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Loucos por relíquias

antig_deco-31Eles circulam por feiras, shoppings, lojas e vendas de garagem garimpando estilos

TEXTO E FOTOS_ Fred Pacífico

Quem gosta de antiguidades encontra no Rio de Janeiro um verdadeiro garimpo de oportunidades. Em uma cidade que acabou de completar 448 anos de idade e já foi a capital do Império, até os objetos são cheios de histórias. Seja em alguma agradável feira ao ar livre, famosos mercados de pulgas, visitando antiquários, brechós ou mesmo através de leilões pela internet, as oportunidades de aquisição de peças cheias de personalidade e história são preciosas para aqueles que sabem olhar ou gostam de procurar.

Uma única peça interessante pode transformar a decoração de um ambiente. Uma casa com personalidade conta histórias, além de ser aconchegante para aqueles que a habitam ou visitam. É exatamente esta diferenciação que move pessoas de todas as idades a garimpar dentre antiguidades, em busca da apropriação de um passado que pode passar a ser seu. “Busco peças que me digam algo, que me atraiam por sua beleza e a possibilidade de resignificá-las em minha vida. Seja o passado direto a que a peça me remete ou uma interpretação que eu dê ao objeto fora do seu contexto original”, conta o designer Sérgio Peralta, que frequenta periodicamente feiras e brechós pela cidade.

Peralta mora sozinho, tem 26 anos, e acha que peças antigas são uma boa maneira de ter uma decoração criativa, bonita e, principalmente, que tenha condição de pagar. “Olho muito, sem pressa, passeando pelos objetos. Às vezes nem levo nada. Vou garimpando até achar algo interessante que caiba na minha vida. Quando encontro uma peça é como achar um tesouro”, diz. Suas peregrinações mais frequentes são pela Feira da Praça XV, no Centro, que acontece aos sábados pela manhã, e atrai pessoas de todos os lugares. “Gosto do clima dessa feira, só acho que tem ficado mais cara nos últimos anos, por isso passei a ir também a outra em São Cristóvão, a Feira do Lavradio, na Lapa, e brechós de outros cantos da cidade”.

As opções não faltam e, procurando com atenção, há peças para todos os bolsos. Além da Praça XV e da Feira Rio Antigo, na Rua do Lavradio, na Lapa, que acontece no primeiro sábado de cada mês em ruas repletas de antiquários, a Feira da Gávea, aos sábados na Praça Santos Dumont, o

Shopping dos Antiquários (www.shoppingdosantiquarios.com.br) e o Shopping Cassino Atlântico, o primeiro na Rua Siqueira Campos, e o outro no Posto 6, ambos em Copacabana, são outros pontos tradicionais para aquisição de objetos de época. Um dos expoentes no segmento é Paulo Scherer, que unificou seu próprio negócio, existente há 18 anos, à loja que herdou do irmão Pedro; juntos eram conhecidos mundialmente como os “gêmeos antiquários”), já com 56 anos em atividade no shopping. “Misturar um móvel ou uma peça de bom gosto dá personalidade à decoração do ambiente. Algo importante em uma época em que as casas têm ficado muito iguais, sem história. A clientela da loja é formada por apreciadores da boa arte, da qualidade dos objetos, ou das histórias a que as peças remetem”, comenta.

Um passado para chamar de seu

Paulo Scherer - AntiquárioPara Scherer, é ótimo perceber o interesse dos jovens. “Todos que entram querendo saber descobrem informações sobre as peças. Isso me motiva estar todo dia aprendendo, me mantendo bem informado”. Nossa entrevistada da coluna Quem é Quem deste mês, Betty Borges, dona do brechó Venda em Garagem (www.vendaemgaragem.com), no Jardim Botânico, também aprecia o grande interesse dos jovens. “Quem tem idade avançada normalmente entra querendo vender e os mais novos para comprar algo que consigam pagar, sem que precise abrir mão do estilo ou da qualidade. Ter um objeto de época é uma forma de se diferenciar da homogeneização que encontramos nos padrões atuais. A juventude quer imprimir sua marca nos detalhes de sua vida. Jogos de prato e copos são peças de grande saída, pois o jovem não se prende às convenções de outras épocas, quando o belo era ter um jogo de louça completo, todos iguais. Eles perguntam ‘Por que preciso ter seis pratos de um tipo, se posso ter quatro que me atendam muito bem?’, assim compram um que o agrade, um que seja o estilo da namorada, outros dois a cara dos pais, para quando forem visitá-los e pronto. É mais do que o suficiente. E se quebrar, é só ir e escolher outro, simples assim”, explica.

