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Lilibeth Cardozo

A Bolsa Amarela nunca aos domingos

bebe_cortandoSe você é cidadão brasileiro, quer fazer uma grande doação de vida, não tente aos domingos, está fechado! Minha filha e seu marido tiveram seu primeiro filho, num sábado, dia 16 de março de 2013. Planejaram doar ao INCA  o sangue do cordão umbilical de seu filhinho.

Num gesto de fraternidade e humanidade, seguiram as orientações do Instituto Nacional do Câncer.  Houve um cadastro, orientações e anuência da obstetra. Bem antes do parto iminente, natural, fui pegar o kit para coleta e armazenamento do sangue. Dia 13 de março nasceu o Joaquim, um filho desejado, planejado, amado e cheio de vida.  Foi recolhido o material e, conforme orientação, armazenado numa bolsa térmica, amarela. Antes que completassem 24 horas da coleta (conforme recomendações expressas) levei  o material recolhido ao INCA. Ao  encontrar o banco de sangue fechado, ouvi : “Senhora. Hoje é domingo”.  Percorri corredores, protestei , busquei orientação e não tinha quem recebesse aquela fortuna de vida, dentro daquela bolsa amarela, porque era domimgo!  A importância desta doação era dar a um serviço público de saúde o sangue do cordão umbilical e placentário de minha filha e de meu neto, seguindo o que o próprio INCA apregoa: “quando identificado, no cordão umbilical um grande número de células-tronco hematopoéticas, que são células fundamentais no transplante de medula óssea, este sangue adquire importância, pela doação voluntária, para pessoas que necessitem do transplante”.

Diante do absurdo, ameacei denunciar  à imprensa.  Jovens médicas ficaram aborrecidas (elas não entendem que estão ameaçadas pela soberba e ignorância) e só depois de mais de duas horas consegui deixar aqueles frascos de esperança para  médicos trabalharem, pessoas serem salvas, pesquisas avançarem e nos sentirmos úteis ao bem comum de nosso povo.

Segundo o  INCA, o sangue do cordão é uma das fontes de células-tronco para o transplante de medula óssea, e este é o único uso do material atualmente. O transplante é indicado para pacientes com leucemia, linfomas, anemias graves, anemias congênitas, hemoglobinopatias, imunodeficiências congênitas, mieloma múltiplo, além de outras doenças do sistema sanguíneo e imunológico.

Lá pelos idos de 1982, li e me apaixonei pelo livro A Bolsa Amarela, um clássico da literatura infanto-juvenil, da grande escritora Lygia Bojunga Nunes.  Quando fui buscar os frascos para colher o sangue na hora do parto, eu estava me sentindo sozinha. Vi-me andando pela Praça da Cruz Vermelha, carregando uma bolsa amarela. Dentro dela estavam as recomendações, autorizações e frascos para colher o sangue do cordão umbilical do Joaquim, meu neto, que iria nascer a qualquer momento. Emocionada com o gesto da minha filha, com a visita ao INCA, com um nascimento próximo, com minhas inquietações naturais, fiquei andando pela rua. No céu, uma tempestade se armava. Na praça suja e maltratada, pombos arrulhavam entre cães imundos, homens maltrapilhos e embriagados que gritavam entre si, exibindo sua mendicância. Em volta da praça, um mar de carros, motores, calor, mau cheiro. Rodei pela praça emocionada e meio perdida, buscando uma saída para voltar para casa. Nas escadas do INCA, dezenas de pessoas com rostos assustados, cobertos ou quase sem rosto… Do outro lado, o prédio da Cruz Vermelha Brasileira, caindo aos pedaços, sujo, me fez lembrar de muitas passagens dos livros que li em que a cruz vermelha era a salvação. Na minha memória, a cruz sempre foi bordada em tecidos brancos. Ali, naquela praça, no centro da cidade, talvez já tenha havido um pouco de branco, luz, beleza e esperança. Hoje existe sujeira dor, lixo, doença, abandono. Do INCA saí com minha Bolsa Amarela onde seria guardado o sangue que ligava as vidas de minha filha e de meu neto.

Tal qual Raquel, a menina do livro da Lygia, parece que  eu tinha  na bolsa tudo que se passava  em minha alma. E estava  só, como Raquel. Caminhei com minha emoção, que era triste muito triste. Sem poder contar com a compreensão alheia, companheiros invisíveis e fictícios e começo a depositar na bolsa tudo que se passa em meu íntimo, pois nela há espaço para tudo. Como a menina Raquel, crio um mundo mágico para mim dentro da bolsa amarela, tentando fugir de um lugar ao qual não me sinto pertencer. Me  consideram sem conhecimento de nada, sem  atenção alguma, o que me leva a guardar dentro de mim desejos secretos.  A bolsa passou a ser o esconderijo ideal para as invenções e vontades de Raquel. Tudo cabia lá dentro.  A bolsa amarela da menina acaba sendo a casa muitos pensamentos e histórias inventadas pela narradora, tal qual a minha bolsa, na “Praça da Cruz Sem Cor”, no meio do abandono e caos da minha cidade, dita maravilhosa, acaba sendo a casa das minhas dores, do meu abandono de adulta, de minha emoção e de alguns pensamentos “costurados” ao longo da vida.

Depois do nascimento de Joaquim, a mesma bolsa amarela carrega o gesto humano, solidário, responsável e consciente de uma nova mãe.  Uma vez tive um cordão igual ligando a minha filha a todo o meu ser.

A minha bolsa amarela, pendurada no meu ombro enquanto ando meio perdida pela Praça da Cruz Vermelha, me arranca lágrimas.  Sinto-me uma Raquel. Tenho uma história, como a da grande escritora, em que vibro com a conquista de ser eu mesma, a liberdade, as escolhas por uma vida em que todas as pessoas têm valor pelo que são e pela contribuição que dão ao mundo, ao bem comum.

Tudo cabe numa bolsa amarela, às vezes fica mais leve, às vezes mais pesada!

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Um Comentário para “A Bolsa Amarela nunca aos domingos”

  1. Luana Neves disse:

    Muito interessante esta matéria,bastante informativa!
    Pena que o nosso serviço público ainda é muito precário.Mais uma vez você está de parabéns!!!!!

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