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Arlanza Crespo - Quem é Quem

Afinal, o que é rutilismo?

Homen no corredor de locadora de filmeNunca tinha pensado nos ruivos como uma espécie em extinção, por isso que quando minha amiga Catarina perguntou se eu queria entrevistar um ator ruivo e defensor ferrenho da causa, gostei da ideia. Marcamos na Cobal do Humaitá. O nome dele é Pedro Monteiro. Eu não o conhecia, e imaginei logo um estereótipo de ruivo, com cabelo bem vermelho e todo sardento. Epa! Nada disso, quieta… Não sei nada do assunto, aliás é para saber do assunto que estou aqui.

Meu entrevistado chega e se apresenta. Não tem o cabelo cor de fogo nem tem muitas sardas. É simpático, alegre, e muito jovem. Começou logo a falar sobre preconceito, e foi por ter sofrido na pele que ele, ator, 34 anos, carioca, professor de teatro e ruivo, resolveu defender essa bandeira.

Tudo começou em 2007 quando ele tinha acabado de sair da faculdade. Não tinha ainda feito nada de destaque. Fazia pontas e comerciais. Não que tivesse problemas com isso, mas não queria fazer só isso. Foi quando aconteceu algo que detonou o processo: “Participei de uma situação desagradável”, começou a me contar. “Fui gravar um comercial, quando disseram – não é você, o cara tem que ser negro! Chorei, fiquei mal e, desse curto mal, pensei: vou escrever uma peça, sou um excluído, quero cota, desconto no dermatologista, dia da consciência ruiva. E escrevi um texto, um texto leve e bem humorado falando de preconceito”. Estava pronta a peça.

A partir daí, Pedro fez uma reunião só com ruivos e inventou o “Movimento Vermelho”. O primeiro encontro foi na Cobal do Humaitá, e compareceram 17 ruivos. Pedro então pediu que eles virassem garotos-propaganda da peça. A peça fez o maior sucesso, viajou pelo Brasil num total de 203 apresentações em 10 estados e 56 cidades. Uma peça interativa, com gente subindo no palco, ruivos se manifestando na plateia etc. Depois disso, foi entrevistado pelo Fantástico e pelo Jô Soares para falar não só sobre a peça mas também sobre os ruivos, que era o que ele mais queria.

Afinal, o que é o rutilismo, perguntei? Pedro então me explicou que é uma mutação genética, e que, para se nascer ruivo, tem que haver ruivos dos dois lados (caráter recessivo). As características físicas podem não ser só cabelos vermelhos, mas principalmente a cor da pele. Dizem também que eles têm mais sensibilidade à dor. Existem várias histórias sobre os ruivos, mas a mais recente é a de que eles estariam em extinção, porque estão diminuindo consideravelmente desde 1970. Hoje são só dois por cento da humanidade, concentrados principalmente na Escócia, já que é estimado que 40% dos escoceses são portadores do gene vermelho. Por isso os ruivos que quiserem literalmente salvar sua pele devem se mudar pra lá!

Pedro me falou também do dia internacional dos ruivos, que é 7 de setembro. Foi nesse dia em Breda, na Holanda, que um pintor convidou 15 ruivos para modelos de suas telas, e apareceram 150. A partir daí começaram a se reunir sempre nesse dia, e este ano foram 5.000. No Brasil, o primeiro encontro de ruivos aconteceu em São Paulo, na Av. Paulista. Eram mais ou menos 40, o que foi considerado recorde. Conversaram, contaram histórias, falaram de bullying, trocaram ideias e apelidos. De “ferrugem” a “arroto de Fanta”, passando por “cabeça de fósforo”, “Bozo” e “água de salsicha”, Pedro já ouviu de tudo, fora as perguntas impublicáveis.

Pedro trabalha com o preconceito de uma maneira leve e bem humorada. Para ele, levar na brincadeira é o que conta. Ele acha que a sociedade está aceitando melhor as diferenças. Está sim, e com certeza os atores têm um papel muito importante nesse processo.

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Um Comentário para “Afinal, o que é rutilismo?”

  1. agar disse:

    segregacionista da zona sul

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