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Vaidade masculina

TEXTO _ Lilibeth Cardozo

Vaidade: qualidade daquilo que é vão; desejo imoderado de atrair a admiração; presunção, segundo os dicionários. No mundo moderno, a aparência, a moda e a estética ganharam espaço de destaque entre homens e mulheres. Mas a vaidade humana sempre esteve presente na História. Homens e mulheres sempre cuidaram da beleza, e a riqueza dos adornos sempre definiram as classes sociais. No mundo moderno, crescem os apelos para novos consumidores de serviços de embelezamento. Neste cenário, os homens têm aparecido com destaque.

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Reafirmando a ideia de vaidade como hábito feminino, Leonardo, carioca da Gávea, sentencia: “adoro tudo que as mulheres fazem para ficarem mais bonitas, mas sou macho e macho não pinta unhas, não vai a salão. Não me fotografe, sou bonito assim, peludo, barbado e limpo!”. Mas ele já é exceção.

O Brasil já figura em terceiro lugar dentre os países do mundo em consumo de produtos de cuidados com beleza. De acordo com ABIHPEC (Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos), o homem contemporâneo já representa 16% do mercado consumidor de cosméticos no país. Os primeiros homens a usarem salões de estética e beleza foram os homossexuais. A partir dos anos 80, os homens começaram a avançar no consumo, derrubando os preconceitos que relacionavam vaidade com a feminilidade.

Donos e profissionais de salões de beleza afirmam que os homens estão deixando os preconceitos e buscando muito mais os recursos de embelezamento ou destaque de seus atributos físicos como belos cabelos, pele bem nutrida, corpos bem torneados. Atentos ao mercado consumidor, as grandes empresas do setor oferecem mais e mais ambientes dedicados ao público masculino. No Rio, cidade de vanguarda e referência nacional em modernidades comportamentais, os homens são estimulados a cuidar da aparência.

Encontramos na cidade uma rede de salões especializados em atendimento masculino. Os serviços vão desde o corte tradicional de cabelos aos mais sofisticados tratamentos de pele, passando por modernos recursos de química para tintura, alisamento ou relaxamento dos fios capilares. Lucas, com apenas 17 anos, é cliente fiel  de uma das unidades. Se diz muito vaidoso e vem todos os meses da cidade de Paraíba do Sul para acertar o corte do cabelo. O rapaz diz que não sai de casa sem perfume, frequenta academia de ginástica, depila a sobrancelha, o peito e a barriga porque acha mais bonito. Lucas comenta que “rolam piadinhas” sobre sua vaidade excessiva, mas ele não se importa.
A rede de salões investe sempre em tratamentos de beleza masculina e, à luz do sucesso do famoso dia da noiva, uma de suas unidades tem o Dia do Noivo. Para o casamento, um pacote de serviços é oferecido ao rapaz, que uma semana antes da cerimônia começa a se preparar passando por tratamento completo facial, do cabelo, da barba, depilação, massagens ou o que mais o futuro homem casado contratar para sua aparência na cerimônia de casamento. Jorge Mathias, gerente de uma unidade em Copacabana, assegura que existe público “do neto ao avô”.

Um pequeno salão na Rua Raimundo Correia, em Copacabana, cuida da aparência de homens há mais de meio século. Com sua antiguidade no bairro, o salão mantém uma clientela fiel para, “barba, cabelo e bigode”, mas não parou no tempo. Atualmente é unissex. Segundo Ricardo, gerente do estabelecimento, o que foi durante tantos anos uma barbearia já faz serviços mais modernos, tais como clareamento dos fios brancos dos cabelos, mas o forte ainda são os serviços tradicionalmente masculinos. O gerente afirma: “Como sempre fomos uma barbearia, hoje, mesmo com grande frequência feminina, senhores tradicionais vêm cortar o cabelo ou fazer a barba e muitos deles aparam as unhas e, ainda que resistam aos modernos recursos de depilação, retiram pelos rebeldes do nariz ou das orelhas”.

narcisoNa mitologia grega, Narciso foi um herói que, ao ver a sua imagem refletida em um lago, apaixonou-se por si mesmo e morreu durante a tentativa de encontrar a própria imagem. Atualmente, a auto-admiração em excesso é “conhecida” como metrossexualismo.

 

Bernardo Bustamonte é vizinho do salão, se diz muito vaidoso e afirma que vaidade é auto estima  e um cartão de visitas para as conquistas. “Se você gosta de uma mulher bem cuidada, deve se cuidar também”. Bernardo é morador de Copacabana, faz as unhas todas as semanas, a barba regularmente e diz que gasta cerca de R$ 500,00 mensais com cuidados pessoais. No mesmo salão encontramos Alan Moraes, filho do funcionário José Carlos, que, bem humorado, se define como “barbereiro” há 40 anos. Seu José tem muitas histórias pra contar e uma delas é que seu filho Alan, de 36 anos, hoje casado e pai de uma filha, frequenta o salão desde os 2 anos de idade acompanhando o pai. Alan se diz muito vaidoso e não tem nenhum problema para declarar como trata seu corpo: “sou educador físico e trabalho em eventos. Cuido do meu corpo e de minha aparência. Raspo os pelos do pescoço até a coxa. Não gosto de depilar as pernas. Faço as unhas no salão e minha mulher cuida de minhas sobrancelhas.

Ainda em Copacabana visitamos um espaço dedicado à saúde e beleza, onde Roberto, 69 anos, aguardava para uma sessão de bronzeamento artificial. Gaúcho de nascimento, Roberto diz que vive no Rio há 40 anos, já morou em Paris e viaja para a Europa uma vez ao ano. Roberto trabalhou como apresentador de TV e se diz muito vaidoso. Ele tem uma frase para definir sua vaidade: “não cuidar do corpo é falta de respeito consigo mesmo”.  Roberto faz  limpeza de pele, cuida de sua alimentação e diz: “manicure e pedicuro eu não faço por precaução; tenho medo de bactérias e germes. Depilação também não faço porque acho homem depilado muito feio.” Sobre o bronzeamento artificial ele defende o procedimento : “Acho lindo, não tenho tempo ocioso para ficar na praia. Acho que fico melhor bronzeado”.

Marcia Coutinho é esteticista e tem dois salões na zona sul do Rio. Um em Ipanema e outro no Leblon, onde atende a homens e mulheres. Há muitos anos no ramo de embelezamento, Marcia diz que os homens são clientes mais fiéis que as mulheres e a cada dia admitem mais os recursos modernos de cuidados  com os cabelos, pele e pelos. Ela afirma: “Faço nos meus salões o corte  e tintura de cabelos, alisamentos com botox, pintura de sobrancelhas, massagem corporal, unhas. Os homens gostam muito de tonalizantes que disfarçam o branco dos cabelos”.
Edna e Tereza são profissionais de estética e beleza há muitos anos. Elas comentam que a vaidade masculina tem levado muitos homens a admitir frequentar um salão de beleza. Hoje, esses serviços não se restringem a gays e travestis. “Lógico que os gays não têm preconceitos e sempre foram ligados no assunto. Os homens muitas vezes negam a vaidade e escondem o que fazem. Tenho um cliente que diz não ser vaidoso, mas, porque está ficando careca, já fez implante de cabelo, depilação nasal e nas orelhas. “Por outro lado, há alguns homens muito severos: só cortam os cabelos ou fazem barba. Sentem-se ofendidos se oferecermos outros serviços”.

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