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Gisela Gold

Pés de verão

Orestes nunca gostou de calçar chinelos fora de casa. Sua mãe já dizia que não era de bom tom um menino andar largado. Como a vida leva jeito de prova de múltipla escolha, “sempre” e “nunca” são palavras perigosas. Ao cair de amores por Olívia no verão de 92, a moça só saía de chinelos de dedo. Dizia que sapato não tem ar condicionado, e seus dedos agradeciam o banho de vento nos pés, a liberdade que aquilo dava, as quantas pedras no sapato que não acumulava. A liberdade de Olívia provocou tanto Orestes. A partir disso, começou a contabilizar quantas pedrinhas não sabia que tinha. Até sentia, mas o sapato não deixava ver; então, estava tudo bem. Uma noite desse mesmo verão, Orestes teve um sonho estranho: um velho sábio, com cara de profeta, calçando chinelos, aparecia na beira de um rio para lhe dizer  “escute, meu filho, a pedra no sapato de hoje é a pedra no rim de amanhã”. Um tanto dramático, mas com sonho a gente não discute. Nunca olhara para os pés, afinal, Orestes fora ensinado a manter a cabeça erguida. Ao fazer a barba, com os pés descalços, lembrou a leveza de Olivia: “a gente encana tanta coisa na cabeça e esquece que só anda se os pés deixarem”. Mês depois, o verão ainda não ensaiava sua quarta-feira de cinzas, Orestes completou mais uma vida no calendário. Sem tirar as remelas, foi ver o sol nascer de chinelos de dedo.

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