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Lilibeth Cardozo

Alegriazinhas da meia-idade

Ah, como é bom ter 55 anos e descobrir no fundo do armário o livrinho de contos de fadas, ver as figuras do príncipe encantado no cavalo branco. Achar aqueles poeminhas de menina, ou as cartas para as amigas quando meu sonho era conhecer um príncipe, casar, ter filhos, morar numa casinha branca de janelas azuis e jardima de dáliaas.

ilustra_lili_maioComo é um prazer, com 55 anos, lembrar dos muitos príncipes que passaram em minha vida, dos beijos que encantaram e das maçãs vermelhas que me envenenaram. Lembrar do tempo em que existiam sacis, lobisomem e lobo mau. Estrelas cadentes traziam o menino da paixão. Cascas de laranja, descascadas com faquinhas finas, eram rodadas ao som do alfabeto e o marido futuro teria o nome começado pela letra onde a tirinha da casca arrebentava. Brincadeira de pêra, uva ou maçã era o máximo da traquinagem e os beijos na boca se chamavam salada de frutas. As leituras eram Monteiro Lobato com as peraltices de Narizinho e os quitutes de Dona Benta. Eu fui uma menina.

Com meus cinquenta e cinco anos coleciono histórias de amor, amigos, família e desfruto do saber acumulado, ganhando serenidade e sempre novas descobertas. E é muito bom poder entender as perdas. O choro, a dor e a alegria. Aprender a lidar com a certeza de que a morte se avizinha e a vida é um breve espaço de tempo entre nascer e morrer. Como posso ainda acreditar em príncipes? Aprendi que aos cinquenta e cinco anos é muito bom beijar os sapos, e sonhar com príncipes encantados é coisa de nossas crianças e adolescentes. Beijar os sapos é admitir que nossos companheiros não são sarados, atléticos, lindos homens de capas de revista. Eles já têm barriga, careca e essas coisas da meia-idade. Não é melhor ser abraçada por um “sapo” muito amado, que nos ama e respeita do que nunca ter um abraço? Aprendi também que não podemos querer a felicidade plena e a vida pode ser feita de alegriazinhas. Alegriazinha que pode estar na simples emoção de ter um namorado na esquina, mal sabemos seu nome e chamamos “namorado” porque nossos olhares se cruzam todos os dias. Alegriazinha que é imaginar, enquanto nos arrumamos para o trabalho diário, pensar que aquele desejo segredado em nosso peito pode acontecer. Uma alegriazinha pode ser colocar a roupa mais bonita, batom nos lábios, um brinco na orelha, porque o porteiro do prédio, o motorista do ônibus ou o colega de trabalho vai comentar que você está mais bonita. Alegriazinha pode ser ter um amante em segredo, não querer casar com ele e não ficar pensando que por isso tem que destruir o seu forte casamento. Alegriazinha de viver uma verdade e ter também sinceridade numas mentirinhas necessárias. Quem aguenta viver a vida, casar, trabalhar, ter ou não ter filhos, ter muito ou pouco dinheiro e com 55 anos ainda achar que a vida pode ser só alegria? Pra mim uma das maiores alegrias na meia-idade é saber que a vida é cheia de tristezas, ganhos, perdas, nascimentos e mortes. Mas acredito que as alegriazinhas que cultivamos nos dão muita força para os sorrisos, as gargalhadas, as boas emoções e nos fortalecem para que sejamos adultos que se alegram por termos momentos em que somos jovens ou crianças com nossas “alegriazinhas”.

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