Reciclando histórias

personagens-3Betty comenta que a busca por objetos dos períodos pós-guerra é alta, principalmente por conta de suas cores fortes e design arrojado. “Outro fator que observo levar tantos jovens até a loja é a possiblidade de adquirir uma peça que tenha um estilo único. Às vezes procuram um objeto especial, para ser um destaque, ou que relembrem algo que tinha na casa de um ente querido. Os móveis atualmente são verdadeiros caixotes, por isso muita gente procura adquirir um móvel antigo, por conta da sua durabilidade e do estilo”, afirma.

Além da busca por objetos e móveis de qualidade duradoura, há quem busque peças para renovar, dando outra cara à peça. A designer de interiores Ana Maria Lameira, da Caza Design (com Z mesmo), explica que restaurar ou trabalhar peças antigas é uma excelente alternativa para dar uma renovada na decoração, além do reaproveitamento ser ecologicamente amigável. Em sua sala de estar, Ana Lameira possui duas poltronas repaginadas que resgatou pela cidade. “Encontrei as peças destruídas, com todo o couro original do estofado apodrecido, mas com a estrutura em ótimo estado. As peças são excelentes, feitas de madeira maciça. Aproveitei um bom tecido que possuía e as renovei. Há muitos móveis ou objetos de outras épocas que podem ser readaptados para o nosso tempo. Um bom tecido estampado, gráfico, ou mesmo de uma cor interessante, quando usados em um móvel antigo, podem trazer muito estilo ao ambiente”, conta.

A designer de interiores explica que misturar estilos é uma tendência atual e, no site da sua empresa (www.cazadesign.com.br) dá algumas dicas de boas ideias que podem ser aproveitadas. “Alguns móveis carregam uma história e tem que ser harmonizados com a decoração já existente na casa da pessoa. Quem deseja se aventurar tem que ter sempre em mente como funcionará o todo, antes de adquirir uma nova peça. Pensar em como ela, renovada ou não, se alinha com o resto do ambiente. Tem que saber misturar, mas aconselho a experimentar, pois a chance de dar certo é grande”, dá a dica.

A mesa da vovó é minha

antig_deco-79Pegar uma poltrona, uma mesa da vovó, e dar uma cara contemporânea ao móvel foi o que fez Maria Helena Luzcruz e seu marido, o professor e pesquisador dos Institutos de Psicologia e de Economia da UFRJ, Murillo Florindo Cruz Filho. Os dois cresceram em meio a peças antigas e herdaram de suas famílias muitos móveis, além do gosto por objetos de épocas. Depois de sucessivas implicâncias dos filhos, principalmente da filha, que dizia que a casa dos pais “parecia um museu”, a dona da casa resolveu dar uma renovada no ambiente, sem abrir mão do estilo que tanto lhes agrada. “Tínhamos muitos móveis e, por conta de serem quase todos de madeira, nossa sala era escura e muito marrom. Não nos incomodava, mas pedia uma renovação. De tanto nossa filha falar, nos sentimos estimulados a mudar, o que foi muito positivo. Buscamos selecionar o que manteríamos e procuramos passar o que saiu para pessoas que fossem valorizar a qualidade e a beleza das peças”, relembra.

Enquanto peneiravam o que manteriam, escolheram algumas para serem totalmente repaginadas. “Pegamos uma mesinha de madeira maciça que era da minha avó, que acho linda e tem muito valor sentimental, e mandamos laquear de amarelo vivo, para seguir a nova paleta de cores com que pintamos a nossa casa. Ficou tão linda, que nossa filha já mandou eu colar uma etiqueta embaixo avisando que aquela mesinha é dela”, se diverte Maria Helena.

