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No Filme de Celso Fonseca

Desde a estreia, em 1981, Celso Fonseca vem consolidando uma imagem respeitada e querida na MPB! Inicialmente, como instrumentista e compositor, com forte influência do jazz e da bossa-nova. Em seguida, somou a voz, suave e firme, ao violão e guitarra, igualmente impecáveis. Até agora, são 14 CDs e 2 DVDs editados. Celso também é arranjador e produtor musical. No Meu Filme, seu último álbum lançado em novembro de 2011, nos remete a um Rio luminoso e aromático, como o da bossa-nova, povoado por pessoas do bem, quase ingênuas. A sonoridade não é a mesma de João Gilberto, Jobim ou Menescal. O balanço é o da MPB dos anos 80, uma trilha sonora para ser ouvida em movimento. Discretas influências de George Benson e Pat Matheney, em clima de romantismo dançante. O repertório de Celso é feito de melodias agradáveis, com temática positiva. As letras falam de alegrias, e o raro toque de melancolia jamais se transforma em drama. Uma ou duas, em jejum, pela manhã, garantem um dia feliz!
Senhoras e senhores, Celso Fonseca é o entrevistado da Folha Carioca neste número!

 

TEXTO_RICARDO LINDGREN
FOTOS_ARTHUR MOURA

Você é carioca e nasceu em Botafogo, em 15 de novembro de 1956. Fale um pouco das suas raizes e sobre os lugares onde morou.

Meu pai era pediatra, e minha mãe trabalhava com ele, administrando a sua clínica. Com o meu único irmão, Marcio, morávamos na Tijuca, quando meu pai construiu uma casa no Alto da Boa Vista. No início, somente para fins de semana, mas mudamos em 1966. Eu tinha 10 anos, e morei lá até os 22, quando decidi viver sozinho. Fui para um apartamento pequeno na Rua Sacopã, na Lagoa, onde morei por um bom tempo. Voltei a residir no Alto, em duas outras oportunidades, e hoje moro na Barra, também pela 2ª vez. Morei ainda na Lagoa, Gávea e São Conrado.

De onde veio o gosto pela música? Fale sobre a sua iniciação musical.

Nossa família não tinha músicos de formação, mas respirávamos música de todo tipo, o tempo todo. Meus primos tocavam violão, e meu tio, irmão do meu pai, organizava saraus na casa dele. Lembro o Sinval Silva, autor de vários sucessos da Carmem Miranda. Foi ali, na minha infância, ouvindo Noel Rosa, Heitor dos Prazeres e Geraldo Pereira, que despertei meu gosto e liberdade musicais! Ouvíamos de tudo, sem preconceitos: música erudita, jazz, samba, bossa-nova. Isso estimulou minha vontade de aprender violão, o que fiz por conta própria.

Onde fez o primeiro e o segundo ciclos colegiais? Alguma lembrança que mereça destaque?

Fiz o 1° ciclo no Instituto de Educação e o 2° no Instituto Lafayette, ambos na Tijuca. Quando estava no ginásio, um colega apareceu com uma guitarra elétrica. Foi o primeiro contato que tive com uma dessas. Fiquei encantado e acabei levando essa paixão pro resto da vida. O tempo passou, aprimorei a minha técnica musical e, com os amigos, tocava de tudo nas rodinhas: Beatles, Baden, Jobim, Burt Bacharach, rock, rock progressivo, e até o erudito.

Pensava em ser um músico profissional? Quando tomou essa decisão?

Ainda menino, achava que ia ser médico, como meu pai. Tinha 10 anos e cheguei a assistir a algumas cirurgias infantis, mas ficou nisso. Em outra fase, talvez pela afinidade com as artes, pensei em ser arquiteto, mas na maioridade optei pela área da Comunicação. Quem sabe seria jornalista, publicitário, ou algo ligado à criatividade e à cultura? Entrei para a Comunicação Social, na PUC- RJ, mas não concluí. Chegou um momento em que eu não conseguia mais conciliar a música com os estudos, e o golpe de misericórdia veio quando comecei a tocar com o Gilberto Gil. Tranquei matrícula pela terceira vez, e abandonei. Foi aí, que tive certeza do que queria ser! Hoje, só me vejo trabalhando com música, até porque não sei fazer outra coisa.

