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Alexandre Brandão - No Osso

Arranjos fresquinhos para uma velha cantiga pornográfica e outra antipatriótica

Mariquinha do Fubá

Ô, Mariquinha do Fubá, se eu pedir você me dá a mão e me consola. Diz pra mim: “Menino, não tenha medo, o escuro dura um segundo, passa logo”. Lá de trás da bananeira, é, Mariquinha do Fubá, a gente pode mirar o resto do mundo e rir dos que levam tudo tão a sério. O prefeito carrancudo, a dona de casa para quem, se a roupa não seca, a vida acaba. O professor que não entende a ironia do Joãozinho lá da classe dele.

Se eu pedir você me dá, Mariquinha do Fubá, a misericórdia por eu me assustar tanto com a fanfarrice dos dias que nascem mansos, passam em tempestades pela hora do almoço e dormem de lua cheia?

Se você me dá mão e misericórdia, vou andar de bonde com meus sustos. Em cada susto, rabisco um desenho. Em cada susto, alinhavo um poema. Em cada susto, em vez de envelhecer, fico eterno — ou tento.

Você me dá, ô, Mariquinha do Fubá?

Da Independência

Japonês tem quatro filhos, todos quatro nascidos no lajeado. O primeiro é filho de búlgara, o segundo de uma que quase transformou o japa num desgraçado. O terceiro nasceu prematuro e o quarto foi adotado. Vivendo sua terceira viuvez, depois de crescidos os filhos, o japonês largou as beiras do lajeado, berço de pedra de sua prole, e se mandou pra capital. Tentou ser meganha, a idade não permitiu. Arriscou-se como compositor, suas rimas não caíram no gosto da plateia. Foi boxeador até levar o primeiro soco. Acabou, como muitos, no informal; no caso dele, no ilegal. Passou a contrabandear. No circuito Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela, tirou seu ganha-pão. Dali trazia um cadinho da felicidade guarani, outro da felicidade dos descendentes de Tupac Amaru, outro da cota dos guerrilheiros da selva amazônica e até mesmo um pouco daquela que persiste no coração dos descontentes com Hugo Chavez. Distribuía gotas de felicidade nos quatro cantos do Brasil. Para trabalhar, corrompeu. Escondeu-se. Um dia foi preso. Em defesa do réu, o rábula, contratado por alguns clientes desacorçoados com a abstinência forçada, não poupou palavras: “Esse homem, ceteris paribus, compôs o hino de nossa independência, posto que, sem felicidade, não há nação”. Talvez por não compreenderem o latim e o português da defesa, todos no Palácio da Justiça fecharam os olhos diante de tal argumento. O japa percebeu que, estando cega a justiça, bastava andar na ponta dos pés, porta afora, aeroporto afora, Brasil afora. No debate que se seguiu à fuga, jornalista armado de ironia bradou em sua coluna: “Ficou a pátria livre sem que ele (o contrabandista, bem entendido) morresse pelo Brasil”. Especula-se que hoje o japonês, que tem quatro filhos, todos quatro nascidos no lajeado, é monge tibetano numa terra de homens coxos nas barbas do Arzeibaijão.

artigos anteriores de Alexandre Brandão

Publicado em – Edição 117
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