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Improvisos em harmonia

Boêmios apreciadores do jazz têm cada vez mais opções pela cidade

texto E FOTOS_FRED PACÍFICO

Se o samba fundou na cidade o seu terreiro, o jazz vem cada vez mais se espalhando por aqui. Tudo na maior harmonia graças a nossa bendita antropofagia, diga-se de passagem. Vale ressaltar que o relacionamento é antigo. Os amantes das improvisações da beira do Mississipi nem precisam forçar muito a massa cinzenta para recordar os excelentes redutos do ritmo que já passaram pelo Rio.

Muitos órfãos saudosos relembram os clássicos Mistura Fina, o Ouviram do Ipiranga, fora festivais que marcaram época, com o Festival Monterey Jazz, em 1980 no Maracanãzinho, e aqueles que levavam no nome marcas famosas de cigarro, antes da fumaça se tornar inimiga pública número um e serem proibidos os patrocínios dessa indústria. Se a história comprova o público fiel do ritmo entre os cariocas, os eventos mais recentes continuam conquistando cada vez mais público a cada edição. Normalmente acontecem a partir do meio do ano, como o Bourbon Street Fest, que já vai para sua 11ª edição lotando o Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, ou o Leblon Jazz Festival, que com seis edições na bagagem, já se espalhou para além da Zona Sul, desdobrando-se em evento homônimo em Niterói. Mas os amantes do ritmo não precisam esperar tanto.

Cada vez mais casas na cidade têm aberto suas portas e dedicado ao jazz ao menos uma noite da semana, quando não mais. Na triangulação Lapa, Glória e Santa Tereza, se for o desejo do boêmio, todo dia é dia de som, no melhor do estilo de um Jazz à Carioca. O destaque fica a cargo do TribOz (triboz-rio.com) na Rua Conde de Lages, quase esquina com a Rua Taylor e divisa com a Glória. O agradabilíssimo espaço, abrigado em um casebre colonial renovado, é dedicado exclusivamente ao estilo, trazendo semanalmente atrações nacionais e internacionais de alto nível, de quinta a sábado. Vale a pena checar sua programação. Seu dono, o músico e pesquisador australiano Mike Ryan, abriu a casa para ser muito além de um bom palco do ritmo, fundando ali o CCBA – Centro Cultural Brasil-Austrália que realizará, dentre os projetos que desenvolve, a criação da RFO – Rio Fusion Orchestra, continuando o conceito desenvolvido por ele em sua terra natal.

A ideia do RFO é apresentar fusões de jazz de alta qualidade, por uma formação de orquestra composta por 12 instrumentos, entre sopros, percussivos e cordas. “Finquei raízes para colaborar com a música no Rio que tanto amo. Há algo interessante no ar e mudei para cá decidido a fazer parte deste momento. Pretendemos já estar com a orquestra funcionando em maio, apresentando uma fusão do world jazz com o que há de melhor nos ritmos brasileiros. E há muita coisa”, explica Ryan. O jazzista australiano é um PhD em etnomusicologia pela University of Sydney, Austrália, apaixonado pelo estilo e pela musicalidade brasileira, que encontrou na Lapa seu refúgio e onde fundou seu templo. “Fundar o TribOz foi ir contra todas as previsões. Não houve qualquer apoio e ninguém acreditava no potencial, por conta dessa área ser um tipo de off-Lapa. Mesmo assim, fui em frente e agradeço por ter seguido. A casa tem uma energia própria e tocar nesse palco é uma experiência quase espiritual que mexe com quem tem a oportunidade. Não existe isso de área ruim, pois as coisas se transformam. E a verdade é que coisa boa a gente gosta. Não tinha como dar errado”, conta.

Coisa boa a gente gosta

Gostamos mesmo. É só fuçar pela região para perceber que o jazz definitivamente tem seu espaço garantido. Ali pertinho tem o espaço Pica-Pau Cultural (Rua da Lapa, 141) que abriga de tempos em tempos o Jazz do Sobrado, que vale uma conferida na sua próxima edição. Percorrendo a Lapa, encontramos também o Santo Scenarium (santoscenarium.blogspot.com.br), outro endereço que se firmou com apresentações do ritmo, tendo inclusive sediado o Lavradio Jazz Fest, festival muito agradável que toma as ruas da área em fevereiro no melhor estilo Bourbon Street.

A casa divide a noite entre o jazz e o choro, mas sempre priorizando uma programação baseada em instrumental. Fora que bom som, santos e relicários pendendo do teto e cobrindo paredes é uma combinação estética no mínimo abençoada. Vale a visita. Sem falar que ali ao lado fica a Praça Albino Pinheiro, local de muita beleza e importância histórica, entre o Real Gabinete Português de Leitura, o Teatro João Caetano e o Carioca da Gema, que desde 2011 tornou-se palco de apresentações de jazz abertas ao público.

Quem fez ali este bom furdunço, conseguindo reunir até 2000 mil pessoas no centro, em plena quartas-feiras, foi a banda Nova Lapa Jazz (novalapajazz.blogspot.com). Grupo que surgiu com a proposta de democratizar o jazz no Rio de Janeiro e ganhou terreno desde que começou a botar as improvisações na rua. Curiosamente o grupo começou sua empreitada nas calçadas da Rua da Lapa, a menos de um quarteirão do palco do australiano, mas foi realocado pela Subprefeitura do Centro, devido ao grande número de frequentadores. Com certeza vale ser citado e ficar de olho onde essa turma irá novamente botar o bloco na rua.

Alto e bom som

Subindo as ladeiras as opções também se apresentam sedutoras. O Santa Saidera (www.santasaideira.com.br) também abre algumas noites aos jazzistas, valendo a pena ficar de olho na programação. Outro canto que ecoa o ritmo pelas ladeiras de Santa Teresa é o agradável Bar e Restaurante Marcô (Rua Almirante Alexandrino , 412), no conhecido Largo dos Guimarães. Perfeito para ouvir um som e beber uma boa cerveja ‘de garrafa’ por um preço bem razoável para os padrões atuais.
Aproveitando o alto das ladeiras, outro ponto certo na cidade para ouvir um jazz e de quebra curtir um maravilhoso visual é o The Maze (www.jazzrio.com). A casa dedica duas sextas por mês ao estilo e entrou, no último ano, na lista de melhores clubes de jazz do mundo, pela revista americana Downbeat.

Seguindo a proposta de jazz na comunidade, a ladeira Saint Roman, no número 20, na subida do Pavão-Pavãozinho por Copacabana, abriga o Rio Jazz Club, no albergue Pura Vida Hostel (puravidahostel.com.br). Um endereço que tem agradado os amantes do ritmo. Botafogo também não fica para trás. O Bar Clube da Esquina 3 (R. Rodrigo de Brito, 1) tem acertado na programação jazzísticas, se firmando como mais um bom palco do estilo na cidade.

Se você for, assim como eu, adepto e apreciador de um bom jazz, sente, se sirva e fique à vontade. Pode ficar tranquilo que o samba não ficará chateado.

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