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Da Gomes Freire ao Beco do Rato: não há nada igual

Um passeio completo pela Lapa revela um cardápio completo para todos os gostos

TEXTO_Renato Amado
fotos_arthur moura

A Lapa é, sem dúvida, o bairro com maior concentração de opções boêmias da cidade. A Folha Carioca caminhou mais de dois quilômetros por suas ruas e apresenta uma lista de opções para curtir a noite na região. Seja elegendo a casa de show que mais combina com o seu perfil, ou flanando pelas boêmias ruas.

lapa-folha-carioca-1849O primeiro lugar de destaque é  a Casa da Cachaça, na esquina das avenidas Mem de Sá e Gomes Freire, hoje em dia o principal ponto de reunião dos mais legítimos boêmios. Com movimento crescente à medida que a hora avança, a Casa reúne músicos, artistas e pessoas de cabeça aberta de variadas ocupações. Com algumas mesas na calçada que são rapidamente tomadas às sextas e sábados, uma  meia-lua de frequentadores segue a curvatura da esquina, tomando parcialmente a rua, que fica fechada à circulação de automóveis nas madrugadas de sábado e domingo. E não se espante se, em algum horário avançado, surgirem alguns músicos com instrumentos de sopro e de percussão tirando um som.

Com alguma dor no coração deixamos a Casa da Cachaça para trás e cruzamos a Av. Gomes Freire, em direção ao Restaurante Nova Capela, que existe no atual endereço desde a década de 60. Especializado em culinária brasileira e portuguesa, o simpático local serve comidas raras e saborosas, como javali e, sobretudo, sua principal marca, o cordeiro assado. Fica aberto até alta madrugada.

Pouco depois, mas do lado oposto da rua, está o Carioca da Gema, casa de show que cumpriu importante papel no início da revitalização da Lapa e até hoje fica (muito) cheia quase todos os dias da semana. Com entradas que vão de R$ 21,00 a R$ 25,00, dependendo do dia da semana, o Carioca da Gema tem shows frequentes da nata dos sambistas que despontaram neste século, como Tereza Cristina e Moisés Marques. O público, majoritariamente, está acima dos quarenta anos.

lapa-folha-carioca-1940Ao lado do Carioca da Gema há o Café Cultural Sacrilégio. Menos tradicional, é o local ideal para quem procura uma opção mais barata e menos cheia. Recentemente o Sacrilégio vem atraindo alguns grupos de samba de destaque, como o Galocantô.

Caminhamos um pouco mais e chegamos à esquina com a Rua do Lavradio, quase sempre lotada por pessoas tomando chope e comendo os saborosos petiscos dos bares Anthonio`s e Belmonte, que dividem a esquina. Uma boa opção para quem gosta de um chopinho com bons petiscos e não está tão preocupado com o valor da conta. A empadinha de camarão com catupiry do Belmonte merece destaque.

Saímos por um instante da Av. Mem de Sá para subir a Rua do Lavradio. Passamos por alguns bares, como o Bar Brasil e o Bossa Nova, até chegarmos, já na Rua do Rezende, próximo à esquina com a Lavradio, ao Centro Cultural Cordão do Bola Preta, nova sede do mais antigo bloco carnavalesco, que se tornou, nos últimos meses, um dos pontos prediletos dos produtores de festas. Com um espaço amplo, em que cabem, com conforto, 500 pessoas, o local tem sediado muitas festas sobretudo de música soul e brasileira, com preços médios de vinte reais. Os anfitriões, claro, também usam sua sede para promover eventos como feijoadas e confraternizações.

Voltamos à Rua do Lavradio e damos mais uma pernada até sua mais bela parte, onde o chão é de paralelepípedos e o casario histórico, para encontrarmos novo fervo. Lado a lado estão o Santo Scenarium e o Rio Scenarium, em frente à Cachaçaria Mangue Seco. Esta, evidentemente, é especializada em cachaça, mas serve também uma cerveja gelada. Alguns caranguejos ficam num tanque esperando pela comanda do garçom. Em alguns dias, há couvert artístico a baixo preço, mas é um lugar mais recomendado para bate-papo do que para uma noite dançante; ao contrário do seu vizinho, o Rio Scenarium, uma das mais bonitas e agitadas casas noturnas da cidade. Já eleita uma das dez melhores casas de show do planeta, o Rio Scenarium, que tem uma decoração primorosa com incontáveis antiguidades, conta com uma acústica invejável e espaço amplo com dois andares e dois ambientes musicais: um com show ao vivo normalmente de samba ou forró – mas com uma pegada pop -, outro com DJ. Lotado de gente bonita e bem vestida e com muitos turistas, é uma ótima opção principalmente para quem tem até trinta anos e busca azaração. A entrada custa entre R$ 20,00 e R$ 35,00, dependendo do dia da semana, e a bebida é cara. Aos finais de semana, recomenda-se chegar cedo, pois costuma ter grandes filas para entrar.

