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Gisela Gold

A Outra

Silviana sempre soube que pouco sabia de si. As roupas, ganhava. Bastava vestir.

gisela_gold_109Silviana pagava era com o olho. Olhar de quem não se vê. Não vê, mas percebe que é qualquer coisa diversa daquilo que embrulha o vestido.

Os pés, Silviana calçava com sapatilhas pretas e nelas esquecia seu caminho.

E eram de outros as pedras com que marcava uma trilha, que não ia.

Os caminhantes, esses sim, tinham cara deles mesmos.

Uma tarde, dessas quaisquer, transeunte interrompeu travessia para olhar-se no espelho. Faltava-lhe batom. Demorou-se no contorno. Lábios. Olhos. Queixo. Fios de cabelo fora do lugar. Bochechas a corar. Notava ainda narinas, buço, irretocável tal qual sobrancelhas. A espinha de intimação retocada com pó de arroz.

No espelho não cabiam duas. Pedaço de vidro sempre afastou Silviana, quando outra se conjugava no feminino.

“Não quer mesmo?” insistiu a transeunte. Silviana negou e sorrateiramente teve a boca ajeitada pela outra.

A mesma que botava o vestido comprado por alguém, ainda se olhava pelos olhos de outra.

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