Depois, como aprimorou a sua formação musical? A convivência com mestres e colegas influiu na sua carreira?

Sim! Passei a ter aulas de teoria e harmonia com o Professor Claudio Gabis, um argentino que morava e lecionava na Lagoa. Eu adorava jazz e queria tocar bem. O Cláudio, formado pelo Berklee College of Music, era craque na matéria, e foi um grande mestre. Cheguei a fazer um “application” para Berklee, mas na hora de viajar, os amigos e as praias do Rio foram mais sedutores! O Claudio tinha vários alunos: Ricardo Silveira, Victor Biglione, Paulinho Soledade, Torquato Mariano, entre outros. Convivendo com eles, comecei a tocar com um grupo aqui, outro ali, e na época formei o Via Brasil, que inaugurou um local ainda lembrado com grande carinho pelo público carioca: Existe um Lugar, nas Furnas. Era muito longe, pouca gente conhecia, e mesmo assim o sucesso foi enorme. Vinha gente de todas as partes, vivia lotado! George Benson, Spyro Gyra, The Police, rock, blues, e muito jazz! Tocamos lá quase um ano, e até hoje encontro pessoas que falam daquela época com muita saudade!

Depois do Existe um Lugar, o que veio?

Recebi um convite para tocar com aquele que considero o meu primeiro grande professor, Márcio Montarroyos. Lembro-me da primeira turnê instrumental do Projeto Pixinguinha, já como integrante da banda, dividindo o palco com Cláudio Infante, Lulu Martin, Artur Maia, Marcos Resende e o Azimuth. Foi uma época bacana e enriquecedora! Ainda com o Márcio, toquei no Mistura Fina da Garcia D´Avila, em Ipanema. O Márcio era sócio na casa, e tocávamos no segundo andar. Foi também um grande sucesso, e ficamos muito tempo por lá.

Já como músico profissional, qual foi o primeiro grande desafio? Como reagiu diante de uma audiência mais exigente?

Foi ainda com o Marcio Montarroyos, na Sala FUNARTE. Nomes ilustres na plateia: Wagner Tiso, Paulo Moura, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Robertinho Silva, e outros músicos que eu admirava. Na ocasião, fiquei tímido diante deles, e na hora de improvisar, buscava a área menos iluminada do palco, mas o Márcio me empurrava lá pra frente, fazendo com que eu tivesse um destaque que eu não queria ter. Anos depois, acabei tocando e dividindo o palco com a maioria deles. Sempre rimos muito quando lembramos essa noite!

Fez um planejamento de carreira ou as coisas aconteceram empiricamente?

Nunca houve planejamento, simplesmente, aconteceu! Vou repetir o clichê: você não escolhe a música, a música escolhe você. Foi assim! Como instrumentista, depois do Márcio, vieram Gil, Djavan, Milton Nascimento e Gal Costa. Participei de mais de 20 turnês internacionais, como os festivais de Montreux; o JVC, nos Estados Unidos; e o Festival de Jazz de Montreal. Foi um período importante, tudo acontecendo ao mesmo tempo, viagens intermináveis com cento e tantos shows por ano no Brasil e no Exterior. Como músico do Gil, ganhei visibilidade e passei a gravar muito. Desde 81, tocando em bandas e gravando em estúdio, trabalhei com meio mundo da MPB: Caetano, Chico Buarque, Daniela Mercury, Erasmo Carlos, Jorge Ben Jor, Marisa Monte, Simone, Zeca Baleiro, e dezenas de outros. Também estudava muito e tinha muita disciplina e humildade. O músico de estúdio tem que respeitar limites e tocar o que é melhor para a música, mesmo que saiba improvisar e tocar livremente. Aprendi muito cedo essa lição!