Outro desafio que o casal teve que adequar à nova proposta de decoração foram as coleções, que os dois possuem e valorizam. “Meu pai era um colecionador compulsivo e herdei essa paixão dele. Comecei colecionando plásticos de peças publicitárias quando criança. Mais tarde em minha vida, me interessei por máquinas de escrever, por conta de um livro que tinha. Mas o espaço passou a ser um problema e tive que abandonar. Depois, por volta de 1987, viajando a trabalho, comecei a me interessar pela iconografia de latas de cerveja de diferentes países e passei a colecionar, por conta de 4 latas que trouxe do Iraque, Jordânia e da Síria. Sempre fui apaixonado por história e acabei descobrindo um universo de colecionadores, com associações e clubes de pessoas que dividem o mesmo interesse”, conta o pesquisador que já chegou a ter 1700 peças em sua coleção e é membro do BCCA – Brewery Collectibles Club of America (www.bcca.com).

Viciado em colecionar

personagens-14Um obstáculo que todo colecionador passa, uma hora ou outra, é a falta de espaço. “Colecionar é um hobby saudável, mas há também patologias ligadas ao acumulo que têm que ser observadas. Se as coleções não tiverem um foco, serão infinitas, e a pessoa não para de juntar. Tive que fugir da ideia de entulhar a casa e, por isso, delimitei minha coleção a latas que tenham um diferencial estético que me agrade e passei a ser mais seletivo. Fotografei o que tinha e me desfiz de muita coisa”, explica.

O casal mandou construir um móvel para poderem expor a coleção, integrando a estética, que tanto o agrada, com a repaginação da casa. Mas não só de latas alegra-se o colecionador. Em um cômodo de uso exclusivo do marido, “em comum acordo”, como ressalta Maria Helena, mantém seus livros e outros interesses, como a coleção de Playmobil. Já esta, Murillo limitou a motocicletas e personagens da guerra civil americana.

Limitar a uma temática é uma tática muito comum entre colecionadores. Poder desfrutar de sua coleção e tê-la à vista, como pontos de atenção em suas casas, é motivo de orgulho. “Sempre gostei de cadeiras, mas como são objetos grandes, falta espaço para armazenar. Quem coleciona tem que focar, senão perde o controle”, aconselha Maurício Martins, de 33 anos, que atualmente coleciona pôsteres de cinema e música, assim como objetos relacionados a estes universos, brinquedos feitos de lata e fotografias antigas do Rio, principalmente das corridas de baratinhas na Estrada da Gávea. Professor de geografia em algumas das melhores escolas da cidade e instrutor de vídeo-aulas, no projeto Descomplica, Martins montou boa parte da decoração de seu apartamento no Leblon garimpando pela cidade e tem orgulho de poder expor as peças de suas coleções.

Enriquecendo a vida

“Sempre curti objetos que me remetessem a outras épocas. Comecei apaixonado por livros antigos, até minha vida caminhar para uma sociedade no Sebo e Livraria Rio Antigo (antiga Kosmos) e conhecer o universo dos leilões, que organizávamos por lá. Virei frequentador assíduo de vários outros na cidade e comecei a construir coleções do que gostava”, relembra Martins.

O professor passou quatro anos no negócio, mas, mesmo depois de se desvincular, continuou com seu garimpo. Suas paixões passaram a direcionar suas aquisições, além da necessidade prática por algum objeto, como uma luminária ou um móvel, que ele prefere que sejam antiguidades. “É possível montar uma casa com muita personalidade sem precisar gastar uma fortuna”, afirma. Em sua sala pôsteres de clássicos do cinema e da bossa nova, são iluminadas por lustres e abajures das mais variadas formas, harmonicamente posicionados. “É um prazer receber os amigos em casa e dividir com eles as histórias que sei, que coleciono. Há sempre alguma coisa interessante e é prazeroso para todos. Enriquece a vida”.

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Um Comentário para “Loucos por relíquias”

  1. Hugo Leonardo de Souza disse:

    Olá! Achei muito interesante e gostria de receber todas as novidades de vocês…

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