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Ana Flores

A paz não é prête-à-porter

Nos vinte anos em que fui professora na Escola Americana, também era editora de um jornal em português chamado O Binóculo, feito com um grupo de alunos adolescentes. Logo depois do atentado às torres gêmeas de NY, a capa do jornal foi uma composição da palavra “Paz” em várias línguas, não só porque a escola recebe alunos do mundo todo, mas para indicar a esperança de que a paz chegasse indistintamente a todos os povos e culturas. Hoje, se a paz voltasse a ser o assunto principal do jornal, minha sugestão para os alunos da equipe seria a de substituir a palavra Paz por “Tolerância”, também em várias línguas.

ana_flores_toleranciaNão tenho, hoje, nenhuma dúvida de que a paz não acontece apenas por pedido ou desejo. Rezar pela paz, querer a paz, tudo vale, mas isso apenas se configura como um primeiro passo. Nenhuma situação de conflito, de mal-entendido, de perseguição ou de guerra pode chegar a bom termo sem que as partes envolvidas se empenhem para tal. A caminhada é longa e muito difícil, implicando renúncias de naturezas variadas, boa vontade para ouvir o outro lado, entender suas razões e, da mesma maneira, fazer-se ouvir por ele. Negociação, troca, perdas e ganhos, perseverança na determinação para um acordo são passos fundamentais para se preparar um terreno adequado à chegada efetiva da paz ou do entendimento.

Se eu, israelita, católica ou budista não me permito ouvir meu vizinho muçulmano ou protestante nem me faço ouvir por eles por meios pacíficos; se eu, hétero ou homossexual não aceito a opção sexual do outro; se eu, branca ou negra, discrimino quem não é igual a mim, então qualquer discurso ou passeata pela paz vira pura retórica. Adotar um credo, uma filosofia de vida, um partido político, um time de futebol, um tipo de alimentação do meu agrado não significa fechar as portas para conhecer a opção de outros ou ser intolerante diante dos que têm outra maneira de ver a vida.

Falar é fácil, fazer é que são elas. Concordo e assino embaixo. Guardando as devidas proporções, também acho difícil caminhar na Lagoa às 6h da manhã, antes de mais uma jornada de trabalho; ou duro resistir à goiabada-cascão com catupiry; ou trabalhoso fazer diariamente a seleção de material para o lixo. Mas cada objetivo tem sua parcela de trabalho pela frente. Se paro de caminhar, não só não melhoro a saúde, como, de quebra, não desfruto da beleza da Lagoa; se não resisto à sobremesa favorita, não vou ter o gostinho de ver o ponteiro da balança se mover para baixo; e se jogo fora meu lixo sem nenhum critério de seleção, não faço minha parte para melhorar a vida na minha rua e no planeta como um todo.

Não sendo uma mercadoria prête-à-porter, a paz, para ser alcançada, também requer trabalho perseverante e algumas renúncias. As ferramentas são a tolerância e a boa vontade; a paz é apenas consequência. Taí uma excelente meta para nossas agendas pessoais e sociais. Só pra começar.

 

 

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Um Comentário para “A paz não é prête-à-porter”

  1. Alexandre Brandão disse:

    Na mosca, Ana Flores. Que muitos leiam seu texto e façam uma reflexão ponderada sobre suas atitudes e mudem o que for preciso.

    Eu já estou fazendo a minha parte: hoje não tiro nem uma lasca daquela goiabada cascão que trouxe de Minas e que está me tirando do sério há algumas semanas. Mas isso é só o começo, vou olhar para aquilo que, mudando minha atitude, beneficie o outro.

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