O mesmo se repetiu como compositor, cantor e produtor musical?

Eu já fazia temas instrumentais na época do Via Brasil. Tocava jazz, improvisava, e como o improviso é uma forma de compor, logo eu sabia compor. Em 1983, conheci o Ronaldo Bastos que se tornou o meu principal parceiro. Ele já era famoso pela obra com o Milton Nascimento e o Clube da Esquina. Deixei com ele uma fita com 6 ou 7 músicas e aguardei. Dez dias depois, o Ronaldo me ligou, e eu perguntei timidamente: “E aí, gostou de alguma coisa?”. Ele respondeu: “Não só gostei, como botei letra em todas!”. Foi assim, tudo começou com Sorte, gravada por Gal e Caetano. Depois, outros grandes gravaram minhas músicas: Ana Carolina, Bethânia, Daniela Mercury, Gilberto Gil, Nana Caymmi, Ney Matogrosso, Zizi Possi e muitos mais! Como cantor, era 1985, e eu ainda não pensava nisso, mas a Gal ouviu minha demo cantando Sorte e tornou-se minha maior incentivadora. Daí em diante, foram 15 discos solos, além da carreira internacional. Como produtor musical, fiz o meu primeiro trabalho em 1986, também meio por acaso, convidado pelo Vinícius Cantuária, amigo de longa data. Depois vieram Daniela Mercury, Daúde, Dulce Quental, Gilberto Gil, Gal Costa, Martnália, Paulinho Moska, Verônica Sabino, Zeca Baleiro, e vários outros.

Acha válido o toque diferenciado do intérprete na melodia e letra originais?

Sim! Um intérprete deve fazer a sua leitura pessoal para cada canção. Alguns estranharam por eu ter gravado o funk do Mc Leozinho, Ela só pensa em beijar. Eu adorava a música, mas queria cantá-la de forma mais suave, ao pé do ouvido. Foi o que fiz, e toca até hoje! Serviu até de trilha sonora para o casamento de uma fã! A moça mandou um e-mail dizendo que era o tema romântico do casal e tinha que subir ao altar ao som da minha versão de qualquer maneira! Mandei a música por MP3, o casamento foi um sucesso, e ela me agradeceu muito! Outro caso parecido é Queda, do Luciano Salvador Bahia. O Luciano é um grande compositor baiano, mas a minha versão é um pouco mais sem vergonha que a original. As pessoas adoraram a música, se identificaram com o tema, e fizeram dela um grande sucesso nas rádios. É uma das que não podem faltar em meus shows.

Você faz uso intensivo da WEB na divulgação do seu trabalho e na interação com o público. Alguém o ajuda? Qual a sua experiência no assunto?

É verdade! Faço isso sozinho e com grande prazer! Comecei meio por acaso, na época do Myspace, e depois no Orkut, onde tinha alguns fãs. Com o Facebook, só cresceu! Em pouco mais de 1 mês foram 5000 adesões, e lotei o primeiro perfil. Fiz um segundo, que lotou também! Aí, resolvi fazer uma página de artista. Divulguei e incentivei as pessoas a migrarem. Até ameacei desativar os perfis, mas não adiantou! Devem ter pensado que era coisa de assessoria, e só mil e poucos aderiram. Acabei abrindo um terceiro perfil! Fiz muitos amigos no mundo virtual, e alguns se tornaram amigos no mundo real. Faço o possível, e nem sempre dá para atender a todos, principalmente aos pedidos para ouvir todas as músicas que recebo, mas nunca esqueço o meu público. Enfim, são ferramentas muito bacanas, e a postagem pelo celular ajuda muito. Hoje, também uso o Instagram, pois adoro fotografia e compartilho muita coisa por lá.

