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A rua é a rede social

“Abaixem as bandeiras. Não temos partidos!” O grito perturbador toma conta de uma parte da manifestação. Em meio a dezenas de milhares pessoas, diferentes grupos entoavam simultaneamente diferentes hinos e palavras de ordem. Que movimento é esse que consegue levar tantos para as ruas sem bandeiras, sem partidos? Claro, há a presença dos partidos e dos sindicatos, uniões estudantis. Mas a essa multidão de maioria jovem e universitária se somaram pais e avós, unindo no mesmo grupo gente que esteve na passeata dos 100 mil, na campanha “Diretas Já!” e no movimento dos caras-pintadas, pedindo o Impeachment do hoje senador da república Collor de Mello. Os partidos e as entidades de classe das mais diversas vertentes estão ali, mas agora são mais “um” na multidão. Não são protagonistas, mas coadjuvantes de um grande cena onde a estrela é justamente a multidão, formada de indivíduos dos mais diversas orientações políticas e origens sociais. A única bandeira que ali representa a todos é a bandeira do Brasil.

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Que movimento é esse? Que multidão é essa? Quem organizou? Quem está por trás? O mais emocionante e instigante dessa onda que se espalha de forma progressiva é que a tecnologia, essa que sempre foi acusada de ser a maior ameaça à vida social, ao encontro real, à presença das pessoas nas ruas, hoje prova seu poder aglutinador, mobilizador, talvez o mais potente já visto. A rede social conseguiu transcender a mobilização vertical das entidades e partidos e criou mecanismo de mobilização horizontal, que, como a água atingida por uma pedra, parece se espalhar em círculos concêntricos, como uma grande onda atingindo todas as camadas da população. Pouco a pouco as pessoas abandonam seu receio e sua incredulidade sobre movimentos e manifestações para abraçar a ideia de todo um país dando um grande basta em todas os absurdos da vida política e social brasileira. Não há uma única pauta (embora o pano de fundo incialmente tenha sido a questão da redução das do transporte público, o que foi conquista em muitas cidades). A pauta é o sentimento comum de que é impossível tolerar a continuidade deste processo político degradante no qual o povo não é ouvido e as decisões são unilaterais, sempre favorecendo a poucos, deixando os cidadãos e as cidades desprotegidos e vulneráveis.

A origem do movimento na luta contra o aumento das tarifas de ônibus foi, por muitos, questionada e criticada. Em meio a tantos problemas nacionais será que essa é uma causa justa? E o quebra-quebra? E o vandalismo? Muito pé atrás, mas olhos e ouvidos atentos. O contraponto logo ficou claro, entre o que era noticiado na grande mídia e o que era exposto pelos cidadãos comuns nas redes sociais – documentado em vídeos, fotos e depoimentos que se espalham como uma fagulha no pavio, atingindo milhares, centenas de milhares, e agora milhões. Não são os 20 centavos do reajuste da passagem, como disse um dos autores dos milhares de textos divulgados a cada minuto na rede: “é a inversa proporção entre o aumento da tarifa e a piora diária da qualidade do transporte público”. É isso, e mais aquilo, e mais tudo que nos indigna todos os dias como “nunca antes na história deste pais”, parafraseando um ex-presidente. Poderia listar uma quantidade enorme de absurdos e leis que vão totalmente contra o bem-estar individual e coletivo, sendo votadas pelo congresso numa grande onda de conservadorismo.

Não vale a pena, todos nós sabemos o que nos indigna e mobiliza. O aumento da passagem por muitos ridicularizado -“são só vinte centavos…” – já ficou provado que era abusivo e muitos governantes tiveram que voltar atrás atendendo ao que agora eles  chamam de “a voz das ruas”. Uma grande mobilização da classe política parece tentar responder a essa voz, mas fica claro que é uma ingênua tentativa de colocar para debaixo do tapete os anos de problemas e se posicionar a favor do povo e de suas manifestações. Não houve um partido ou político que tenha se declarado contrário às manifestações. Muito estranho…

Atualmente não importa mais a origem e o tamanho da fagulha, pois o incêndio se espalhou, e foi tomado por uma onda de roupas brancas e bandeiras verde e amarelas, rechaçando os poucos radicais (300 em 100 mil?) que insistem em usar movimentos e manifestações para extravasar sua agressividade inútil, burra e desmedida. O povo que sempre se autocriticou taxando-se de alienado e acomodado saiu da acomodação e está buscando se informar e colocar em pauta os seus desconfortos seus sofrimentos e suas desilusões de um país que amamos, mas que é constantemente maltratado pelos que ocupam cargos públicos eletivos ou de confiança.

Pela primeira vez ao entrar no Facebook ou no Twitter você não se depara mais com tantos relatos de afazeres diários, mensagens de autoajuda ou fotos de animais fofinhos. O que se vê é uma país inteiro, jovens, adultos e velhos, debatendo e falando de política, de transformação. Criticando, opinando, discordando frequentemente uns dos outros. O que se vê é democracia, um exercício que parece sempre tão difícil no Brasil, mas que agora passou ser a pauta geral da nação.

A gota d´água parece ter sido a ação truculenta e desproporcional das polícias. “O que? Além de engolir tudo isso, ainda por cima não temos mais o direito de ir pras ruas protestar?” “Estão atirando balas de borracha e lançando spray de pimenta nos olhos de nossos filhos e de nossos jornalistas”. Parece que, 30 anos depois do fim da ditadura, ninguém mais admite que o Estado tenha este tipo de orientação. Quanto aos atos de vandalismo destes grupos de origem duvidosa, onde radicais de esquerda se unem ao banditismo, os próprios manifestantes estão enfrentando os vândalos e ajudando a limpar a sua sujeira, como gesto simbólico da não concordância da esmagadora maioria com este grupo de origem desconhecida que vandaliza, depredar e tenta sem êxito, abafar um grito de paz, justiça, liberdade, democracia e, acima de tudo, por respeito de toda uma nação.

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