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Vendedor de sonhos

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O Rock in Rio é o maior festival de música do mundo. Nasceu em 1985, após longo período de ditadura militar, e o Rio se prepara para receber a sua 5ª edição nacional, em setembro próximo. Foram 12 edições mundiais nos últimos 30 anos, reunindo mais de seis milhões de almas. Conquistou o Brasil, Portugal e Espanha, levando múltiplos estilos musicais a diferentes plateias. Mais que um evento musical, é uma referência na divulgação das questões socioambientais, sob o slogan por um mundo melhor.

TEXTO_RICARDO LINDGREN

Para os admiradores, Roberto Medina, seu idealizador, é ousado e determinado. Para os críticos, é megalômano e pretensioso. Ele se define como um sonhador teimoso, e crente em ideias que até a razão duvida. Seja como for, antes de Medina, ninguém conseguiu trazer o superastro Frank Sinatra ao Brasil.

FC: “Não sabendo que era impossível, foi lá e fez”. Você acha que a frase de Jean Cocteau – ou Mark Twain – define bem a sua forma de empreender?

RM: O meu objetivo é sonhar o impossível, e tentar fazê-lo! Se não somos capazes de sonhar, não teremos vontade de tentar, e sem essa disposição, muito do que meu pai fez, do que eu fiz, e do que foi feito na ARTPLAN, não teria existido. É nesse contexto que vejo Dom Quixote, como figura de alta relevância para o mundo dos negócios.

Luiz Antonio Guerreiro / Divulgação

Luiz Antonio Guerreiro / Divulgação

FC: Você é um dos três filhos de Abraham Medina, um pioneiro no marketing e na comunicação. Lembra algum fato que mostre esse lado de empresário dinâmico e inovador?

RM: Sim! Um dia ele achou que geladeiras e máquinas de lavar poderiam ter cores, Falou com os presidentes da Brastemp, e da GE, que argumentaram de forma cartesiana: “Linha branca, é branca! É assim em todo o mundo!”. Meu pai não se conformou! Alugou um galpão e passou a pinta-los por conta própria. Publicou o primeiro anúncio em cores em O Globo, e as pessoas fizeram fila na porta da loja para comprar. Depois do grande sucesso, as indústrias se renderam, e passaram a produzir a “linha branca” em cores, no Brasil e no Exterior.

FC: Ele também fez programas na televisão?

RM: Com a chegada da televisão ao Brasil, meu pai importou inúmeros televisores dos EUA. Esperava um grande sucesso de vendas, mas não deu certo! O aparelho era caro, e os programas fracos. Ao invés de recuar, ele viu ali uma oportunidade, e resolveu produzir um programa de variedades, que chamou Noite de Gala, apresentado por Murilo Nery, com Flávio Cavalcanti, e grandes atrações nacionais e internacionais.
Meu pai também comentava, e uma noite disse que a economia andava mal, e os negócios parados. Eram os anos 60, e um general disse que ele não podia falar aquilo. Sem se dar conta que já estávamos numa ditadura, argumentou que tinha falado a verdade. O general perdeu a paciência, e ameaçou tirar o programa do ar. Meu pai não se intimidou, e respondeu que falaria sobre democracia. Na segunda-feira seguinte, assim que começou, os militares cortaram a transmissão. Noite de Gala foi líder de audiência em diversos canais, por muitos anos.

FC: Podemos dizer que seu pai também foi um pioneiro como empresário cidadão?

REi-da-VozRM: Meu pai dizia que as grandes empresas não deveriam focar apenas o público alvo, mas a população como um todo, promovendo atividades institucionais, capazes de gerar grandes negócios. O Rei da Voz realizava inúmeros eventos no Rio, e eu tinha 16 anos quando ele me incumbiu de levantar fundos para o Natal, que a Associação Comercial fazia com o Rei da Voz, algo como 2,5 milhões de dólares. Falei com todos, cheio de entusiasmo, mas voltei frustradissimo. Ele perguntou quanto eu tinha levantado, e respondi: “300 mil dólares”. Ele concluiu: “Ótimo! Eu nunca consegui um tostão e venho pagando tudo sozinho”.

Outra vez, recebemos uma fatura de 600 caminhões de água. Como não havia justificativa, fiquei desconfiado, e corri para informá-lo. Ele, calmamente, disse: “Pode pagar, está certo!” “Como?” Quis saber mais detalhes. Ele justificou que em função dos meses de forte seca, mandara irrigar o Aterro do Flamengo, por conta própria, sem alarde, e explicou que as empresas só prosperam quando têm atitude participativa e emocional com sua comunidade.

O Mundo precisa de mais empresários como ele, com coragem de quebrar regras, e fazer diferente. Ousar é fundamental. Perde-se uma vez, leva-se um baque em outras, mas o balanço é positivo para todos: empresa, clientes, sócios, empregados, fornecedores, a cidade, o estado, e o país.

Arquivo pessoal / Divulgação

Arquivo pessoal / Divulgação

FC: Você trabalhou em que empresas, como publicitário?

RM: Comecei na MIDAS Propaganda, a house agency do Rei da Voz, que cuidava dos eventos, e da produção do Noite de Gala. Fiz de tudo! MIDAS foi uma escola, sem grandes teorias, mas com muita prática. Nasceu lá a minha paixão pelos grandes eventos. Depois, fui para a ARTPLAN, do Grupo VEPLAN, pertencente ao José Isaac Perez. Comecei em 1968, e também fiz de tudo. Acabei comprando o negócio, em 1972, e em 1974 fizemos uma grande reformulação, criando a ARTPLAN Promoções. Em 1977 mudamos para a sede própria na Fonte da Saudade, e hoje estamos na Barra. Resumindo: de uma pequena casa na Lagoa, onde oito pessoas se espremiam, nos tornamos uma das maiores agências do país, com realizações que marcaram época.

