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Arlanza Crespo - Quem é Quem

Barteliê

Há mais ou menos dez anos meu amigo Luiz Octavio me falou de um apartamento onde conhecidos se reuniam para conversar, cantar e tocar, uma espécie de sarau. Era um lugar supercharmoso em Ipanema chamado Barteliê. Ele inclusive tocava piano lá. O tempo passou, nunca cheguei a ir, mas ano passado veio novamente a conversa sobre esse lugar e sua proprietária, a artista plástica Maria Tereza Capell, a Tetê. Resolvi então ir com ele para conhecer.

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Já quando cheguei fiquei fascinada. Um prédio muito antigo, talvez um dos mais antigos de Ipanema, sem porteiro, sem portaria e sem elevador. Perguntei ao meu amigo qual o apartamento e ele disse que era o 3. Como assim? É, o apartamento é o 3, nessa época ainda não se usava 301. Toquei, e outra surpresa: na mini-sacada aparece a Tetê, que desenrolou um barbante até as nossas mãos, com uma pequena cesta amarrada com uma chave dentro. E não disse nada, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se todos os prédios da cidade funcionassem assim. Só isso já teria valido a minha ida! Que delícia voltar naquela Ipanema da década de 30!

Tetê, dona do Barteliê, me recebeu como uma velha amiga, e de repente eu estava lá, num ambiente superagradável, com pessoas que eu nem conhecia mas que logo me entrosei. Foi uma noite muito especial, com piano, canto, poesia, violão e percussão. E de que qualidade! Tetê me falou de como tudo começou, há mais ou menos quatorze anos, e de como surgiu a ideia. Ela sempre gostou de reunir amigos em torno de música e conversa, e a coisa foi crescendo de um jeito tal que ela teve que se organizar. Vinham pedidos para talk shows, festas de aniversário, peças de teatro por companhias de peso, sem falar no nhoque da fortuna todo dia 29. Tudo isso dentro de um apartamento que não é muito grande, com a proprietária morando. Mas para Tetê não existe problema, ela é muito tranquila, e sempre administrou tudo muito bem. Ela é a alegria e o alto astral em pessoa, animada e vibrante, além de tocar divinamente seu piano azul turquesa.

As histórias que aconteceram ao longo desses treze anos são fantásticas, e ela já tem material para um belíssimo livro que pretende editar em breve. Eu ficaria ali ouvindo a Tetê falar por horas a fio, e não posso deixar de contar uma história dentre as várias que ouvi. Uma vez uma moça que estava em pé ao lado do piano bebendo caipirinha, exagerou na dose e já totalmente alterada foi escorregando pela parede onde estava encostada, igual uma geleca. Chegou no chão e dormiu. Devagarzinho Tetê foi ajeitando ela junto do piano, bem debaixo pra não atrapalhar o sarau e deixou ela lá, dormindo. Sabe a que horas ela acordou? No dia seguinte, à uma da tarde. Levantou e perguntou com a maior naturalidade de quanto era a conta.

Histórias deliciosas, um lugar agradável, acolhedor e irreverente, onde você se sente à vontade logo que chega, esse é o Barteliê. Uma ideia muito louca que funciona há mais de quatorze anos e que só foi possível graças à sua proprietária. Ela conseguiu morar e usar o mesmo espaço sem mexer na decoração. Acho que é aí que está a bossa do lugar. A sala é comum, muito bem decorada, com as paredes coloridas, o piano azul turquesa, as miniaturas, as peças artísticas espalhadas por todo lado, os livros, enfim, é a sala dela, e nós somos seus convidados amigos queridos. Os frequentadores são sempre amigos, ou amigos de amigos, e toda a comida é feita pela Tetê que não se importa em se levantar do piano para ir à cozinha preparar um crêpe, ou o “crepelie” como ela chama. Atualmente ela conta com uma ajudante, que entrega uma comanda com o seu nome quando você chega e vai anotando os pedidos.

Se você quiser conhecer a Ipanema de antigamente, um sarau de verdade, um lugar diferente de tudo que o mundo está te oferecendo, não deixe de ir lá. Mas se, mais ainda, você quiser conhecer uma mulher fantástica, uma artista maravilhosa e um ser humano de primeira grandeza, se informe do próximo evento e corra!

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