos e nos disse que está aposentada há cinco anos. No Rio de Janeiro pela quarta vez, ela pretende ir em breve visitar Foz do Iguaçu e veio recentemente de Buenos Aires. “Viajo sempre por uma companhia de turismo, e meus planos hoje, aposentada, é só parar para juntar dinheiro. Assim que junto, viajo outra vez”, afirma Dona Mirian.

Pesquisando os programas de governo ou das empresas particulares voltados para ofertas de produtos e serviços aos idosos, encontramos diferentes iniciativas que visam ao bem estar desse grupo populacional que muito viveu e ainda pode viver mais.

De olho nesse mercado, uma companhia aérea regional da América do Sul lançou o programa Melhor Idade – Melhor Viagem, com descontos de até 80% para pessoas com 60 anos ou mais. “As pessoas na melhor idade merecem facilidades para aproveitar mais essa fase da vida, por isso, fomos pioneiros na criação de um programa com preços diferenciados para esse público”, afirma o diretor de marketing da companhia.

Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares, realizada pelo IBGE, no período de 2008-2009, no estado do Rio de Janeiro, o turismo foi o motivo para quase 40% das viagens das famílias. O Rio, capital do estado, com suas belezas naturais e efervescente vida cultural, é sem dúvida uma fonte de prazer para os turistas e mina de ouro para altos lucros de investimentos para empresas de turismo. Idosos, depois de vida produtiva dinamizando a economia do país, querem é gastar dinheiro e energia fazendo turismo no Brasil e no mundo.

MATÉRIAS ANTERIORES DE Saúde & Bem-estar

Publicado em – Edição 117
O cuidado de si como prática de vida
Publicado em – Edição 117
Vamos acabar com o mito
Publicado em – Edição 117
Mulheres equilibristas
VN:F [1.9.22_1171]
Rating: 0.0/5 (0 votes cast)

Deixe um comentário