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Haron Gamal

Livros de Benedito Vidigal passeiam pelo lirismo e recuperam o passado de todos nós

Roland Barthes, em A preparação do romance, diz que o cinema não é capaz de transmitir os cheiros, mas a literatura, sim. Antes, em Sade, Fourier, Loyola, ele havia negado a capacidade da literatura para tal representação. Talvez isso tenha ocorrido porque, naquele período, ele flertasse com a psicanálise lacaniana, e visse no princípio da denegação a impossibilidade de representação do real. No entanto, Em A preparação, Barthes parece mudar de ideia. Analisando as afirmações do escritor francês, chego também à mesma conclusão. Se pensarmos o cinema como uma linguagem organizada através de imagens, por mais criativas que sejam suas sequências de cenas, concluiremos que ele não é capaz de nos transmitir odores. Tomemos com exemplo a sequência de um filme que privilegie a imagem de várias flores. Em primeiro lugar, essas imagens causarão prazer aos nossos olhos, ficando sensações mais sutis, como o odor, em situação de desvantagem, tornando difícil ou mesmo impossível a sua representação. A abordagem de nossos sentidos através da visão acabará por nos marcar muito mais pelos contornos que a imagem sugere do que pelas eventuais propriedades que ela possa comportar. Já a literatura, não; uma vez que é constituída por palavras, desde que usadas com criatividade e esmero, poderia representar os cheiros. O bom escritor precisa nos conduzir, em primeiro lugar, a esses conceitos e sugestões, deixando as imagens para um segundo momento. Na literatura é plenamente possível explicar um perfume. É lógico que os cheiros presentes nas histórias não exalarão fisicamente através das páginas de um livro. O perfume que um personagem usa ou o aroma de uma comida no fogo poderão ser sentidos por nós porque, na verdade, há um misto de conceitos explanados por meio de palavras mais a experiência que vivemos no dia a dia. A verdadeira literatura vai muito além do filme que rola dentro da cabeça de cada um de nós.

Coracos-DesatentosEssa questão pode ser percebida nesses dois livros de Benedito Vidigal, Corações desatentos, de poemas, e Espelho d’água, de crônicas. Em ambos, somos conduzidos aos sabores e cheiros de uma juventude perdida no tempo. E também a situações contemporâneas, mas que não deixam de trazer um travo de sentimentalismo.

No livro de poemas, Vidigal toca em temas amorosos, eróticos, revisita amigos e canta as lembranças proporcionadas pela cidade de Valença à época em que estudou medicina. O eu lírico é um eterno apaixonado. Através de seu percurso, experimentamos toda a intensidade daquele passado.

Destaco algumas passagens de sua poesia, sempre marcada pelo caráter enxuto e elegante.

“Eu te olhava / enquanto dormia / Acordei por nada / ainda no começo da noite / por isso / eu te olhava de pertinho / sentia teu cheiro / cheiro de perfume / cheiro de amor…”, em “Detalhes”. O erotismo surpreendente predomina em “Pela segunda vez”: “Ela lambeu-me / a boca / como se fosse cadela / e saiu rebolando o traseiro / como se cadela fosse / a segui / pelas ruas sem fim / feito cão predileto…”, e também em “Fuxico”: “Um beijo / um cheiro / uma passada de mão / fuxicos ao pé do ouvido / outros beijos / suspiro / e a negação…”. Reparem a sinestesia em “Ermitão”: “A casa exibia / um caramanchão na entrada / lotado de jasmins estrelados / a perfumarem o ar / Cheiravam mais que as roseiras / … lá dentro morava o desejo / desejo não revelado…”. Sobre as recordações, “Lembranças de Valença”: “Naquele dia / seduzido pela cidade / subi o jardim de baixo / desci o jardim de cima / e logo te encontrei / naquela rua / Destino!”. Por fim, Vidigal não deixa de fazer uma elegia a amigos e amigas da adolescência ao construir uma espécie de ciranda em “Our street”: “… Rodem / rodopiem / gente alegre / gente amiga / cujo destino / não nos pode roubar / o afeto…”

Espelho-DalmaEspelho D’água também nos presenteia com histórias em prosa, na maioria das vezes plenas de poesia. São narrativas sobre amores roubados, lembranças de amigos e de entes queridos, encontros e separações. Dentre as vinte e quatro crônicas que compõem o livro, destaco as seguintes: “Espelho D’Alma”; “Colegas, Amigos”; “O Ballet das Almas”; “Sob o estigma do sobrenatural”; “Sem censura”; “Sonhar é preciso” e “Pe. Caio de Jesus”.

No final um inédito, “De mim para você”, escrito pela mãe de Vidigal sobre uma viagem que ela fez à terra natal. Esta crônica, pungente, recuperada e modelada pelo autor, demonstra o gosto e o talento da família de Benedito Vidigal pela escrita, pela poesia, enfim, pela literatura.

Corações desatentos, 119 páginas e Espelho d’alma, 99 páginas
Autor: Benedito Vidigal
Editora Kelps

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