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Lilibeth Cardozo

Doutor, olhe pra mim

Precisar de tratamento de saúde é a pior coisa que pode nos acontecer no Brasil de hoje, e pra qualquer um! Não adianta os milhares de reais de impostos descontados de tudo que usamos, compramos, fazemos: o sistema público caiu em desgraça. Os outros tantos reais – verdadeiras fortunas – pagos aos planos privados de saúde, já não nos servem para quase nada. Ter muito dinheiro e poder pagar as consultas ou tratamentos, também não ajuda mais.

 

Está faltando o olho no olho entre médico e paciente, aquele vínculo que faz da medicina uma das mais lindas ciências da humanidade. Na linguagem médica, a anamnese. É aquele tempo em que o médico conversa com o paciente, olha pra ele, ouve as queixas, avalia o que ouve e, no muito que escuta, tem caminhos para um diagnóstico. O médico gasta tempo com esse trabalho, e é nesse tempo que se estabelece uma relação humana entre o que sente a dor e o que entende de dor. Quem busca um médico precisa dele, nem que seja pra ouvir que está tudo bem. Onde andam os médicos que dizem ao paciente: “vou cuidar de você” e realmente cuidam? O que dizer do infernal mercantilismo da medicina no Brasil de hoje? Como proteger os médicos do violento, desumano e impiedoso modo como são tratados pelos governantes e pelos planos de saúde? O que fazer quando, leigos, sentimos dores ou nos machucamos, nos quebramos, nos queimamos, observamos coisas estranhas em nossos corpos e precisamos de um médico? Os muito pobres procuram um posto de saúde, um hospital, um lugar qualquer onde tenha um médico. E o calvário começa em longas filas, horas seguidas de espera, falta de atenção e desconforto. Se tiver sorte, terá lá um médico que, na maioria das vezes, tem centenas de pacientes para atender e, sem tempo, tenta amenizar o sofrimento do paciente com o pouco que está disponível para seu trabalho.

Com raríssimas exceções, existem instrumental e equipamentos que podem auxiliar o médico no diagnóstico ou tratamento. Tempo? Não há! Material? Até pedaços de papelão servem para uma tala, ou furadeiras de parede para uma cirurgia… Para os que têm planos de saúde, conseguir uma hora na agenda dos credenciados é quase impossível. Na consulta, com quinze minutos por paciente, e os míseros reais que o médico recebe, não existe tempo para muita conversa, dedicação, envolvimento. E para os que, sem pobreza ou sem plano de saúde, podem pagar uma consulta particular, a tal relação médico paciente também anda esquecida.

Como tratar um paciente se o médico mal consegue saber seu nome? Onde anda aquela relação em que importava saber do paciente não só o estado civil, a profissão, o endereço, mas se o trabalho tinha riscos, se estava feliz, os hábitos, os gostos, as alegrias e tristezas, como andava a vida daquele “paciente”? Não estou falando de saudosismo, estou falando de humanização. Que coisa mais humana não ser esquartejado pelas especializações médicas! Atualmente, cada órgão, cada parte do nosso corpo tem um médico para cuidar e com nenhum é possível fazer um laço. Bom demais ter aquele médico que procura conhecer seu paciente, sorri ao vê-lo e até se lembra das muitas histórias da sua vida. Histórias que o ajudam a tratar, criam intimidade e cumplicidade; muitas vezes tanta que ele, humano e não onisciente, pode dizer “Eu não sei o que você tem, mas vamos descobrir”. Como serão os futuros médicos quando as modernas máquinas passarem a ser as mãos que tocam, os olhos que leem os rostos, e os ouvidos que ouvem os pacientes? Como trabalharão os médicos com salários aviltantes e péssimas condições de trabalho nos serviços ditos públicos do Brasil? Que jovem talentoso resistirá ao massacre da ciência médica por um governo mentiroso e corrupto? E nós, o que fazemos para termos um médico a nos ajudar quando sentimos que nossa saúde precisa de assistência? O que fazer para, em vez de equipamentos de última geração, termos um médico que possa ouvir nossas dores, que tenha tempo de fazer um laço de humanidade quando estamos tentando desatar o nó que nos aperta o peito nas dores do corpo e da alma? Só nos resta gritar: doutor, olha pra mim! Aos que ainda nos olham temos a dizer: doutores, olhamos por vocês! Aos que virão, desejamos: sejam médicos e honrem a medicina!

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