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Lilibeth Cardozo

Papo de desconhecidos

Quando chega o verão, os programas do carioca são porta a fora. Nada de ficar em casa secando a pele no ar refrigerado ou molhando o sofá ou lençóis com suor. E é muito bom andar pelas ruas, parques, jardins e, lógico, na areia das praias. Praia é programa que pode ser em grupo ou sozinho, pois no Rio só fica sozinho, calado, sem um papo, quem quer.

Costumo ir à praia sozinha e fazer do meu programa algo como assistir a um espetáculo. O cenário é deslumbrante, os “atores” diversos, o figurino da quase nudez o mais criativo e colorido. E o texto? Ah, o texto… É sempre o mais interessante desse espetáculo. Se você quiser, tem até musical. É só ficar ouvindo as cantigas cheias de malandragem do marketing de cada vendedor. Aqueles homens e mulheres, com pés chutando a areia quente e cabeças torrando no sol de 40 graus, trabalham rindo e fazendo rir. Resolvi que neste verão vou escrever na praia. Basta alugar uma cadeira e uma barraca, sentar e ficar esperando. O texto vem nas vozes dos grupos, nas frases criativas e alegres dos vendedores, nos gritos das crianças… Vem tudo de mão beijada. Essa minha ideia surgiu quando eu, sempre com um livro para ler na praia, ficava incomodada com muitas vozes a meu lado, atrapalhando minha leitura. Passei a prestar atenção na conversa dos outros. Tem cada uma! Ali no Arpoador, bem pertinho do mobiliário chique do hotel das muitas estrelas, tem de tudo: turistas, milionários, pobres, idosos, jovens, crianças etc. No último domingo que fui à praia levei o meu livrinho. Logo que cheguei, um menino de três aninhos, entusiasmado com a proximidade do Natal, me disse: “Pode ficar com a barraca e a cadeira. Vou pra casa, tomar banho, almoçar e com papai e mamãe vamos ao shopping ver o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa”. Um outro menino, tão pequeno quanto, abordou uma criança que estava com a avó que quase babava pelo neto. Ele chamou o menino de menina, que na verdade parecia. A avó esclareceu: “Ele é um menino, como você”. O menino protestou: “Não é não, ele é menina”. A avó acrescentou mais uma vez: “Ele é homem, menino e se chama Miguel.” O espertinho, certo de sua impressão concluiu: “Ah, então é misturado!”

Numa rodinha de amigos, todos com idades entre 30 e 40 anos, um deles discursava seus argumentos sobre estar mais perto da turma dos que tinham entre 20 e 30 anos, que dos de 30 a 40. Ele falava alto (todos falam muito alto na praia) e argumentava sem parar, tentando convencer os amigos de sua juventude. Uma mulher, que me pareceu ser a esposa dele, a única mulher do grupo, caladinha ouvindo, deu a sentença: “Cara, deixe de ser ridículo. Você vai fazer 38 anos na semana que vem. Vá se preparando, só faltam dois anos para os quarenta!”. O pedaço da praia todo riu!

Num outro dia, numa rodinha de mulheres, a conversa em tom muito alto perturbava minha leitura. Resolvi prestar atenção. Parei de ler e comecei a escrever o que ouvia. Uma das moças, linda, jovem e se destacando pelo corpo todo tatuado e um belo maiô inteiro, ao invés do tradicional micro biquíni das demais, contava sua vida. Ruiva, clarinha, disse ao grupo seu nome: Lívia Maria! E Lívia Maria é mãe, solteira, linda, carioca, moderna. Uma das tatuagens está no centro do peito: um coração flechado. Segundo ela um amigo disse que era símbolo de culpa. Amigo, nada, um bobo! Nos braços da bela mulher, vários desenhos tatuados e a promessa de fazer mais algumas. Ela dizia: “Fui modelo, agora ‘me fú’, porque me tatuei inteira. Tenho um filhinho, uma graça, de dois anos e quero cuidar dele. Moro com minha mãe na Ilha do Governador. Comecei minha vida muito cedo. Fiquei casada dos 15 aos 18 anos. Separei e fazia de tudo. Frequentava boates, bares, festas e vivi muito intensamente. Muito menina, eu não sabia o que fazia, mas gostava daquela vida; era muito maneiro! Vida louca, mas hoje só quero arranjar um emprego e cuidar do meu filho”. Lívia e seus amigos, curiosos porque perceberam que eu escrevia, passaram a conversar comigo. Lívia reinava na conversa. Uma moça muito inteligente, articulada, comunicativa. Ela, animadíssima, continuou: “Os homens têm medo de mim. Homens não gostam muito de mulher que tem opinião. Hoje fico muito em casa cuidando do meu filho. Vejo tudo na TV. Vocês conhecem muita gente que viu tudo do mensalão? Eu vi. O que é aquilo, gente?! O Joaquim Barbosa é o cara”, continuou acentuando a expressão “o cara”. E prosseguiu exclamado: “Quantas vezes ouvi ‘data vênia’. Eu acho que data vênia é nome de creme pra jurista. Não parece nome de cosmético, gente?”

O papo de desconhecidos virou uma ótima conversa sobre histórias de vida. As crianças, os homens chegando aos quarenta e a musa Lívia Maria, fizeram todos rirem com suas histórias.

Programaço de verão, essa história de ficar ouvindo e escrevendo os papos de desconhecidos!

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