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Suzan hanson

Comidas de (quase) uma panela só

Finalmente o desenvolvimento socioeconômico no Brasil chega a um ponto em que novas oportunidades mais vantajosas apresentam-se como alternativa ao trabalho doméstico. A consequência direta é que este se torna cada vez mais escasso e, portanto, mais caro. Muito bem-vindo o aumento do poder aquisitivo de uma grande parte da população.

Finalmente o desenvolvimento socioeconômico no Brasil chega a um ponto em que novas oportunidades mais vantajosas apresentam-se como alternativa ao trabalho doméstico. A consequência direta é que este se torna cada vez mais escasso e, portanto, mais caro. Muito bem-vindo o aumento do poder aquisitivo de uma grande parte da população.

Novos ventos, novos rearranjos familiares. Querendo acreditar que os avanços na relação homem-mulher já não permitem o extremo acúmulo de atividades na mulher, é hora das crianças e adolescentes voltarem a ajudar nas tarefas de casa, em parceria com seus pais. Claro que na justa medida da responsabilidade de cada idade. Antigamente isso era natural, cada um tinha uma tarefa em casa.

Como toda mudança, ainda mais aquelas que resultam em mais participação e trabalho, já dá até para ouvir a gritaria e “bateção” de pé em protesto e antever os boicotes e greves brancas.

Mas, no final, a participação traz algumas novas conquistas, como a valorização do trabalho doméstico: – “A roupa suja não sai andando do cesto para aparecer lavada, passada e dobrada no meu armário?”. Pois é, não tem um fantasma nem uma varinha mágica executando as tarefas… Outra coisa bacana é a consciência do lar e de seus objetos: -“Onde estão? Estão limpos, sujos ou quebrados? É fácil achá-los, onde devem ser guardados? São práticos, necessários?” – bem como dos outros seres vivos – não é que bichos e plantas necessitam de cuidados e carinho permanentes? Outro item, o exercício de planejamento e rotina – nenhuma falta de organização fala mais alto do que o acúmulo de tarefas não realizadas em uma casa. Vira um caos, difícil de ser partilhado com mais de uma pessoa. Por fim, a noção de solidariedade e interdependência entre todos da família, levando ao exercício de dividir tarefas de uma forma fluida, sem necessidade de constantes cobranças e brigas, e de como aproveitar os talentos individuais para compor um esquema com papéis diferenciados, mas complementares, tal qual um time de futebol – com tarefas bem menos divertidas, é verdade.

Parece meio Pollyanna – nossa, de que baú fui tirar o velho livro do “jogo do contente”? – mas há que se tentar ver o melhor de tudo, não? De qualquer forma, o que nos resta? Reclamar e resmungar? Acumular tudo numa única pessoa até sua exaustão? Então, só resta a alternativa de que todos contribuam um pouco.

Dessa experiência, apesar do cansaço, das reações de todos e da vontade de volta e meia gritar por socorro, abre-se também a oportunidade de aprender a simplificar a vida. Como sobre faxina entendo o trivial, e ainda espero ouvir boas dicas de alguém, candidato-me a dividir uma experiência de cozinhar da forma mais simples e rápida possível, usando o mínimo de utensílios.

Como nunca tive micro-ondas (agora confesso que sucumbi, é muito prático para esquentar e descongelar alimentos), comecei a desenvolver receitas que depois de prontas ficassem numa única panela para esquentar. Fico me perguntando como sobrevivemos às diárias panelas de arroz, feijão, farofa, legumes e carne por tantos anos…

Alguns exemplos:

  • Cuscuz marroquino + tiras de filé mignon (ou cubos de frango, ou camarão). Numa panela, refogar alho e cebola com azeite e preparar o cuscuz tal qual se prepararia arroz, acrescentando ao final do cozimento ervilhas cozidas congeladas, cenoura crua ralada no ralo grosso e cheiro verde. Cortar o filé em tiras e passá-las rapidamente em frigideira wok bem quente.
  • Salada de folhas verdes, como alface americana, rúcula e agrião, macarrão integral parafuso, lascas de frango cozido com azeite temperado com manjericão e alho. Cozinho o frango em água fervente com pedaços de cebola e alho esmagados com casca, ervas frescas disponíveis, como salsa e tomilho, um naco de cenoura com casca, sal e grãos de pimenta do reino. Depois de cozido, desfio o frango e uso a mesma panela para cozinhar o macarrão. Para o azeite temperado, separar as folhinhas de manjericão, retirando os talos, juntar alho, sal e pimenta do reino e batendo tudo no liquidificador.
  • Sopa de abóbora e cubos de gorgonzola. Cozinhar a abóbora em água com sal e reservar. Refogar alho e cebola no azeite. Bater no  liquidificador o refogado junto com a abóbora e sua água do cozimento. Voltar o creme de abóbora ao fogo, acertar os temperos e acrescentar os cubos de gorgonzola, apenas um pouco antes de servir, para que não derretam totalmente.
  • Salmão fresco, temperado no limão e alho e assado no forno, juntamente com batatinhas ao murro, com sal grosso e tomilho fresco. Como cozinho as batatinhas calabresas na água e sal antes, quando a peça de salmão está na metade do cozimento, coloco as batatinhas ao murro para acabar de assar na mesma forma.
  • Para o fim de semana, faz o maior sucesso para quem gosta de comida mexicana, – carne moída cozida no refogado de alho, cebola e tomates, com molho bem apimentado (panela), salsa picante de tomate fresco, cebolas roxas, azeite e cheiro verde, tudo sem cozimento; sour cream brasileiro (cream cheese + iogurte + limão); cebolas roxas picadinhas, cheiro verde picadinho, queijo cheddar (ou mussarela) ralados. Para completar, Doritos e aquelas tortilhas pré-prontas. Também servem os wraps vendidos em pacotes nos supermercados. Colocar tudo em vasilhas separadas na mesa e cada um monta o seu.

É fato que dá trabalho manter uma casa limpa e arrumada, trabalhar, estudar e ainda tentar fazer comida saudável na maioria dos dias. Além do conforto de saber que a vida de mais pessoas tende a melhorar, um lado bom é que pode sobrar dinheiro para algo especial, como uma viagem ou o investimento em um hobby novo…

 

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