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Niemeyer em Campo Grande

Na Zona Oeste do Rio, há 50 anos, uma singela homenagem ao arquiteto abriga eternos admiradores de sua obra

texto_MARILZA BIGIO
FOTOS_ARTHUR MOURA

A influência do arquiteto mais famoso do Brasil, Oscar Niemeyer, está presente em muitas edificações por todo o País. Cultuado em cerimônias e eventos, reportagens e entrevistas de especialistas, por ocasião de sua morte, aos 104 anos, no ano passado, certamente Niemeyer desconhecia a singela homenagem que lhe fizeram em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro. No entanto, é essa homenagem, sob a forma da construção das casas da Vila Alexandrina, que mais combina com a personalidade e as ideias do arquiteto de Brasília.

Ele que passou a vida defendendo o comunismo como forma de governo, com vistas à promoção de justiça social – tendo os pobres e oprimidos como alvo – inspirou um anônimo construtor, um admirador de sua obra. Foi no início da década de 60 que Rudah de Carvalho Tupper, cidadão brasileiro de origem inglesa, decidiu construir a primeira casa inspirada no Palácio da Alvorada. Era um admirador de Juscelino Kubitschek, JK, e de Niemeyer. E caprichou na sua cópia do estilo do arquiteto.

Impressiona a precisão dos arcos – projetados em escala tal que permite a uma casa pequena, de cerca de 90 metros quadrados, apresentar a mesma harmonia de formas do Palácio. Quem conta essa história é Geraldo Pedrosa Caldas, 83 anos, que mora nesta casa desde que terminou a sua construção, em 1963.

“Esta foi a primeira casa inspirada em Niemeyer – depois ele construiu no terreno outras 11 casas, mas aí em vez do Alvorada ele copiou o Palácio do Planalto” – diz Geraldo. A primeira casa foi construída para a filha do construtor, Olinda, que se casou com Geraldo. “Meu sogro era apaixonado por JK e Niemeyer”, diz, acrescentando que também ele admira o arquiteto: “As obras dele são um espetáculo!”

A figura de Oscar é tão conhecida, que a empregada de Geraldo, ao atender a nossa reportagem, gritou para dentro da casa:”Seu Geraldo, é pra falar sobre o Niemeyer!” Geraldo conta que neste local – Estrada do Mendanha, 925 – na época não havia nada, apenas terrenos descampados, bois, cabritos e cavalos. Ele não se lembra do porquê do nome de Vila Alexandrina: “Acho que era o nome da mãe do meu sogro”.

Hoje a Estrada do Mendanha é uma importante via do bairro. O pórtico da vila é uma construção que não lembra em nada o estilo Niemeyer, feita muito depois das casas, quando o construtor já tinha morrido. As “Casas do Niemeyer”, como são conhecidas na vizinhança, passam despercebidas em meio ao trânsito pesado dos veículos que vêm da Avenida Brasil. A vila fica entre o Clube dos Aliados, do Vasco da Gama, e uma moderna UPA inaugurada há um ano e meio.

O dia-a-dia dos moradores fica evidente nas varandas com plantas, nas cadeiras de vime, nas roupas postas para secar, no sofá velho abandonado junto aos belos arcos de Niemeyer. Arquiteto que se destacou principalmente como grande artista criador de monumentos – como o Memorial JK em Brasília, o Museu de Niterói e o Memorial da América Latina, em São Paulo -, Niemeyer certamente nunca soube desta humilde homenagem em um bairro carioca. Mas para seu Geraldo, seus dois filhos e quatro netos, o orgulho de morar em pleno Palácio da Alvorada, cercado de vários Palácios do Planalto, e de fazer parte de uma homenagem viva ao grande Oscar Niemeyer… não tem preço!

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Publicado em – Edição 114
Publicado em – Edição 114
Algumas expressões…
Publicado em – Edição 114
Muito a contragosto…
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