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Lilibeth Cardozo

Mulheres de fibra

No dia internacional da mulher há que se pensar em todos os dias das mulheres, na peculiar natureza feminina, nas mulheres que nos fizeram meninos ou meninas, homens e mulheres que hoje somos. São muitas as mulheres de fibra que nos rodeiam: avós, tias-avós, mães, filhas, irmãs e as tantas mulheres que encheram de vida e de saber, coragem e determinação seus filhos, seus homens, seus amigos, seus empregados, seus empregadores e todos que rodeavam suas vidas, como barras bordadas de saias que rodam pela existência de cada um que foi gerado no aconchego de um útero.

Pelo Brasil a fora, na cidade, conversas, falas que emocionam como  ouvir uma mulher muito pobre dizer que teve 13 filhos e, afagando a cabecinha de um único menino de 7 anos, afirmar: “ morreu tudo anjinho, moça. Noitece bom , manhece morto”. E ela acreditava ser assim mesmo,  coisas da vida!

Uma outra, dona Mariana, nos diz: “ O que mais temos se não esse breve intervalo entre viver e morrer. Nascemos para morrer!” Terezinha, uma simples costureira da periferia, referindo-se á sua vida sexual e como evita filhos diz:   “ sei nada não. Ele que sabe. Só sei que sirvo a ele, fico prenha e o menino nasce”. Uma migrante nordestina, mãe de 9 filhos , perguntada sobre a data de nascimento de  seus filhos , esclarece: Sei nada de data. Aqui a gente sabe se nasceu perto de São João, perto do dia da Santa, do Natal , da colheita, da praga no algodão, no inverno ou no verão. Ninguém teve registro”.

Pesquisando nas favelas cariocas é possível ver como a vida, esse tênue fio, tem a força se sustentado por amor e dedicação de uma mulher. Eu, muito menina, com 18 anos, entrevistava uma mulher pobre, elegante e distinta, talvez com uns 40 anos, mas para mim era um senhora de idade. Ela, mãe dedicada e amorosa, relutante em me dizer como mantinha os filhos, me disse: “Você é tão novinha pra saber dessas coisas: sou mulher da vida, minha filha! Enquanto as crianças dormem  vou pra vida, passo a noite inteira na zona, tenho vergonha, mas de manhã trago o pão deles. Não consigo emprego porque tenho que cuidar deles de dia .” Saí  daquele barraco conhecendo uma doída e bela página da vida.

Outras, outras tantas histórias da garra e dedicação….Pude ver  mulheres chorando nos vincos marcados no rosto, sem lágrimas, fervendo água e açúcar  para alimentar um filho que gritava de fome E ali, numa favela dentro da cidade. Inesquecível  ver uma delas  que mostrou os dedinhos das crianças roídos pelas ratazanas que passeavam em volta de seu barraco no alto de uma favela da zona Sul carioca. Uma outra com três filhos pequenos, que vivia sem o marido que a abandonou. Morava num daqueles antigos apartamentos do BNH nunca terminados, muito limpo e bem cuidado e não tinha nenhum receio em dizer; “ na rua não moro com eles! Esse apartamento é invadido. Quando perco um , invado outro.Isso aqui, desses apartamentos,  é muita  bandidagem e proteger  filhos não é ser bandido. Bandido é um pai que abandona os filhos. Não roubo, só pego emprestado por um tempo. Quer um chá? Aqui não tem café. Café é caro demais . Chá é só umas folhinhas e água. Pobre tem que saber viver!”

Mulheres de fibra, mulheres desfibradas, mulheres desfibrando sem comida, pobres, pele e osso, viam minar de seus seios o alimento único, muitas vezes de mais de um filho: o recém nascido e o outro de 2 anos. Mulheres machucadas por seus homens, outras afagadas por seus maridos. Conversei com mulheres que choravam, mulheres que sorriam, mulheres no auge da juventude que pareciam idosas, mulheres idosas que tinham força de jovens… Mulheres, todas, da vida, pela vida e dando vida! Mulheres vincadas pela dureza de tantas lutas, precisando de cuidados, um bisturi para lhes devolver saúde e que nunca pensariam e tê-lo tão somente para serem belas.

Mulheres cariocas do Brasil, parindo e criando os filhos do Brasil. Mulheres que nos orgulham de sermos mulheres, brasileiras, guerreiras!

 

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