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Iaci Malta

O que há de errado comigo?

Recentemente, eu li um texto muito bem humorado do jornalista Ruy Castro sobre as mazelas, e só mazelas, do envelhecer, e minha reação foi me perguntar: “O que há de errado comigo?”

Será que a vida que vivi não foi suficientemente boa, já que eu não quero de jeito nenhum voltar à juventude e viver tudo novamente? Ou será que simplesmente eu sou um bicho estranho já que nunca lamento estar envelhecendo? Deixando bem claro, eu já sou velha, mas sei que provavelmente ainda terei mais uns 30 anos para continuar envelhecendo.

É bem verdade que estou em boas condições físicas e mentais. É bem verdade que aprendi muita coisa nesses 66 anos de vida e gosto disso. E também é verdade que, como o Ruy, não gosto dessa nomeação de ‘melhor idade’, mas, no meu caso, por considerar que essa é apenas mais uma forma de negar a fase natural e imprescindível da vida que é a velhice, assim como o é a expressão ‘jovem de espírito’ (já falei sobre isso no meu texto Velho: que não é jovem, que tem muito tempo de vida).

Também já recebi textos diversos que tratam das vantagens ou prazeres de ‘ser velho’, como, por exemplo, poder transgredir regras menores de ‘comportamento social adequado’, atingir o estágio da sabedoria (o que quer que seja isso), etc.

Também já escrevi sobre a sabedoria da natureza que não nos impôs a enlouquecedora vida eterna e nem a trágica experiência da morte na plenitude de uma longa juventude.

Agora, tentando responder a minha própria pergunta, cheguei à conclusão de que talvez tenha mesmo em mim uma certa dose de ‘bicho estranho’. Mas acho que não tem nada de errado comigo, pois o que mais percebi desenvolvido em mim com a idade foi a capacidade de aceitar o mistério da vida.

Percebi que sei agora que não é possível termos explicação para tudo, que não é possível tudo entendermos. Essa característica do ser humano, de buscar explicar tudo que o rodeia e permeia – o mundo externo e seu mundo interno – e que é fundamental para seu desenvolvimento (segundo alguns teóricos, isso provém de uma programação biológica e nos distingue dos demais seres do nosso planeta). À medida que ficamos velhos, vamos perdendo a força por deixar de ser tão necessária, podendo assim dar lugar à possibilidade de aceitação do mistério da vida.
Acabo de ‘ter um insight’: será que sabedoria é isso? Simplesmente aceitar o mistério da vida? Se assim for, sem modéstia, já cheguei lá. E gosto disso.

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