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Lilibeth Cardozo

Do meu sofá vejo o movimento de indignação

Estou em casa, de luto porque perdi alguém que foi amiga por 60 anos. Sem energia, com dor, sofrendo. Não fui às ruas, não participei dos atos públicos. Não ajudei a encher as ruas da minha cidade. Vejo os vídeos na TV, leio jornais, postagens nas redes sociais e sofro, sofro muito. Sofro muito por meu luto e sofro por meu povo. Reflito, leio as manifestações dos que se expressam na internet, nas rádios, na TV. O que vejo é indignação.

Passeata-Candelaria-Pres.-Vargas-2703A informação na TV, nas rádios, nos jornais e na tela do computador chega veloz. Mentiras, verdades, dirigidas ou sem censura, chegam. Fatos aterrorizam, denúncias inflamam, roubos escandalizam, privilégios revoltam, desmandos desorientam. Quem não anda indignado? Quem não sofre ao correr certinho, nos trilhos, vendo outros vagões velozes, ricos, ostensivos, ostentando milhões prateados de trajetos desgovernados? Quem consegue conter a raiva quando fica sabendo o quanto é enganado, roubado, desrespeitado? Quem não quer um amigo, um companheiro, um desconhecido, alguém, qualquer um, que ajude nos gritos de “não aguento mais?” Indignar-se é defender dignidade. O grito é emocional? É, seguramente, que é! Muitos não foram às ruas, mas estão sufocados, buscando uma forma de gritar contra. A mim emociona e não me importa o que vai acontecer. Importa o grito de agora. São gritos que começaram por vinte centavos, mas já ganharam a força de milhões. E os ecos retumbam nos corações dos brasileiros que sabem que existem outras possibilidades. Enquanto intelectuais dissertam sobre ciência política, jornalistas escrevem suas mais aprofundadas avaliações do que assistem nas ruas e dos discursos do governo, estudantes organizam e buscam mãos para enlaçarem e caminharem pelas ruas. Estão todos escrevendo a história do Brasil em 2013. Batizam de despertar do gigante. Operários param os trabalhos e seguem pelas ruas, cariocas de casa saem para as calçadas ou falam com panos brancos em suas janelas. Muitos só sinalizam piscando as luzes de suas casas. Motoristas de ônibus acenam, aprovando a “rebeldia”, bancários, sufocados pelas gavetas e cofres abarrotados de dinheiro, sabem bem de onde e para onde vão as fortunas dos banqueiros. Vejo as transmissões pela TV, e o foco começa a se voltar para os “baderneiros”, os “vândalos”, para os que “não aguentam mais”. As palavras de ordem nas redações mudam para uma dicotomia hipócrita entre “pacíficos” e “vândalos”. O comando do país, com medo do povo que se rebela, começa a dar as ordens. O poder, acuado, pede que se mostrem juntos, nas mesmas fotos, os que somente protestam com os que cometem atos de banditismo. Tudo se orienta entre os bons e maus. Milhares dizem que não sabem o porquê. E o quadro confuso no tom das tintas enche as telas de TV, dos computadores, dos jornais. Mas não são bandidos os que roubam seringas e remédios? Não são ladrões também os que roubaram as salas de aulas, os tijolos das casas, a água das torneiras, os salários dos escravizados, os horários dos trens, os assentos nos ônibus, as vagas nos empregos?  Também não são bandidos os que desviam ambulâncias, roubam plasma, enganam homens simples do campo? Não são assassinos os que cortam as árvores, desviam os rios, aterram lagos e lagoas, asfaltam o barro, quebram as pedras, matam os peixes, exterminam índios e roubam suas terras? Não são amigos os que se encontram nas madrugadas frias enquanto esperam o ônibus? São iguais os que, com sono, limpam os banheiros das casas luxuosas e arrumam as camas dos que dormem em limpos lençóis?  Eles ouvem os gritos e sentem nas gargantas os seus, contidos, arranhando, prendendo o que não seria só um grito, mas um berro. Espalhar o medo é tática para conter os acostumados a não reagir. Medo paralisa e prende: na cadeira, na sala, na varanda, na janela… O medo de mudar, o medo de correr, de ser alvejado, ser preso, ser morto. O medo de ser livre! Os operários nem voltam pra casa, faltam-lhes muitos vinte centavos. A mulher pariu no banco do hospital sem médico, sem leito, sem berço, sem humanidade. E este povo, que dizem ter acordado, vive no país onde políticos ganham fortunas; condenados no mensalão vivem livres e gozam privilégios; atropeladores bêbados matam e são absolvidos; homofóbicos presidem a comissão de direitos humanos; ricos ganham 400 vezes o salário de seu empregado; os roubos do dinheiro público são “normais”.

A farpa do arame que marca a desigualdade está mais afiada: separa, exclui, isola. E ainda querem “adivinhar” o porquê de tanta gente na rua? Passividade não é satisfação. Calma não é contentamento. Silêncio não é anuência. É raiva, indignação, protesto! Avante meu povo! Ficar no sofá não ajuda em nada!

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