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Pelada Poética

O ator Eduardo Tornaghi comanda sarau de poesia todas as quartas-feiras em quiosque no Leme

TEXTO_Renato Amado
FOTOS_ARTHUR MOURA

“O sarau é livre”, apressa-se em dizer o mestre de cerimônias que nega ter tal função. Por livre que seja é certo que o ator Eduardo Tornaghi (foto) – que obteve estrondoso sucesso interpretando galãs em novelas nos anos setenta e início dos oitenta – é a alma desse evento. Com seu carisma e disposição em trazer qualquer interessado que passe pelo quiosque ou pelo calçadão ao jogo poético, Eduardo consegue deixar todos à vontade, democratizando a brincadeira, que tem microfone aberto.

O nome, diz ele, “É porque não tem regras, ou elas são combinadas na hora, como numa pelada”, ou seja, o caráter livre do sarau é reforçado pelo próprio nome e também pela dinâmica. Ao contrário de outros saraus de poesia, o microfone não fica preso a um pedestal, mas gira pela roda, passando de mão em mão. Essa dinâmica incrementa a diversidade de pessoas recitando poemas, pois o simples gesto de esticar a mão faz com que alguém pouse o microfone sobre ela, o que exige uma determinação menor do que a de levantar-se e ir a um ponto de destaque para ler. Com isso, o clima fica leve e despretensioso. Mas não se confunda essa despretensão com falta de qualidade. Ao contrário. O sarau, inclusive, é frequentado por muitos poetas que recitam poemas próprios e, surpreendentemente, em se tratando de um sarau livre, a maioria é boa! Mas os clássicos – sobretudo nacionais – também têm seu espaço. Por lá se ouve muito autores como Augusto dos Anjos e Manoel de Barros. Há até quem se arrisque a ler trechos de canções de bandas como Legião Urbana ou uma pequena prosa poética.

Esse caráter demasiadamente livre, que não raro estraga outros eventos, funciona bem na Pelada Poética pela sua dimensão relativamente pequena, já que conta com uma média de vinte frequentadores por evento. Assim, os chatos de sarau são raros por ali, e é respeitada a energia do momento, ou seja, a menos que esteja um ambiente favorável, ninguém recitará um poema de quinze minutos ou lerá um capítulo de um livro em prosa.

A Pelada Poética, conta Eduardo, ocorre há cinquenta anos. “É uma tradição familiar”. O ator e poeta vem de uma família em que recitar poesias é um hábito. O que ele fez foi apenas levar essa brincadeira familiar para a rua. E nela está, já há três anos, mais especificamente no Quiosque Estrela de Luz. E com que vista…

Pelada Poética

Quiosque Estrela de Luz
Av. Atlântica, próximo ao posto 1, Leme
Quartas-feiras, a partir das 19h
Grátis

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