O Santo Scenarium é uma espécie de filial mais vazia e para maiores de trinta anos do Rio Scenarium.

lapa-folha-carioca-2068Voltamos à Av. Mem de Sá e, ainda antes de chegarmos aos Arcos da Lapa, nos deparamos com o quarteirão com mais bares da região. Obrigatório citar o Arco-íris, boteco muito antigo batizado com o nome do referido fenômeno natural que, na época, não simbolizava qualquer orientação sexual. Com garçons mal humorados e demora na entrega da comida, o Arco-íris é o lugar ideal para quem quer um point para tomar cerveja para abrir a noite. A cerveja em garrafa tem bom preço, e o bar fica lotado de pessoas fazendo o aquecimento antes de partir para uma casa de show. E uma dica importante, sobretudo para as mulheres: ninguém vai te olhar de cara feia se você entrar lá só para fazer aquele xixi que não aguenta mais prender. Fica aberto até altas horas.

Logo ao lado está a Choperia Brazooka, um bar de três andares, com mesa de sinuca e que recentemente passou a ter shows. E, ao lado desta, o Teatro Odisseia, casa que já abrigou shows de muitos dos blocos que vêm despontando no carnaval carioca, mas que recentemente tem se notabilizado por sediar diversas festas de produtor, voltadas para o público de vinte e poucos anos. No verão, quando está muito cheia, o calor é escorchante, e a fila para pagar a cartela de consumação, dependendo do horário, é de tirar a paciência dos mais bem humorados. Vende chope a preço justo.

Ao lado do posto de gasolina que tem por ali, vale a menção ao Bonde Sucos, lanchonete que fica aberta durante parte da madrugada e que já salvou muitos estômagos famintos. É a melhor opção nessa região da Lapa para quem quiser algo rápido e barato para comer.

Ao lado da lanchonete está o Leviano, bar com programação musical interessante. No primeiro piso há couvert artístico normalmente de samba. O terceiro andar é como uma pequena casa de show, com um esquema mais bombação. Quem chega cedo pode pagar mais barato e ficar só no primeiro andar. Quem for ao terceiro ganha uma pulseira que permite circular por todo o ambiente.

Do outro lado da rua está o histórico Circo Voador, que dispensa apresentações. E bem próximo, a famosa casa de shows Fundição Progresso, que tem programação variada.

Mas vamos agora nos tele-transportar para a escadaria do Selaron, na Rua Joaquim Silva, sem esquecermos que no caminho passamos pelo Bar Semente, um dos primeiros a abrir na fase de revitalização da Lapa e que sempre conta com bons shows de samba ou chorinho.

lapa-folha-carioca-1885A Escadaria do Selaron liga a Lapa a Santa Tereza. Em 1990, começou a ser decorada pelo artista plástico chileno  Jorge Selarón, com pedaços de cerâmica, ladrilho e espelho, pintados de verde, amarelo e azul, cobrindo toda a escadaria. O belo trabalho ganhou fama internacional e tornou-se ponto turístico. Hoje, a escadaria, além de ser usada por moradores da região, é um dos principais pontos de concentração de boêmios na cidade. Em qualquer horário da madrugada, há uma ou mais rodas de violão abertas a quem quiser juntar-se. Os ambulantes e os bares nos arredores garantem o combustível, e a polícia não parece se importar com a constante fumaça. Poetas de rua são comuns por ali.

Seguimos pela Rua Joaquim Silva até a Rua da Lapa, onde caminhamos em direção à Glória. Pouco antes de chegar ao bairro vizinho, uma curva por um beco à esquerda nos leva ao Beco do Rato, bar com programação de samba e chorinho todas as terças, quintas e sextas.

Ainda na região acontece, em quintas-feiras alternadas, o sarau livre de poesia Ratos Diversos, na Sinuca Tico Taco, na Rua da Lapa, 141. Bastante anárquico, este sarau é bom para quem quer se enturmar com poetas marginais.

Por fim, terminamos nosso passeio voltando para o ponto de início, mas pela Rua Riachuelo, onde passamos pela Sinuca da Lapa, o principal bar de sinuca do bairro, que conta com diversas mesas, tanto grandes quanto pequenas, e uma grande jukebox, com sons variados, que vão do pagode e do axé ao rock’n’roll. O público segue a diversidade do setlist disponível. A porção de fritas tem bom preço e é assustadoramente bem servida. Pode levar uma bela cobertura de queijo derretido por um trocado a mais.

lapa-folha-carioca-1867E chegamos aos destinos finais. Colados um ao outro, à esquerda de quem vai subindo a Rua do Riachuelo em direção à Rua do Rezende, estão a tradição e a modernidade. O clássico Clube dos Democráticos, além da programação diurna com atividades como aula de capoeira, tem roda de samba quase todas as sextas e sábados, e forró às quartas-feiras. Aos domingos, baile tradicional, com traje esporte fino. Já o Lapa 40º, de propriedade do dançarino Carlinhos de Jesus, é uma casa moderna, inaugurada há alguns anos. Disputa com o Rio Scenarium o troféu de lugar de público mais arrumado e maquiado da Lapa. Com boas mesas de sinuca no térreo, a casa dá duas opções: paga-se dez reais para ter acesso somente à parte de bar, sinuca e couvert artístico, ou paga-se um valor que varia, de acordo com o show e com o sexo, de vinte a cinquenta reais, para que se possa assistir ao show principal no grande salão do terceiro andar.

Nesse passeio da Gomes Freire ao Beco do Rato, o que se conclui é que a Lapa é um bairro plural, capaz de agradar a todos os tipos de pessoas, de diferentes idades.

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