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Iaci Malta

A televisão e a desconstrução de preconceitos

Vou começar confessando que sou uma assídua telespectadora de TV fechada, mas não apenas escolho, assisto, gosto ou não gosto. Eu tenho umas manias.

Uma delas é contar, pelos temas, quantos seriados estão sendo apresentados, por exemplo: séries de detetives, de paranormalidade, de “médicos”, de investigação forense, de “advogados”, etc. A outra é usar essas informações para refletir sobre o que possivelmente os consumidores estão demandando ou o que os criadores pensam que os usuários querem, assim como as possíveis influências que a TV pode exercer sobre os consumidores. E é sobre isso que quero falar, sobre minhas observações e reflexões a respeito de como os programas de TV fechada podem nos afetar e contribuir para a desconstrução de preconceitos e posturas discriminatórias.

Bem, eu comecei “confessando” que sou uma consumidora assídua da TV fechada porque sou do tempo em que, no meu segmento sociocultural, era praticamente uma unanimidade considerar que televisão era um malefício, principalmente para crianças, mas, para também ser sincera, eu nunca fui uma telespectadora da TV aberta.

Na verdade esse tema é amplo e assim, precisando fazer uma escolha, resolvi iniciar falando sobre minha conclusão a respeito da influência benéfica de séries americanas da TV fechada sobre a transformação da nossa subjetividade no que diz respeito a preconceitos. Ocorre que observei que cada vez mais são apresentadas séries que confrontam a convicção da supremacia da raça branca, assim como, mais recentemente, já surgem séries que confrontam a convicção de que pessoas diferentes do que consideramos “normais” sejam incapazes.

SeriesQuanto ao preconceito: várias séries trazem personagens negros que ocupam lugares de poder, tradicionalmente ocupados por ‘brancos’. Vemos negros sendo cirurgiões-chefe, juízes, advogados brilhantes, promotores e até presidente americano (antes mesmo do Obama). Como essas séries a que me refiro são apresentadas como uma reprodução ficcional da realidade, a desconstrução da convicção da naturalidade da supremacia da raça branca se faz de forma inconsciente, abrindo caminho para a superação de preconceitos raciais. Observei também que, com relação aos latinos, o movimento equivalente ainda é muito mais tímido.

Quanto à convicção de incapacidade: o melhor exemplo é a excelente série “Big Bang Theory”, apresentada pela Warner, cujos heróis são autistas. Eles são ingênuos, têm dificuldades de entender piadas ou subtextos em geral, isto é, tudo aquilo que depende do desenvolvimento da compreensão da linguagem corporal, mas são físicos brilhantes com uma inteligência intelectual bem acima da média. E essas características descrevem bem a configuração conhecida como Asperger.

Mas o grande destaque é uma nova série, Perception, em que o personagem principal é um psicólogo, professor brilhante de uma universidade, que é também esquizofrênico e que, com suas habilidades especiais, com sua forma diferente de ver o mundo, dá assessoria aos investigadores da polícia desvendando crimes de formas surpreendentes. O aspecto mais relevante é que ele tem delírios, mas desenvolveu recursos para distinguir os delírios da realidade e lida com sua condição de forma a estar integrado produtivamente na vida.

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