Se desconsiderasse o lado comercial, mudaria algo na sua forma de compor e produzir um disco? Que novos projetos tem em vista?

Meu compromisso com o lado comercial é zero! Nunca tive essa preocupação, até porque sucesso é algo muito relativo hoje em dia. Para mim, todos os meus trabalhos deram certo, e tenho grande orgulho disso! Só faço e gravo o que eu gosto, o que a música me pede, nunca por oportunismo! Grandes canções são atemporais e podem ser regravadas inúmeras vezes sem perder o frescor. Estou sempre atento a elas! Quanto a novos projetos, sempre tenho algo em mente, ainda que não planejado! Um deles seria voltado para a guitarra. As pessoas cobram uma ênfase maior do meu lado instrumentista, e talvez eu faça algo nesse sentido.

Como foi tocar com Carlos Santana? Algum fato pitoresco? Como o vê no cenário dos grandes da música pop?

Conheci o Santana no Festival de Montreux em 1988. Eu tocava com o Milton Nascimento, e o Santana estava com o Wayne Shorter. Eles abriram pro Milton e depois vieram dar uma canja. Foi a primeira vez que toquei com ele. Houve um novo encontro em São Francisco, e anos depois ele veio ao Brasil para um show no Metropolitan, hoje Citibank Hall. Fui aos bastidores cumprimentá-lo, e logo que ele me viu, perguntou: “Onde está a sua guitarra?”. “Não trouxe! Vim aqui só trazer meu disco novo e te dar um abraço”, respondi. Então, ele colocou um crachá no meu peito e disse: “Não, não, você vai tocar comigo”, e pediu ao hold que me desse a sua guitarra reserva. Foi emocionante! Eu estava diante de quase 10.000 pessoas e subi no palco ao lado do Santana, sem a menor ideia do que ia tocar! A única coisa que ele falou no meu ouvido, foi: “Ré menor”. Foram somente três músicas, mas uma experiência incrível! Tinha que ter acontecido daquela forma! Uma ocasião especial que ninguém gravou, ninguém fotografou, ninguém filmou! Ficou só na memória! Quem viu, viu! Quando saí pelo estacionamento, já de madrugada, o povo passava e gritava: “Valeu, Celso! Show! Foi demais!” Cumprimentavam, buzinavam, e eu ali me sentindo o próprio Ayrton Senna representando todo o Brasil! Santana, além de guitarrista excepcional, é um inventor, um cara muito generoso e espiritualizado. Um ícone que trouxe a sua música para o mundo e conseguiu o que todo músico deseja: uma sonoridade única, que permite ao ouvinte identificá-lo desde a primeira nota!

Finalizando, gostaria de fazer referência a pessoas, dentro ou fora do cenário artístico, que foram (ou são) importantes na sua carreira?

Todos que encontrei pelo caminho foram importantes, de alguma forma. Citaria o meu pai, que me incentivou a fazer o que eu gosto da melhor forma, sempre com amor e dedicação. Citaria ainda, o meu tio, que me apresentou a um violão, quando eu tinha 8 anos, e isso mudou a minha vida. Também agradeço ao Marcio Montarroyos e ao Gilberto Gil, duas almas muito generosas, sempre! Poderia dar muitos outros nomes. São tantos os parceiros e colaboradores por quem tenho uma gratidão imensa. Não se chega sozinho a nenhum lugar, e esse compartilhar sempre me dá grande alegria. A matéria prima da música é a vida, e a nossa vida é o que a gente faz dela. Essa experiência não tem preço, e cada um deve procurar fazer da sua vida uma obra de arte.

O álbum Liebe Paradiso, com músicas de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos, foi indicado para o XIII Latin Grammy,  em 15 de novembro último, em Las Vegas, na categoria de Melhor Álbum de Engenharia de Gravação. Parabéns a equipe!

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