FC: Como foi a história do Sinatra?

RM: A Seagram encomendou uma campanha para o uísque Passport, e fizemos uma peça de testemunho de qualidade, com o David Nieven, ator de cinema de grande prestígio na época. Foi um sucesso, e as vendas aumentaram mil por cento. No ano seguinte, o desafio era superar esse patamar, e propusemos o Frank Sinatra. O cliente, incrédulo, disse que o Sinatra nunca tinha feito um comercial na vida. Respondemos que era bom, justamente, por isso! Fui pessoalmente aos EUA, e o Sinatra topou! No meio da conversa, perguntei por que ele nunca tinha ido cantar no Brasil. O empresário dele pegou uma pasta enorme com dezenas de tentativas fracassadas, e disse que não havia como viabilizar. Na mesma hora, falei que eu mesmo cuidaria do assunto, e que ele faria no Brasil, o maior show da sua vida. Voltei pra casa, fui à luta, e trouxe o homem! Sinatra cantou para 140 mil pessoas no Maracanã, em janeiro de 1980

FC: E a Árvore de Natal da Lagoa?

Árvore de Natal da Lagoa 2008 || Divulgação

Árvore de Natal da Lagoa 2008 || Divulgação

RM: Em 1990 a Bradesco Seguros queria fortalecer sua imagem no Rio de Janeiro. Meu pai dizia que muitas vezes a propaganda bate no teto, e não há mais o que falar para trazer retornos expressivos aos investimentos. Aí, é preciso inventar, fazer o que nunca foi feito, com bom senso, mas assumindo alguns riscos. Foi assim que apresentamos a ideia desse gigante iluminado, flutuando na Lagoa Rodrigo de Freitas. Deu certo, e hoje o Natal do Rio começa quando ela é acesa e termina quando é apagada. Os pais levam seus filhos, os turistas chegam de todas as partes, e a mídia fala nela o tempo todo.

FC: Como nasceu o Rock in Rio?

RM: A Brahma queria rejuvenescer a sua marca, e lançamos a Malt 90, uma cerveja para o público jovem, que chegou a ter 14% do mercado. Creditados pelo êxito, apresentamos o projeto do Rock in Rio, uma loucura total, desde a sua concepção! O local seria totalmente aterrado; Tudo construído do zero. Não havia know how nacional para o evento. O ingresso médio teria que custar 7,5 vezes menos que o padrão europeu, e 10 vezes menos que o americano. Além dos cachês astronômicos, teríamos um custo extra de deslocamento, para trazer as atrações internacionais ao Brasil.

Era para não dar certo, mas com o suporte da Brahma, da Rede Globo, e de outras empresas, viabilizamos o projeto! Um público de 1.380.000 pessoas, um milhão a mais que Woodstock, até então o maior evento do gênero no mundo. Financeiramente, perdi no primeiro, empatei no segundo, e a partir do terceiro, o evento se tornou superavitário.

A lamentar, a demolição da “Cidade do Rock” logo após o termino da primeira edição, por ordem do então governador Leo­nel Brizola, mas o importante é que criamos uma marca de expressão nacional e internacional, atendemos às expectativas dos patrocinadores, promovemos as cidades, e os países que nos acolheram, e deixamos uma lembrança inesquecível na memória de milhões de seres humanos.

FC: E quais as novidades em 2013?

Grupo Queen em apresentação no Rock in Rio Iª edição de 1985. || Luiz Antonio Guerreiro/Divulgação

Grupo Queen em apresentação no Rock in Rio Iª edição de 1985. || Luiz Antonio Guerreiro/Divulgação

RM: São muitas novidades! A Street Dance, inspirada nas ruas de New York, onde dançarinos vão competir, em animadas batalhas. A Rock Street, que esse ano traz os ritmos da Grã-Bretanha e Irlanda. Serão 60 artistas por dia, mostrando o sapateado irlandês, o rock britânico, a música celta, além de mágicos, caricaturistas, malabares, burlesque, e um mundo de atrações.

Queremos gerar um benefício para a Cidade do Rio de Janeiro, através do projeto social “Lixo no Lixo. Rio no Coração. Ajude o Rock in Rio a espalhar essa ideia”. Nosso objetivo é uma economia de 20% dos custos de gestão do lixo urbano, revertida em dezenas de creches para a população. A partir de uma grande campanha que faremos juntos com os cariocas, exercendo um compromisso de cidadania.

Nossa venda de ingressos bateu o recorde mais uma vez: 455 mil vendidos em 4 horas e 4 minutos, esgotando o total de 595 mil, 5 meses antes da realização do festival.

O Rock in Rio, muito mais que um público fiel, tem fãs absolutos, que se identificam com o espírito do evento, e não abrem mão da experiência, do convívio, da emoção, da festa. São mais de 8 milhões e 200 mil seguidores nas redes sociais, em todo o mundo, e o nosso site (www.rockinrio.com/rio) recebe uma média de 150 mil visitas, por dia.

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2 Comentários para “Vendedor de sonhos”

  1. Alana Dutra disse:

    Temos que respeitar muito essa família Medina!

  2. Ricardo Lindgren disse:

    Sem dúvida, Alana!

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