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Gisela Gold

O boneco de Beto

Cada vez que a tia recolhia os desenhos, um em especial lhe chamava atenção. Aquele menino da última carteira a esquerda nunca desenhava o bonequinho de palito com o pé no chão. Tinha chão, mas o boneco estava sempre alguns palmos acima. Bernardo era Beto.Mas Beto não é apelido de Roberto?

Beto roia unha, e sempre perdia o olho do quadro. Rumava para os sapatos, as meninas distraídas, o pilot destampado das mais afoitas. Com eles montava o que queria na cabeça. Tinha sempre uma história. Quando a tia perguntava pergunta fácil, não sabia. O que você quer agora, Beto, carrinho ou bola? Sonho, respondeu. Prefiro sonho.

A vida tomou seu rumo, Beto se fez Dr. Bernardo, assinou papéis, já tinha número de identidade e firma reconhecida.

Certo dia, Beto conheceu Rosana que lhe perguntou o que ele queria: beijo pra agora ou pra sempre? Começou a desconfiar o que queria. Encheu moça de beijos, dos quais nasceu Artur.

O bonequinho já começava a ensaiar o dedo do pé na linha do desenho. Beto não vivia mais de sonho. Tinha a escola de Artur para pagar. Mas o preço de colocar o pé do boneco no chão era alto. Sem sonho, não sabia muito bem responder a pergunta da tia. O que queria mesmo?

Foi uma segunda feira, Rosana estava atrasada e Beto levou Artur para a aula. A escola era a mesma que estudara, a sala de artes continuava a três salas da diretoria e Dona Kátia ainda dava seus berros com as crianças levadas. Beto não resistiu e observava Artur na fresta da porta. A tia estava atenta vendo os desenhos, quando colocou o dedo no papel de Artur. A fresta era suficiente para Beto perceber. Faltava pé no chão do boneco de Artur.

Graças a Deus.

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